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Leandro Karnal
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Paris é uma festa, mas...

O francês é tão idiossincrático aqui como a frase 'Je suis désolé'

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

08 Janeiro 2017 | 02h00

Apesar de ter estado aqui muitas vezes, Paris é sempre uma descoberta. O impacto inicial, do qual me recordo perfeitamente, foi há quase 30 anos. A primeira vez em Paris é uma inauguração estética.

Houve um processo histórico na construção da imagem da capital francesa. Luís XIV mandava colocar aristocráticos cisnes no Sena. Eles morriam com certa facilidade nas águas poluídas da capital. Napoleão I produziu muitas obras impressionantes. Não inaugurou a maior de todas: o Arco do Triunfo, mas seus restos passaram sob ele. Seu sobrinho, Napoleão III, fez o maior investimento urbanístico. Paris foi remodelada sob o comando do Barão de Haussmann. Com arrojo e autoritarismo, novas avenidas rasgaram a velha cidade, levando para a periferia as camadas populares. Pobres atrapalhavam o cenário desejado. Surgiu a cidade-luz.

Após o Segundo Império, a Terceira República fez as exposições universais impactantes em 1889 e 1900. Resta a memória material delas: a torre Eiffel, a obra temporária mais permanente do mundo. Estrangeiros deram sua cota na teatralidade da capital francesa: o czar Nicolau II da Rússia lançou a pedra fundamental da ponte que leva o nome de seu pai: Alexandre III. No século 20, o último remodelador expressivo foi o socialista Mitterrand e, entre suas obras, vemos o arco de La Défense e o museu d’Orsay. O presidente mereceu o título de Mitterramsés, referência ao faraó construtor. Paris é como a Roma que Freud analisou: camadas e mais camadas de história, de memória e de sonhos de glórias sobrepostas.

 

As guerras são imensamente destrutivas para a memória urbana. Paris sofreu durante a Comuna de 1871: o palácio das Tulherias e o Hôtel de Ville foram incendiados. A coluna da praça Vendôme foi derrubada. Mas, comparativamente com outras grandes capitais europeias, Paris foi menos transformada pelo furor bélico. Compare-se a memória urbana da Segunda Guerra: Berlim foi arrasada e invadida; Londres foi bombardeada e não foi invadida; Paris foi ocupada, mas não foi destruída. 

A cidade seduziu muita gente. Um homem medíocre como Hitler fez uma visita relâmpago após a igualmente rápida derrota francesa. Fez o clássico roteiro turístico básico e registrou foto em frente à torre Eiffel. Admirador da arquitetura eclética do século 19, Hitler descreveu o prédio da ópera Garnier a seus guias. Foi embora logo em seguida. Mesmo um genocida como o chefe nazista deu sua contribuição ao turismo atual ao ordenar que o corpo do filho de Napoleão Bonaparte fosse trazido de Viena para junto do túmulo do pai. Hoje, sob a cúpula imponente e dourada dos Inválidos, vemos a tumba de Napoleão II. O coração do “rei de Roma” (como era chamado ao nascer) permanece ao lado dos restos mortais da mãe, em solo austríaco.

 

Ao final da Segunda Guerra, Hitler tentou dinamitar Paris quando perdeu o controle sobre a França. Seu general, Dietrich von Choltitz, não levou adiante a ordem. Como a personagem Blanche Dubois (de Um Bonde Chamado Desejo), Paris sempre dependeu da caridade de estranhos.

 

Do velho nome de Lutécia para o atual, a cidade é uma marca bem trabalhada, um símbolo produzido para ser associado ao amor, à sofisticação e à gastronomia do bon vivant. O preço da fama? Paris convive com um problema de toda cidade icônica: a horda de turistas. Nós trazemos dinheiro e problemas. Somos chatos, sempre perdidos, atrapalhando o fluxo com fotos intermináveis. Somos a base da hotelaria gaulesa, maioria nas filas, e, pior de tudo, estimuladores dos preços altos. Também somos o ímã das legiões de trapaceiros e punguistas, atraídos pela nossa distração. Lotamos bistrôs de cardápios poliglotas, estamos no Louvre antes de ele abrir. Quem já domina mais a língua de Molière ou já foi várias vezes à terra de Asterix torce o nariz para os turistas de primeira viagem. Insuportável tolerar aquilo que já fomos.

 

O turista de primeira viagem é um ser amado e odiado. O francês médio bufa ainda mais diante do viajante clássico. Bufar é tão idiossincrático aqui como a frase com a qual o atendente parisiense nos enxota: “Je suis désolé”. Não existe nada mais retórico do que désolé. O vendedor enuncia este som, mas nada nele parece trazer o sentimento real de tristeza ou desolação. 

A cidade do amor é uma cidade de pessoas sozinhas. Paris é uma das maiores concentrações de idosos isolados em apartamentos. Meu ex-professor da USP, Gérard Lébrun, morreu como milhares de seus conterrâneos: solitário, num apartamento (em dezembro de 1999). Notou-se sua ausência porque faltou a uma banca. Os idosos já aposentados são descobertos pelo cheiro.

No insuportável verão de 2003, é possível que mais de 15 mil habitantes da França tenham morrido desidratados ou por problemas relacionados ao calor. Desse número assombroso, 81% tinham mais de 75 anos. Sempre me lembro do filme Amor (Amour, 2012, Michael Haneke). O fenômeno foi europeu e não apenas francês.

Agora faz frio aqui em Paris. A temperatura baixa ajuda na composição da personagem elegante. Lembro sempre do texto do jovem Ernest Hemingway, Paris É Uma Festa (em inglês: A Moveable Feast). Memória dos seus 20 e poucos anos na capital francesa, cercado pela “geração perdida” em saraus inesquecíveis: Gertrude Stein, James Joyce, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald. A companheira de Stein, Alice Toklas, fez um livro de receitas, descrevendo a comida que serviam ao povo famoso que comparecia às noitadas (O Livro de Cozinha de Alice B. Toklas). Lendo e executando algumas para jantares em São Paulo, tive a sensação que Woody Allen descreveu no filme Meia-Noite em Paris: o passado parece sempre mais brilhante do que o presente.

Paris pode ser uma festa, mas demanda dinheiro para financiar a alegria. George Orwell não o tinha. O autor de 1984 fez uma reflexão dura sobre a cidade no texto Down and Out in Paris and London (aqui no Brasil: Na Pior em Paris e Londres). Paris é uma festa, mas o convite é caro. Bom domingo a todos vocês!

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