Paródia, censura e criação na China

Yan Lianke começou a escrever na década de 70 para tentar escapar da fome e da pobreza da vila rural onde nasceu, na província de Henan,no centro-leste da China. É hoje um dos mais célebres autores contemporâneos do país e tenta escapar de algo bem mais insidioso: a barreira da autocensura, levantada em razão dos limites impostos pelo Partido Comunista à produção intelectual. "Os escritores chineses têm sido controlados há 60 anos e praticam a autocensura de maneira inconsciente", disse Yan em entrevista ao Estado em sua casa, no sudoeste de Pequim. "A autolimitação que impomos a nós mesmos é mais terrível que a própria censura."

CLÁUDIA TREVISAN, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

Com três de seus sete romances banidos na China, o escritor, já traduzido em 20 países- no Brasil inclusive -, aceitou uma série de exigências dos censores na tentativa de publicar O Sonho da Vila Ding, que trata da contaminação de milhares de camponeses com o vírus HIV em sua província natal. Pobres, eles vendiam seu sangue a empresas que não adotavam precauções para evitar que a doença se espalhasse, o que se transformou em um dos maiores escândalos da história recente da China. Mesmo com todas as concessões, o livro foi o terceiro de sua carreira a ser proibido.

Debruçado em seu novo romance, que escreve à mão, Yan está empenhado em evitar qualquer limitação à criatividade provocada pelo temor de ver seu trabalho banido novamente. "Eu tenho que tentar pelo menos uma vez escrever apenas pela arte, a literatura e a minha alma, sem me preocupar em relação à publicação."

O escritor diz que sua nova obra conta a história "extremamente ridícula" de uma criança de 7 anos que é encarregada de punir escritores, intelectuais, músicos e outros artistas quando eles cometem alguma contravenção. É clara a paródia da história recente da China, marcada por inúmeras campanhas de perseguição aos que ousavam desafiar a ideologia oficial.

A produção literária de Yan começou em 1975, durante a Revolução Cultural (1966- 1976), inspirada por outro escritor, Zhang Kangkang, que havia sido transferido do campo para a cidade depois de publicar seu primeiro livro. "A lembrança mais forte que eu tenho da minha vida no campo é a fome. Nunca havia o suficiente para comer e todos os dias era batata doce, batata doce, batata doce e, às vezes, batata doce com milho. Tínhamos que comer isso em 300 dos 365 dias do ano", recorda o escritor.

Yan é o mais novo de cinco irmãos e nasceu em 1958, no início do Grande Salto Adiante (1958-1962), a desastrosa tentativa de Mao Tsé-tung de industrializar o país em tempo recorde, que matou 30 milhões de pessoas de fome. O que tirou o autor desse cenário desolador não foi a literatura, mas a entrada no Exército de Libertação Popular (ELP), no qual ele permaneceu por 25 anos, até 2004. Sua primeira base foi Wuhan, na província de Hubei, onde chegou em 1979. "Foi a primeira vez que vi trens e televisão. Eu nem sabia que essas coisas existiam."

Mesmo depois de se tornar soldado, Yan continuou a escrever. Eram obras "vermelhas", que falavam de luta de classes e exaltavam as virtudes do comunismo e de seus líderes. Aos poucos, ele foi reconhecido como um intelectual dentro do ELP e passou a ser responsável por atividades culturais, além de ser escritor. O exército chinês é peculiar, possui grupos de teatro, dança, ópera e seus próprios artistas.

A guinada na carreira literária de Yan veio em1992, com Xia Riluo, que também trouxe o primeiro embate com os censores. A obra fala de dois oficiais militares, heróis de guerra e amigos inseparáveis, que se acusam mutuamente quando um subordinado comete suicídio, em ambiente de corrupção e cinismo. É uma espécie de adeus aos comunistas irrepreensíveis que apareciam em suas obras "vermelhas". Yan conseguiu publicar Xia Riluo em uma revista literária em 1993 e, no ano seguinte, recebeu a notícia de que o livro havia sido proibido. Durante seis meses, foi obrigado a escrever autocríticas, a clássica punição do período maoista que sobreviveu nos anos posteriores.

Rompimento. Apesar dos problemas com a censura, o autor permaneceu no ELP, criando de maneira cada vez mais independente. Logo depois de Xia Riluo, ele leu as obras de escritores ocidentais do século 20 que iriam influenciar de maneira decisiva sua produção literária. O que mais o marcou foi o mexicano Juan Rulfo, autor de Pedro Páramo e O Chão em Chamas. No mesmo período, leu Gabriel García Márquez, Franz Kafka e Albert Camus. "Os livros de Rulfo, Márquez e Kafka me ajudaram a encontrar uma nova maneira de escrever."

Essa "nova maneira" levou a seu rompimento com o exército em 2004, depois da publicação de Shou Huo, uma sátira devastadora sobre um ambicioso oficial do Partido Comunista.

Na tentativa de ser promovido, ele cria um circo com moradores da vila Shou Huo, onde quase todos são deficientes físicos. Seu objetivo é obter recursos suficientes para comprar dos russos o corpo embalsamado de Lenin e transformá-lo em uma atração turística na China.

O livro não foi banido, mas valeu a expulsão de Yan do ELP. Também deu ao escritor o prêmio literário Lao She, um dos de maior prestígio na China - ele já havia ganhado o Lu Xun em 1997 e 2001.

A segunda obra de Yan a ser banida foi A Serviço do Povo, de 2004, publicada no Brasil em 2008 pela editora Record. Os protagonistas são a mulher de um oficial do ELP e um soldado de origem camponesa, que vivem um romance intenso em 1967, quando o culto à personalidade de Mao Tsé-tung havia assumido contornos de fanatismo religioso.

Apesar de a profanação de símbolos maoistas poder ser punida até com a morte, os dois amantes aumentavam a temperatura de seus encontros rasgando exemplares do Livro Vermelho de Mao e estilhaçando estátuas do líder comunista.

Desta vez, Yan não teve que escrever autocríticas. As regras da censura chinesa haviam mudado e as punições não eram mais aplicadas ao escritor. Desde então, quem sofre as consequências pela publicação de algo "impróprio" são os diretores das editoras, o que os deixou bem mais cautelosos no momento de escolher as obras que colocarão no mercado.

No caso de A Serviço do Povo, a empresa responsável pela publicação recebeu advertência e multa, seu presidente foi transferido e perdeu a promoção que receberia e o editor-chefe foi demitido.

Como os escritores escrevem para serem lidos, isso aumenta o ciclo da autocensura mencionada por Yan. "É claro que eu espero que meu novo livro seja publicado. Mas quando eu o escrevo de maneira realmente livre, eu sei que ele já ultrapassou os limites impostos pelas regras oficiais."

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