Paris da belle époque é tema de exposição no Rio

Em 1900, Paris era o centro do mundo. A cidade estava tinindo de nova, com a reforma concluída uma década antes, pelo urbanista Georges Haussman por encomenda de Napoleão III. Nos prédios recém-construídos, a burguesia buscava status pela ostentação e recebia artistas e cientistas em seus salões. Gente de todo o mundo vinha conhecer o melhor da civilização ocidental. Essa atmosfera chega ao Rio amanhã com a exposição "Paris 1900", no Centro Cultural Banco do Brasil, com 150 peças do Petit Palais, museu de belas-artes de Paris, construído naquele ano para a Exposição Universal e que guarda a memória do período conhecido como belle époque.A mostra chega ao Brasil por uma razão quase afetiva. Em 1999, o Petit Palais recebeu a exposição "Barroco Brasileiro" e seu diretor, Gilles Chazal, sentiu-se em dívida. Como o museu fecha para obras até 2004, ele trouxe o melhor de sua coleção, especializada na belle époque - período que vai de 1880 até a 1.ª Guerra Mundial (1914). São obras de arte (esculturas, pinturas, gravuras, desenhos e fotografia, então uma técnica recente) e objetos decorativos, de jóias a utensílios domésticos de luxo, criados para um público ávido por consumí-los e com dinheiro para pagar artistas como Tolouse-Lautrec, Auguste Rodin e os designers Charles Jacqueau (da Maison Cartier) e Georges Deraisme (da Roger & Gallet), no auge da criatividade."É interessante vir para o CCBB, um prédio dessa época, antiga sede do banco estatal brasileiro, que servia à burguesia nacional", diz o produtor da mostra no Brasil, Romaric Suger Buel, que este ano trouxe Renoir para São Paulo e organizou uma retropectiva sobre Pelé, atualmente no Rio. "O grande valor dessa exposição é a mistura de obras-primas com objetos totalmente desconhecidos, dando um painel da sociedade francesa do início do século passado. Era um estilo de vida que só agora começa a mudar."A exposição é organizada por temas e personagens, como a atriz Sarah Bernhard, a quem será dedicada uma sala, com esculturas, reproduções de cartazes de seus espetáculos e retratos feitos por artistas como Tolouse-Lautrec e Georges Clariat, um de seus muitos amantes, que a pintou em plena beleza. "Ela tem ligação com o Brasil porque, em turnê aqui, sofreu um acidente que resultou na amputação de sua perna. Era uma mulher revolucionária, cujo comportamento foi imitado por suas contemporâneas", conta Chazal, recém-chegado ao Rio para a abertura da exposição. "Teremos também uma sala dedicada ao marchand Ambroise Vollard, que lançou Cézanne, Van Gogh e, mais tarde, Picasso e Bracque."Retratos das damasHaverá ainda salas dedicadas às mulheres parisienses que comandavam a vida social. Além de retratos de damas da sociedade, serão exibidos trajes que elas encomendavam às modistas que, nos anos seguintes, criariam a indústria da alta-costura. O cotidiano dessas senhoras será mostrado em outras duas salas, uma dedicada aos papas da art nouveau (Lalique, Gallém Grumard e Fouquet) e designers de jóias, como Charles Jacqueau e Georges Deraisme, cujo estilo dura até hoje. O urbanismo estará presente com a reprodução de entradas de estação de metrô - a primeira linha havia sido inaugurada em 1899 - e das galerias comerciais (antepassadas dos shopping centers criadas para as madames passearem suas jóias e trajes de luxo).O Rio, em 1900, pretendia ser "uma Paris tropical". Isso será debatido nos seminários marcados para ocorrerem a partir de terça-feira (21) no CCBB, com pensadores brasileiros e franceses debatendo a herança desse período. A estrela é o historiador francês Maurice Agulhon, do Collège de France, especialista na República e no avanço dos partidos políticos de direita na Europa, mas o programa inclui também especialistas diversos, como o arquiteto e urbanista Augusto Ivan (criador do corredor cultural no Rio), o compositor Nei Lopes, a figurinista Beth Felipecki, a crítica de dança, Helena Katz, e o físico Marcelo Gleiser.Antes dos debates, atores como Nathalia Timberg, Tonico Pereira e Stephane Brodt lerão textos da época coletados pela curadora do seminário, Clarisse Fukelman. "No Rio, as semelhanças entre as duas épocas são muitas. Segurança e saúde eram as grandes preocupações e intelectuais como Olavo Bilac criticavam, em jornais, o domínio de poucas famílias sobre a política nacional", comenta ela. Além do seminário, haverá em junho uma série de espetáculos revivendo a época, com a remontagem de operetas e concertos com músicas de compositores do início do século passado."Paris 1900" fica no Rio até 14 de julho (data nacional da França) e chega ao Museu de Arte de São Paulo, o Masp, em 5 de agosto, onde permanece até 6 de outubro. "Será exatamente a mesma exposição, com o acréscimo de obras do período que pertencem ao acervo do Masp", informa Gilles Chazal. "Enquanto o CCBB guarda semelhanças arquitetônicas com o Petit Palais, o Masp tem uma arquitetura moderna, mas em compensação possui uma coleção excepcional que completará a exposição do Petit Palais de forma muito interessante."

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