Paris vê a luz de 'Fra Angelico'

Mostra do pintor do Quattrocento italiano ocupa o museu Jacquemart-André

ANTONIO GONÇALVES FILHO, PARIS, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2011 | 03h09

O Natal parisiense está mais iluminado que nos anos anteriores. Essa luz não vem propriamente das milhares de luzinhas da fachada das Galeries Lafayette no Boulevard Haussmann, mas de uma fonte sobrenatural instalada no Museu Jacquemart-André, também no mesmo boulevard - mais exatamente, no número 158. É lá que se pode ver (até o dia 16 de janeiro) uma das mais impressionantes exposições da temporada de inverno de Paris, Fra Angelico et les Maîtres de la Lumière, rara mostra com pinturas emprestadas por colecionadores e museus italianos - San Marco, Vaticano e Uffizi, entre outros - e franceses.

Não é sempre que um museu particular, formado com o acervo dos proprietários de um dos mais belos edifícios de Paris, recebe obras tão valiosas de instituições públicas, mesmo considerando o valor inestimável das peças da coleção particular da família de Édouard André - o que inclui pinturas italianas renascentistas adquiridas por Nélie Jacquemart. Numa associação com a superintendência da província de Parma e Piacenza e dos museus de Veneza, o conservador do museu Jacquemart-André, Nicolas Sainte Fare Garnot, organizou uma mostra que certamente vai passar à história por reunir num mesmo museu (cujo acervo tem obras de Mantegna, Botticelli, Tiepolo) alguns dos melhores pintores do Renascimento italiano, entre os quais se destaca um santo - de verdade, beatificado em 1982 pelo papa João Paulo II.

Fra Angelico (1387-1455) só podia ser mesmo santo para pintar com tal convicção, a ponto de ser definido por seu primeiro biógrafo, o historiador de arte Giorgio Vasari (1511-1574), como um "anjo a serviço do Senhor". Angelico, ou Guido di Pietro, nome civil do artista, faz cair de joelhos o mais obstinado ateu diante dos seus afrescos no convento de San Marco, em Florença. Sua pintura, genuinamente imaculada, prova que a vocação missionária do dominicano é capaz de renovar, de fato, até um purgatório do consumo como o Boulevard Haussmann, iluminando a todos com sua luz difusa, gótica, nada naturalista, proveniente de uma fonte não identificável.

A exposição traz outros artistas do Quattrocento italiano, de técnica tão apurada como a de Fra Angelico, como Lorenzo Monaco, seu mestre, Paolo Uccello, Filippo Lippi, Gentile da Fabriano e Benozzo Gozzoli. Com esses nomes, talvez não seja preciso continuar a lista. No entanto, o centro da mostra é mesmo Fra Angelico, cuja iniciação às regras da arte segue rigorosamente o compromisso ético de um religioso que, ao que se sabe, nunca retocou uma só pintura, guiado, segundo Vasari, pela perfeição divina. Ele foi ainda capaz de introduzir inovações formais que fazem dele, até hoje, um pintor de olhar moderno. O uso do ouro, em Angelico - ponte entre o gótico tardio e a cultura florentina do Renascimento -, é escrupuloso, usado dentro da tradição que define o espaço imaterial do sagrado, incorruptível como o mais precioso dos metais.

Sua perspectiva, no entanto, é revolucionária, deliberadamente ilusionista. Exemplo maior dessa modernidade é uma pequena têmpera sobre madeira (cerca de 1447-1449), emprestada pelo Museu do Vaticano, que retrata o nascimento e o despertar da vocação de São Nicolas de Tolentino. Angelico antecipa em cinco séculos um truque cinematográfico utilizado pelo cineasta Michelangelo Antonioni no plano-sequência de O Passageiro (Profissão: Repórter), de 1975, em que a câmera sai do quarto do protagonista para alcançar o mundo exterior. Sem câmera, mas com a habilidade do pincel, Fra Angelico cria uma ilusão de profundidade inaudita ao resumir a vida de São Nicolas, padroeiro das almas do purgatório, em três ambientes (a casa paterna, a igreja, e a casa das três mulheres pobres onde realizou um milagre). O pintor subverte a regra do ponto de fuga único e submete os três prédios a uma linha horizontal imaginária que recorta a pintura em duas, fazendo com que o interior das casas e o exterior se comuniquem - exato como faria mais tarde Antonioni, ao deslocar uma câmera portátil num fio que atravessa a janela do quarto de Locke (Jack Nicholson) e segue pela praça até atingir o prédio vizinho.

Como bom dominicano, Fra Angelico não devia mostrar orgulho, mas, com certeza, sabia ter um dom visionário. O fato é que uma visita ao Museu de San Marco, em Florença, pode atestar que o pintor antecipou muitas outras mídias. As cenas da vida de Cristo, pintadas entre 1450 e 1452 (têmpera sobre madeira dividida em 12 episódios), é, talvez, a versão mais antiga de graphic novel que se conhece - além de parecer também um orientador gráfico contemporâneo, como se fosse o storyboard de uma superprodução cinematográfica. A têmpera maior desta página, O Martírio dos Santos Cosme e Damião (1438-1443), tem, aliás, uma construção cênica chocante como um filme de Tarantino, ao mostrar a decapitação dos gêmeos médicos que curavam os pobres na Síria.

Paradoxalmente, a dura vida como dominicano garantiu a Fra Angelico uma liberdade artística garantida a poucos pelo mecenas e chefe da família dos Médicis em 1430, Cosme, o Velho, fundador da dinastia política que mandava e desmandava em Florença. A pintura tridimensional de Angelico herdada de Masaccio foi reinventada por ele de forma vanguardista, embora isso não signifique uma rejeição às formas tradicionais de representação, como observa o especialista Neville Rewley. As madonas de Fra Angelico são exemplos desse apego à escola dominante no Quattrocento, embora as variações entre elas - do grafismo e cores das roupas à expressões da Virgem e de Jesus - sejam infindáveis. É possível, por exemplo, ver na têmpera desta página, que retrata a madona e o menino (de 1450, período derradeiro da vida do pintor), uma riqueza de detalhes que não existia nas despojadas primeiras pinturas da Virgem, ainda impregnadas do estilo gótico. Ela é, enfim, a síntese da experiência artística de um pintor moderno que não desprezou os antigos.

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