Paris revê Gaston Chaissac, o "rude esclarecido"

Gaston Chaissac (1910-1964) é um fenômeno tipicamente francês. A exposição retrospectiva de sua obra, apresentada no Jeu de Paume até o dia 12, prova que mesmo os artistas que poderiam passar a vida não reconhecidos e incógnitos em qualquer parte do mundo são legitimados neste país como glória nacional. Gênio e talento não garantem o sucesso. Basta que sejam descobertos por um mestre do calibre de Dubuffet ou que tenham mantido extensa correspondência com interlocutores brilhantes, como Paulhan ou Queneau. Não que Chaissac não possua seus méritos. Pintor, escultor, escritor (com especial aptidão epistolar), ele foi um artista raro, cuja obra pôs em xeque os estatutos da arte e da cultura numa sociedade que, na época, se julgava elitista. Considerado ao mesmo tempo "poético e contestatário", seu trabalho sempre esteve voluntariamente à margem. E, embora ele tenha sido mais um mágico visionário e laborioso do que um mestre, a sua perseverança e liberdade fizeram nascer um conjunto insólito que nenhum crítico conseguiu enquadrar.Nesse mundo à parte inventado por Chaissac, e que inspirou artistas como Corneille, Pierre Alechinsky, Baselitz e Robert Combas, a figura humana é central e se exprime por meio da pintura, da colagem e da construção com materiais inabituais. Os suportes também são infindáveis: de telas a refugos orgânicos de caixas amassadas a pranchas recuperadas de madeira. É uma produção profusa, fecunda, que poderia lembrar a de Picasso, mas ao contrário, resulta um tanto quanto prolixa pela repetição e insistência nos mesmos motivos.No entanto, Gaston Chaissac não era um artista obsessivo da "arte bruta", da qual Dubuffet foi o defensor e com o qual ele partilhou o autodidatismo e o mesmo interesse pelos grafites anônimos, os desenhos infantis e as expressões populares. "Eu sou o Dubuffet de tamancos e ele é o meu primo de Paris", dizia este artista que se retirou para a província, mas que se recusava a ser o refém da "arte bruta", um sistema que não tinha nada a ver com suas experiências, segundo ele, na "pintura rústica moderna".Embora tudo levasse a crer, Chaissac estava longe de ser um pintor "ingênuo". Era, na verdade, segundo as palavras de sua mulher, um "rude informado" que de certa forma escondia seu enorme conhecimento. "Tenho, sem dúvida, a alma muito próxima dos artistas de circo que, como eu, sabem apenas escrever e não são instruídos senão pelo que vêem", dizia ele.Matisse e Klee - E ele viu bastante. Nascido numa família pobre da Borgonha, o sapateiro Chaissac descobriu a arte em 1937 no contato com os pintores Otto Freundlich e Jeanne Kosnick-Kloss, em Paris. Durante a guerra foi protegido por André Lhote e Albert Gleizes que o apresentaram a André Bloc e Aimé Maeght. Ali, ele descobriu a arte de Picasso, Braque, Matisse e sobretudo de Klee.Infelizmente, a tão esperada retrospectiva do "rude esclarecido" no Jeu de Paume, que poderia nos apresentar apenas os pontos altos da sua exuberância e inventividade, nos sufoca com uma exibição em massa. São 355 trabalhos atulhados no pequeno espaço da galeria nacional que tornam a exposição tão fastidiosa quanto a sua obra. Daniel Abadie, diretor da instituição, conhecido pelo seu grande talento em montar exposições (é talvez o melhor da França), surpreende desta vez.Por causa de um excessivo entusiasmo, de pressões comerciais ou por um simples descuido crítico, põe a perder a força de toda uma trajetória. Tanto que o que resta dessa importante mostra é a impressão melancólica da supervalorização e do falsete. A primeira é uma das várias e aleatórias regras intelectuais com as quais se determina na França o que deve e o que não deve ser um grande brilho nacional. E a segunda é, por enquanto, a regra estética principal para se chegar a esse brilho.

Agencia Estado,

03 de novembro de 2000 | 18h07

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