Paródias Arquitetônicas

Thomas Pynchon constrói o seu Contra o Dia explorando diversos gêneros

Leonardo Fróes, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2012 | 03h09

Partimos da maquete de um mundo: a exposição internacional que celebrou em Chicago, em 1893, quatro séculos de descoberta da América. E logo vemos, livres de "ilusões políticas", que o mundo ali representado é um circo de horrores. De um lado da miniatura festiva estão os grandes avanços da civilização europeia. Mas de outro se evidenciam "sinais de escuridão cultural e selvageria".

Entre as atrações de Chicago, vemos levitadores hindus, boxeadores chineses, mexicanos marotos e até índios brasileiros que, "sem causar desconforto à cobra", deixavam-se engolir por sucuris, das quais saíam vivos depois. Há um tal afã comercial, tanto se quer vender ali, a qualquer custo, de tudo a todos, que as conclusões do narrador sobre a feira se sintetizam assim: "Os pavilhões quase pareciam representar não nações do mundo, e sim Pecados Mortais".

Feita a maquete, Thomas Pynchon parte para a execução do projeto. Pois é de fato arquitetura literária o que ele faz neste livro, encaixando os módulos da construção de seu mundo, ou as técnicas de vários gêneros já considerados menores, para dar forma e coerência ao fabuloso espaço.

O que vimos em miniatura em Chicago ver-se-á acontecendo na história de boa parte da Terra, do Colorado a Paris, do interior do México aos confins da Sibéria, à medida que personagens e tramas são deslocadas do solo americano para peregrinações além mar. O período coberto em Contra o Dia, de 1893 ao fim da 1.ª Guerra, é a virada de século explosiva que em 1914 arrastaria a Europa para a carnificina total.

Vigora, sem leis que a inibam, a caça generalizada aos tesouros. Impérios racham. Por toda parte há manchas de terror. Nações às voltas com tramoias soltam espiões à deriva. O capitalismo se expande e, transformando florestas em vapor, anda aos estrondos.

Os módulos de construção desta obra - um mundo ou uma catedral em diferentes estilos sobrepostos - são paródias. A primeira, a que nos leva de Chicago para sobrevoar o planeta, é feita como imitação caricata das histórias de aventuras para jovens. O balão Inconveniência, tripulado por garotos, servirá em todo o livro como um ponto de olhar distanciado sobre as maluquices humanas. Preserva-se o estilo do gênero, mas há um enxerto de ideias que não são pueris.

Contam-nos as ironias do texto, por exemplo, que os precursores desses balonistas, por verem tudo do alto, tinham chegado à conclusão de "que o Estado moderno dependia para sua própria sobrevivência de um estado de sítio permanente - circundando de modo sistemático as populações, impondo a fome aos corpos e espíritos, degradando de modo implacável a civilidade até que os cidadãos se voltassem uns contra os outros, a ponto de cometer atrocidades..."

Nas zonas de mineração do Colorado, onde outra paródia se inicia, a das histórias de caubóis, cometem-se atrocidades sem conta. Em cena, há xerifes e ranchos. Há mocinhas espertas e mocinhos bonitos, saloons, bordéis, trapaceiros e - acrescentando cor ao faroeste - patrões mandões e grevistas anarquistas.

O que porém mais sobressai nessa mistura de humores são as bananas de dinamite que explodem a três por dois pela área. A princípio, para abrir minas. Depois, vulgarizado seu uso, até em parques de diversões, sabotagens ou brincadeiras maldosas. Na nação em formação, rapazes costumavam jogá-las entre si e entre risos, já de pavio aceso, para ver se uma banana chegaria a explodir na mão de um bobo.

Um argumento comum de bangue-bangue, a vingança pelo assassinato do pai, transforma os irmãos Traverse em caubóis estilizados por impulsos conexos: as necessidades da sátira, cada vez mais corrosiva, e a força das fraquezas humanas, à qual os rapazes cedem quando há mulheres na mira. Órfãos de um dinamiteiro, eles parecem trazer no sangue o chumbo grosso da infância. Kit, o caçula, que muitas vezes se revelará um anjinho, ainda era menino sem problemas quando assistiu a um homem-bala num parque e "decidiu que ia dinamitar professores, capatazes, lojistas, qualquer um que o irritasse..."

Cimentando as paródias mais visíveis, a dos balonistas que partem pelo céu e a dos caubóis que vão por terra e mar para a Europa, uma terceira se insinua. Com a aparição de um detetive, introduz-se em boa hora, para pintar as intrigas dos antecedentes da guerra, uma imitação dos gêneros policiais.

A presença dos americanos na Europa, e a seguir na Ásia Central, área de grandes interesses em jogo, suscita curiosa fixação em detalhes. Cada cidade, rua, prédio, cada traje é descrito em tais minúcias que até as marcas dos produtos são vistas. Quando alguém usa um Lalique, sabe-se. Quando alguém come em restaurantes, há detalhismo nos cardápios, sempre em línguas locais para manter o sabor. Em Corfu, um dos caubóis e seu grupo "comeram tsingarellu e polenta e yaprakia e stoufado de galinha com funcho", entre outras delícias. Depois, ao som de uma "banda de rembetika", as mulheres "foram dançar uma espécie de karsilamás juntas".

Sabe-se também em detalhes, quando a epopeia americana se torna uma enciclopédia universal sobre a época, que armas, atrizes, balneários, escritores, matemáticos ou místicos então estavam no auge. Na ópera ou nos cabarés populares, sabe-se quem cantava o quê. Liga-se a isso uma tendência do texto às alusões jocosas, veladas ou não, a personalidades e fatos de nossa tradição cultural.

Pode-se mapear este livro como construção literária. Mas não dá para esmiuçar os segredos de suas fórmulas mágicas: as frases insubstituíveis nas quais se plasmam e existem tanta originalidade e abertura. É preciso ir à fonte, e a excursão vale a pena, para saber das bilocações, fantasmas, gnomos, relações entre as cartas do Tarô e a sorte dos personagens, ou das riquezas da luz e dos viciados em luz, entre outros tópicos sutis por sua carga simbólica.

Pode-se mapear este livro? Melhor seria remeter o leitor à página 631 da belíssima tradução de Paulo Henriques Britto, onde estão os princípios do Invisibilismo, uma corrente da arquitetura. Segundo a escola, "quanto mais racional o projeto da estrutura, menos visível ela seria", convergindo o todo, em casos extremos, "para sua metaestrutura". Espiritualizadas as formas, haverá então aí "um mínimo de relação com o mundo físico". E nós, vencidas as provas, estaremos aptos para chegar ao fim, onde outros voos, "em direção à graça", nos aguardam.

LEONARDO FRÓES É POETA, TRADUTOR, AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS DE CHINÊS COM SONO, ARGUMENTOS INVISÍVEIS(AMBOS DA ROCCO)

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