PARCERIA ABERTA AO MUNDO

Luciana Villas-Boas e Raymond Moss criam agência para exportar literatura feita no Brasil

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2012 | 03h11

Nem só da descoberta de um novo autor e da atenção diária para que ele se mantenha fiel a quem o projetou vive um diretor editorial. Há uma lista de funções burocráticas que o leitor não conhece, mas que tira o sono de quem ganha a vida fazendo livro. "Percebi que eu não tinha tempo para a parte do trabalho que mais me dá prazer, que é cuidar do autor e a apresentar a literatura brasileira no exterior", conta Luciana Villas-Boas.

Ela dirigiu, nos últimos 17 anos, o grupo Record, composto por cinco editoras e nove selos, e se lança agora em novo desafio pessoal e profissional. Ao lado do advogado americano Raymond Moss, dá início, no segundo semestre, à Villas-Boas & Moss Consultoria e Agência Literária, com escritórios no Rio, Nova York e Atlanta. Em 2013, quer chegar a Genebra.

"Há vários anos identifiquei a necessidade de institucionalizar a função do agente literário e houve uma série de acontecimentos em 2011 que me ajudaram a reformular o projeto", diz.

O crescente interesse de editoras estrangeiras pela produção brasileira, o apoio à tradução dado pela Fundação Biblioteca Nacional e a expectativa da homenagem que será feita ao Brasil na Feira do Livro de Frankfurt em 2013 fazem deste um momento oportuno para a criação de uma agência literária.

"Conheço muito esse meio e tenho perto de 2 mil livros negociados em nome da Record. Os editores vão saber que estão falando com alguém que entende o lado deles. E o autor vai saber que farei o possível por ele." Entre os escritores que inauguram o catálogo da Villas-Boas & Moss estão Edney Silvestre, Francisco Azevedo, Alberto Mussa e Rafael Cardoso, todos autores da Record apresentados por Luciana a editores estrangeiros.

Mais um motivo para acreditar que sua saída da editora deixa mágoa? Ela garante que não. "Uma prova de que tudo foi cordial é que Sérgio Machado (dono da editora) está me passando esses contratos e toda a lista de autores da Record", conta.

Nesse caso, a favor dela está também o fato de a relação entre a Record e a Agência Riff, a principal e mais antiga do País, ter se estremecido em meados de 2011. Foi a Riff que intermediou a mudança da obra de Carlos Drummond de Andrade para a Companhia das Letras, algo que também teria acirrado os ânimos entre Luciana e a família Machado. Mas do passado ela guarda dois arrependimentos.

"Quando li Galileia, de Ronaldo Correia de Brito, eu não estava bem da cabeça. Achei a maior maravilha e não agi." O livro foi editado pela Objetiva, venceu o Prêmio SP de Literatura, já foi lançado na Argentina e na França e vai ser traduzido para o hebraico. O outro momento foi no leilão de O Código Da Vinci, eterno best-seller. Por orientação de Sérgio Machado, ela saiu da jogada. "Eu podia ter bancado o risco, mas o dinheiro não era meu."

É a ideia de exportar a obra de autores brasileiros o que motiva Luciana agora. E a curiosidade que os estrangeiros têm pelo Brasil, que ajuda muito nessa tarefa, foi comprovada em sua última viagem à Alemanha. "Quem trabalha com livro sabe que a única maneira de conhecer a psique de um povo é por meio da ficção e os editores estão procurando esse tipo de livro que revele nossa história e nossa loucura." A primeira opção tem sido por autores contemporâneos, conta. E aí começa o desafio.

A scout Carmen Pinilla contou a Luciana que o mercado estrangeiro está ávido por uma espécie de On The Road que passe por todas as regiões do Brasil, "Não temos o que oferecer e chegamos com um livro sobre as angústias de um esquizofrênico e, por melhor que seja o trabalho linguístico, ninguém quer." Aí é que entra a discrepância entre demanda internacional e o que é valorizado internamente. "Um enredo bem construído pode ser tão pungente na revelação da condição humana e das nossas contradições. Por que agora a literatura só pode ser experimentação linguística?" Outro desafio é fazer o brasileiro ler o que é produzido no País. "Um leitor de Vargas Llosa e Paul Auster não tem um equivalente aqui."

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