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Laura Greenhalgh
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Paris está enferma

O menino senta-se no topo do barranco e fita o horizonte. A seu redor, num platô mais baixo, vê-se um chão de terra batida, com lixo acumulado no dia a dia por um punhado de famílias. Vivem naquele amontoado de barracos de madeira, com tetos de zinco, janelas e portas frágeis. A manhã é cinzenta, fria, talvez até chuvosa, embora haja roupa estendida em varais. Com seu paletó de lã surrado e boné na cabeça, o menino dribla a desolação do lugar, olhando ao longe. Lá onde a vista alcança, vê uma Paris novinha em folha brotando do chão, com edifícios claros, elegantes, vistosos. Contempla o horizonte inalcançável.

LAURA GREENHALGH, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2014 | 02h09

Com infinitas palavras pode-se descrever uma fotografia. Reuni estas mais para atiçar a imaginação dos leitores, que sempre poderão recorrer à internet para ver logo do que se trata. E, melhor: ver além do que vi. A cena descrita foi capturada em 1872, pelo ilustrador e fotógrafo francês Charles Marville, tema de exposição em cartaz no Metropolitan Museum of Arts, em Nova York. Chega a ser uma ironia do destino constatar que estas magníficas fotos em preto e branco convivem hoje com imagens de uma Paris opaca, poluída, com sua Torre Eiffel envolta numa névoa de monóxido de carbono que desafiaria os pincéis de Monet.

Marville foi contratado por volta de 1860 pela prefeitura parisiense - na época conhecida como Departamento do Sena -, comandada pelo célebre George-Eugène Haussmann, o barão que empreendeu a grande reforma urbana da cidade. O barão, em que pese a fama de grande demolidor, não batia prego sem estopa: confiou a Marville a missão de documentar a cidade que ele, alcaide bancado por Napoleão III, havia decretado pôr abaixo, para construir os parques, as praças, as avenidas, os bulevares e os edifícios luxuosos que fariam para sempre o glamour e a glória de Paris. Portanto, era preciso documentar uma Paris anterior, condenada a desaparecer para sempre.

Uma ville mais para Victor Hugo, em Os Miseráveis, do que seria para Hemingway, em Paris É Uma Festa. Foi nessa direção que Marville partiu com seu aparato fotográfico, disposto a eternizar ruelas, becos, pontes de madeira rangedora, lampiões de pouca luz, propagandas em papel vagabundo coladas nas paredes. Com sua tarimba de ilustrador, e convicto de que teria que prestar contas a um patrão exigente - o barão dormia com a geometria na cabeça - procurou fazer um serviço meticuloso do ponto de vista formal, mas que transpirava humanidade.

O fotógrafo-funcionário público saía bem cedo, até mesmo de madrugada, com a tralha de lâminas, lentes e tripés. Queria capturar a Paris para demolição adormecida. Flagrou o pequeno comércio ainda de portas fechadas, as ruas vazias, as charretes estacionadas. E foi seguindo as pegadas de uma cidade austera, de pouco trato, não raro via-se aquele filete de esgoto escorrendo por entre os paralelepípedos. Graças a centenas de fotos de um trabalho que extrapolou o documental para atingir o patamar da arte, foram compostos os volumes do Album du Vieux Paris, sobre matrizes originais que seriam preservadas no Musée Carnavalet e na Bibliotèque de la Ville.

Pois o menino solitário da fotografia, seguramente uma das mais belas desse material, é também o retrato da gentrificação pela qual passou Paris na segunda metade do século 19. Só na Île de la Cité, foram removidos 20 mil trabalhadores com suas famílias. Removidos para viver, sabe-se lá como, nas bordas de uma cidade em obras. Às margens do Bièvre, afluente do Sena, desapareceram as oficinas de coureiros excelentes, que forneciam malas, botinas e borzeguins para a elite.

E Marville seguiu clicando tudo: rue de Constantine, rue Champlain, rue de Gobelins, rue de la Bûcherie... na avenue de L'Opéra viu sair a plebe rude para dar lugar a uma burguesia excitada com o teatro projetado por Charles Garnier. Exímio fotógrafo de arquitetura, Marville era imparcial e calculista na captura das imagens. Elas falariam por si. Talvez não tenha se dado conta de toda importância que viria a ter a sua obra, algo que hoje nos possibilita uma comovente arqueologia do olhar.

Cidades mudam sempre. Nascem, vivem, são demolidas e enterradas, para nascer de novo. Com outros ares e até com outro ar, literalmente. Marville hoje fotografaria uma Paris em que o transporte público de qualidade ainda rivaliza com a mania tipicamente francesa de "prendre la voiture", o gosto de dirigir - sendo que os carros já foram menores, agora, e cada vez mais, cede-se ao gosto americanizado dos 4X4. Há muito se fala do ar pesado da cidade, que se torna opaca pela fuligem atacando seus monumentos e quarteirões haussemannianos. Nesta quinta-feira, depois do rodízio de veículos decretado pela prefeitura, o ar estava de novo tão ruim, que as autoridades anunciaram estacionamentos gratuitos para quem decidir largar o carro e usar o transporte público.

A Paris que pulsa em elegância, beleza e savoir vivre, está com as artérias entupidas. Adoeceu. Rever as fotos de Marville daquela outra Paris submersa, como uma "catedral engolida", evocando aqui o belo prelúdio de Debussy, rende certa nostalgia, sim - mesmo que hoje não queiramos abrir mão dos confortos da modernidade. Mas a verdade é que o esgoto do passado está virando o ar que respiramos. E não sabemos como sair desse ciclo mortal.

Nos últimos dias, o jornal Le Monde postou uma enquete em seu site: o que você se dispõe a fazer para reduzir de vez a poluição atmosférica de Paris? Respostas as mais variadas. Curti a de um leitor que se apresenta como Poids Plume. Pois o Peso Pena, traduzindo, pegou pesado: "Fazem 40 anos que estou neste mundo, 30 que me interesso por meio ambiente, 20 que passei a militar por modos alternativos de vida e 5 que me pergunto por que nada acontece". Ainda assim, o parisiense sugeriu um rol de providências sustentáveis. Promete até parar de acender a lareira e a churrasqueira.

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