Paris revê a arte do "antipintor" Francis Picabia

Para ver e compreender a obra de um gênio como Francis Picabia é preciso esquecer o que se aprendeu. Mesmo que quase tudo seja pintura na enorme retrospectiva que lhe dedica o Museu de Arte Moderna de Paris até 16 de março, não é a "boa pintura" que se encontra ali. Impressionista, orfista, dadaísta, figurativo, abstrato, poeta, romancista, crítico, polemista, diretor de revista, roteirista, cenógrafo, realizador de balés, festas e performances, Picabia, que utilizou ainda o cinema e a fotografia, foi antes de tudo um "antipintor" que precocemente previu a crise da arte.No entanto, para revelar a aventura ardente e ao mesmo tempo cética do múltiplo e excêntrico artista francês, amigo de Marcel Duchamp antes ainda da primeira guerra, não há outra maneira senão uma exposição ajuizada e cronológica como esta. Também não é possível mostrar a totalidade do que ele produziu, cerca de mil telas apenas em seu período impressionista de 1902 até 1912. Excessivo em tudo, na pintura, no verbo, no amor, Picabia ? que nunca se levou realmente a sério ? foi um dos talentos mais fecundos e complexos do século 20.O percurso da mostra, que se chama Francis Picabia, Singular Ideal, começa com as paisagens que marcam a sua ruptura com Pissaro e Sisley e avança pelos retratos de imitação ou de reprodução já completamente desordenados e originais. Tudo é simultâneo, livre e recorrente. Como as suas espanholas com o xale e o pente, que voltam em todas as épocas. Picabia utiliza o que lhe cai nas mãos: revistas, fotos, objetos, frases, imagens nobres e infames, figuras mitológicas, coisas da moda e da memória. Concebe uma pintura que retraça todos os seus desejos e pensamentos por mais absurdos que possam parecer.A mecânica mental do artista torna-se por um triz indecifrável e mesmo perturbadora, pois, às vezes, alia a graça e a elegância a uma espécie de perversidade quase criminosa. Como Duchamp, ele desmonta todas as aparências. Único artista europeu a participar do famoso Armory Show de 1913 em Nova York, declarou à imprensa americana: "Não pinto o que meus olhos vêem. Pinto o que vê o meu espírito, a minha alma."Foi depois da experiência americana que Francis Picabia iniciou o seu período das máquinas no qual ele desenvolveu desenhos com morfologias de rodas, engrenagens, bombas e compressores combinadas com textos e pensamentos. Apaixonado pela iconografia de aparelhos e instrumentos, mundano e grande apreciador de mulheres e automóveis, ele já havia passado pela guerra e se tornado um dadaísta convicto.Aqui, para a nossa tortura mental, entram pinturas absolutamente conceituais como a sua assinatura transformada em obra, o quadro L´Öil cacodylate assinado por todos os amigos que passavam em seu ateliê e até mesmo os trabalhos kitsch com nus roubados das revistas Paris Plaisir ou Paris Sex Appeal. Centenas de publicações, aforismos, escritos, caligramas estão entre as séries pictóricas realizadas nos anos 20 e 30. Mas Picabia também verte nas telas muitas coisas sombrias e patéticas onde a morte é onipresente. E não poderia ser de outra maneira: o que está cheio de vida carrega igualmente o seu fim.Da mesma forma como acontece com muitos artistas, no final Picabia chega à gravidade e à profundidade do monocromo. Não o monocromo puro, mas recoberto por pequenas manchas e pontos onde a realidade não é mediada pois a pintura torna-se ela mesma uma nova realidade que não pode ser avaliada em termos formais ou simplesmente pictóricos.Não nos surpreende que este caminho extraordinário, que debuta no final do século 19 e se finda em 1953 com a sua morte, tenha influenciado tantos artistas contemporâneos. A sua ressurreição começou já no início dos anos 70 e em 1976 o Centro George Pompidou lhe consagrou uma retrospectiva. Até então, era conhecido apenas o Picabia gozador, audacioso e irreverente, o dadaísta amigo de Duchamp, autor de revistas hilariantes e inventor das não menos engraçadas discordâncias com André Breton.Há duas décadas, contudo, é o pintor que reaparece colocando a luz sobre a mistura de referências e culturas que encontramos no neoexpressionismo ou na transvanguarda. Ele aparece no momento em que o minimalismo e a arte conceitual perdem autoridade e em que as noções de materialidade e sensualidade tornam-se novamente aceitáveis depois de uma década de proibição. Basta lembrar de Julian Schnabel, David Salle ou ler o que escreveram sobre ele Christo, Dietman, Barceló, Blais, Alberola, Viallat e tantos outros.É difícil compreender Jeff Koons, Mike Kelley e até mesmo Andy Wharol, hoje em dia, sem pensar em Picabia. Descobre-se que trabalhos de muitos pintores como Malcolm Morley e Eric Fischl nos Estados Unidos, Corpet e Pencreach na França, Kippenberger, Oehlen e Polke na Alemanha, por exemplo, não diferem muito do de Picabia feito em 1930! No caso de Sigmar Polke, o parentesco é evidente: exatamente como o seu mestre, ele desliza imagens transparentes umas sobre as outras e joga com as superposições. Do mesmo modo prefere a fluidez, a leveza e a incoerência da memória.Outros ainda declaram a sua admiração: Armleder, Bertrand Lavier, Lebel? a lista é imensa. Porém, o que faz com que Francis Picabia se iguale a Picasso e a Duchamp no grau de paternidade que ele mantém para as mais novas gerações é talvez o que definiu a dupla Peter Fischli e David Weiss: "Para nós, dizem eles, Picabia jamais se revelou no primeiro grau. Há sempre um outro estrato. Ele nos abriu as portas da ironia: pinta algo que tem o ar de ser isto ou aquilo, mas é outra coisa (...) Não se trata apenas de pintura, mas de arte. Picabia pensa sobre a arte por meio de imagens e abre realmente o campo à arte da vida, ao cotidiano, ao trivial e nos coloca pequenas questões (...) O que nós amamos em Picabia é essa capacidade de mudança permanente, esta maneira de estar sempre aberto à vida, de passar por cima de tudo sem ficar escravo de uma idéia única ou de um estilo."

Agencia Estado,

15 de janeiro de 2003 | 10h50

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