Paródia da crítica e de tramas policiais

Em A Verdadeira Vida de Sebastian Knight, que ganha nova edição, Vladimir Nabokov consolida modelo de romances posteriores

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

A Verdadeira Vida de Sebastian Knight (1941), de Vladimir Nabokov, representou um duplo batismo. Em primeiro lugar, foi o primeiro romance escrito em inglês por um reconhecido mestre da língua russa, que se tornou três décadas depois um consagrado mestre da língua inglesa. O romance também representou a possibilidade de fuga de Nabokov para a América - o que lhe deu uma nova vida, uma vez que o antissemitismo estava tomando conta de Paris, lugar onde vivia anteriormente -, e um cartão de visitas que lhe abriu portas em universidades e revistas. O livro, por sinal, trata também de renascimento - narrado por um biógrafo literário, o Sr. V, ele tenta resgatar a verdadeira vida de seu meio-irmão, Sebastian Knight, que vê mal digerida pela mente limitada de seu ex-secretário particular, Mr. Goodman, autor de A Tragédia de Sebastian Knight.

A obra de Nabokov é ao mesmo tempo paródia de crítica literária acadêmica (esse gênero narrativo sisudo) e de romances policiais (V é um grotesco concentrado do melhor da literatura investigativa). Enquanto V avança desvendando os verdadeiros objetos, lugares e pessoas aos quais seu meio-irmão alude em poemas e romances, ele acaba por se tornar, aos poucos, Sebastian Knight. Começa a especular como ele especularia; a se comportar como ele se comportaria; e, por fim, a amar como ele, ao se apaixonar pela misteriosa Nina.

De certa forma, Sebastian Knight é o protótipo de todos os romances posteriores de Nabokov. Nele estão sinalizadas as futuras obsessões literárias do autor: o narrador culto, letrado e bem viajado que se encontra em estado de confusão por não mais conseguir, de repente, interagir adequadamente com o mundo ao seu redor; a provocação que a inocência brinda a maturidade, fazendo com que ela se constranja e se movimente; a matemática existencial do puzzle, do jogo, da regra, que faz com que o narrador tenha que se desdobrar entre os limites que ele mesmo, muitas vezes, se autoimpõe (como, por exemplo, a tristeza com que Humbert Humbert constata ser Lolita sua amante decadente conforme ela envelhece diante de seus olhos). Em 1962, Nabokov publicaria Fogo Pálido, a obra-prima daquilo que poderia se chamar de romance pós-moderno. É curioso como o grande escritor é um animal peculiar: Fogo Pálido, a história de um professor universitário que decifra a vida de um escritor por meio de seus versos, é Sebastian Knight reescrito, da mesma forma que Lolita (reimaginação de Machenka, a primeiríssima novela de Nabokov, de 1926), foi retrabalhada em proporções épicas como Ada, em 1969.

Nabokov sofre do mesmo problema crônico que aflige quase todos os grandes escritores do século passado; ao se afastar da trama dos romances de folhetim de Balzac e Dickens, e decompor todas as técnicas que lhes davam suporte, a geração modernista acabou se aprisionando em um território nebuloso: uma paixão encabulada pela peripécia, que se desdobra em um ritmo narrativo trôpego.

Autores como o colombiano Gabriel García Márquez e o americano Saul Bellow, dois titãs das letras, são fantásticos fabuladores e seus livros têm tantas páginas quanto peripécias. O mesmo não se pode dizer de Nabokov. Uma resenha sobre suas obras sempre parece um ato de charlatanismo - seus livros podem ser facilmente descritos em um parágrafo. A experiência de leitura de Nabokov é uma experiência de linguagem: a prosa cinzelada, o ritmo preciso, a metáfora engenhosa. Mais universo que prateleira, o leitor que experimentar ao menos três de suas obras já sofrerá contágio suficiente para gravitar sua órbita descobrindo o prazer miúdo de uma prosa detalhista.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

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