Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

Parlapatões comemoram 20 anos

Fiel ao estilo, mas com novos experimentos, grupo estreia retrospectiva neste sábado, 10

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2011 | 00h00

Um chapéu, um tijolo e uma flor. São esses os símbolos que os Parlapatões escolheram para si. "Passar o chapéu seria a nossa forma de conseguir dinheiro", explica Hugo Possolo, um dos líderes da trupe. "A flor representa o lirismo que não queremos perder. E o tijolo é o trabalho."

Muito trabalho: mais de 30 peças no currículo e uma trajetória que completa agora 20 anos. Conhecido por seu apego às técnicas circenses - e sua especial devoção à figura do palhaço -, o grupo comemora o aniversário com um novo espetáculo. Domingo é o dia da estreia de Ridículos Ainda e Sempre, um mergulho na desconhecida obra do escritor russo Daniil Kharms.

Foi em 1991, ainda sem a alcunha de Parlapatões, Patifes & Paspalhões, que a companhia formada por Hugo Possolo e Alexandre Roit surgiu. Os atores, que se conheceram na escola de circo de Santo André, estrearam ao estilo dos antigos artistas mambembes. Fizeram sua primeira apresentação na Praça da República. E não pararam mais. Os números circenses levados à praça pública deram origem ao primeiro espetáculo: Bem Debaixo do Seu Nariz.

Ao longo dessas duas décadas, muita coisa mudou. Alexandre Roit deixou a trupe. Raul Barreto entrou dois anos depois da criação e está até hoje. O palco montado na rua também se transformou. Há cinco anos, inauguraram uma sede na Praça Roosevelt. Criaram um circo próprio, o Roda. Empregam hoje mais de 60 funcionários.

Aquele estilo dos Parlapatões que se delineava em sua origem, porém, permearia as criações futuras: o olhar bem-humorado, o deboche, certo jeito anárquico de criar e de se apropriar da dramaturgia, mesmo quando diante de obras canônicas da literatura. "Temos um estilo que contamina todas as peças. Só não temos uma fórmula", lembra Hugo Possolo.

É essa ausência de fórmulas que leva o grupo a se arriscar continuamente por novos territórios. Em 1998, a estreia de ppp@WllmShkspr.br jogava o grupo diante de uma encruzilhada. Eles nunca tinham sido vistos por tanta gente. Jamais alcançaram tamanha repercussão. Deviam então acomodar-se ao sucesso e seguir por aquela trilha? "Em nenhum momento pensamos em repetir uma receita", diz o ator e diretor, anunciando que pretende remontar o espetáculo em 2012. "Agora, deu vontade de fazer de novo."

Fazer rir. Herdeiros diretos do Ornitorrinco - a cia. de Cacá Rosset que revolucionou o teatro dos anos 1980 - também se tornaram representantes de uma nova geração do circo. Nunca abriram mão da intenção de fazer rir: "É essa a função principal de uma palhaço", lembra Possolo. E seria esse o pressuposto da trajetória que construíram.

Um caminho que incluiu obras criadas sob medida, entre elas muitos textos de Mario Viana, como Um Chopps, Dois Pastel e Uma Porção de Bobagem. Mas também um retorno contínuo aos autores clássicos: Shakespeare, Rabelais e Aristófanes.

Para comemorar os 20 anos, a intenção era voltar a beber na fonte da tradição. Molière estava na mira. Mas a criação subversiva e praticamente incógnita do poeta futurista Daniil Kharms acabaria se impondo.

Por sugestão de Antônio Abujamra descobriram a peça. Em cena, mostram um passeio por situações prosaicas: a história de um amor perdido, de uma crise econômica. Ao fim, contudo, o percurso resvala no teatro do absurdo e os leva, mais uma vez, para uma vertente inexplorada. "Não queríamos comemorar com nostalgia, mas olhando para a frente", diz Possolo.

RETROSPECTIVA

Parlapatões, Patifes e Paspalhões

O espetáculo, lançado em 1992, foi a primeira montagem do grupo fora da rua e estreou no teatro João Caetano. Foi essa peça quem deu nome ao grupo.

Um Chopes, Dois Pastel e Uma Porção de Bobagem

A peça de Mario Viana nasceu dentro do projeto Pantagruel e estreou em 2000. Permanece ainda hoje no repertório da trupe.

ppp@WllmShkspr.br

O espetáculo, que subverte passagens da obra de William Shakespeare, estreou em 1998 e é o maior sucesso da trupe. Foi dirigido por Emílio di Biasi e deve ser remontado em 2012.

O Pior de São Paulo

Um inusitado city tour pela capital, o espetáculo foi lançado em 2007 e voltou em 2010. A proposta se inspira no projeto do bufão espanhol Leo Bassi, que organiza o tour O Pior de Madri.

RIDÍCULOS, AINDA E SEMPRE - Espaço Parlapatões. Praça Franklin Roosevelt, 158, tel. 3258-4449. Sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 40. Até 30/10. Estreia domingo.

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