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Pária dos dicionários

Paraprosdokian poderia ser o sobrenome de um milionário grego ou mesmo de um lateral-direito do Olympiacos. Mas não, é melhor. Trata-se de uma figura de linguagem matadora

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2021 | 03h00

Amiga e dedicada mãe de família que nos últimos tempos deu pra tirar diversão das escaladas de pedreiras, montanhas ou qualquer protuberância do gênero em que pode se encarapitar, ela reapareceu no breu pandêmico com um palavrão. Não bastasse, grego: paraprosdokian. Deve ter recebido em um desses repasses infindáveis de mensagens instantâneas. Curioso é que se trata de uma palavra que Oxford e Cambridge, dicionários, ainda insistem em não perfilar a dita-cuja há décadas. Pura soberba. Por que grego?, devem se perguntar. Mas foram os humoristas e comediantes norte-americanos que imortalizaram a palavra como técnica estilística no século passado, liderados por Marx. Groucho, não o outro (youtu.be /uVBBxptpSY8).

Paraprosdokian poderia ser o sobrenome de um milionário grego ou mesmo de um lateral-direito do Olympiacos. Mas não, é melhor. Trata-se de uma figura de linguagem matadora, Groucho à frente, e com seguidores fiéis como Winston Churchill, Oscar Wilde, Stephen King e Harold Pinter (youtu.be/DqypaqLEfM8). O nome grego remete a uma frase ou sentença que, ao final, dá uma guinada e termina com humor, muitas vezes nonsense ou mesmo histriônico. “Eu tenho o coração de um menino – em uma jarra de vidro na minha mesa.” Esta é do autor de O Iluminado, com seu humor macabro. Robin Williams era outro fã de paraprosdokians e também deu das suas. “Eu sou um homem muito tolerante, exceto quando se trata de guardar rancor.” Acidez pairando no ar é especialidade da casa, ainda mais quando se trata de Oscar Wilde, que eternizou esta: “Alguns causam felicidade pra onde quer que eles vão. Outros, sempre que se vão” (amzn.to/3x5gf2U).

 

ESTUPIDEZ X GÊNIO 

Paraprosdokians têm sempre lugar garantido. As frases podem ser ditas em entrevistas, em conversas com amigos ou mesmo nas obras literárias, como no caso do pândego escritor britânico Douglas Adams, da série O Mochileiro das Galáxias. “Trin Tragula – pois esse era o seu nome – era um sonhador, um pensador, um filósofo especulativo ou, como diria sua esposa, um idiota.” Esta típica frase paraprosdokiana está no livro O Restaurante do Fim do Universo, da mesma série dos mochileiros. Seu conterrâneo e também pândego Winston Churchill babava loucamente por paraprosdokians e colecionava frases. Esta é de sua própria cepa: “Você sempre pode contar com os americanos para fazer a coisa certa – depois que eles tentaram de tudo”. E Albert, quando já era Einstein, também se aventurou por sentenças paraprosdokianas, com esmero: “A diferença entre estupidez e gênio é que o gênio tem seus limites”. É atribuída a ele outra frase, possivelmente pela relação com a física: “A luz viaja mais rápido que o som; é por isso que algumas pessoas parecem brilhantes até que você as ouça falar”. Ainda que não seja dele, é glória do corolário paraprosdokiano.


É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS’.

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