Paraty faz festa para seus Contadores de Histórias

Há 30 anos, o casal de brasileiros Marcos Caetano e Rachel Ribas fundou em Nova York o grupo de teatro de bonecos Contadores de Estórias. Começava aí uma história bem-sucedida. De volta ao Brasil em 1972, ambos instalaram-se na pequena e turística cidade de Paraty. Os bonecos - gigantes nos primeiros espetáculos - foram diminuindo em tamanho e crescendo em poesia e expressividade. A partir de Paraty, ganharam o mundo. Foram anos viajando por festivais da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina, sedimentando uma carreira premiada nacional e internacionalmente.Há dez anos, já com mais de 20 espetáculos no repertório decidiram fincar para valer suas raízes na cidade, onde atualmente possuem uma confortável sede com escritório, dois espaços teatrais e conseguem manter-se apenas com recursos de bilheteria. Em Concerto, uma antologia de espetáculos significativos da trajetória da companhia, está em cartaz há cinco anos em sua sede, o Teatro Espaço. "Hoje, esperamos o mundo passar por Paraty", brinca Ribas.Garimpo - Com motivos para comemorar seus 30 anos, o grupo vai movimentar a cidade com três dias consecutivos de atividades culturais, numa "festa de aniversário" que começa sexta-feira e só termina no domingo. A estréia de Descaminhos e a remontagem de A Fabulosa Estória de Melão City, um dos primeiros trabalhos da companhia, prometem ser os pontos altos da intensa programação, que será aberta na Praça da Matriz.No sábado, será aberta a exposição retrospectiva 30 Anos de Contadores de Estórias, integrada por fotos, artigos de jornais brasileiros e estrangeiros, bonecos, cenários e adereços das montagens já realizadas pela companhia. E no domingo, Marcos Caetano Ribas autografa o livro Descaminhos, fruto de uma pesquisa de três anos, fonte de inspiração do espetáculo homônimo.Descaminhos começou tomar forma quando Ribas resolveu investigar o "caminho do ouro", uma estrada pavimentada com pedras, que ligava o porto de Paraty ao interior de Minas Gerais e servia para escoar ouro. Graças ao apoio da RioArte, Ribas iniciou a pesquisa. "Não foi fácil. É rara a documentação existente, porque na época a coroa portuguesa mantinha sigilo sobre o assunto, por temer a invasão de franceses e holandeses. Para se ter uma idéia, a quantidade de ouro descoberto em Minas era maior do que todo o ouro existente em toda a Europa até então."Golpe de sorte - Em sua garimpagem, Ribas descobriu um raro exemplar do livro Cultura e Opulência do Brasil, de Andre João Antonil, que descreve o caminho. "O livro foi publicado em janeiro de 1711 e proibido em março do mesmo ano. Claro que não interessava dar o mapa da mina ao bandido." De posse do volume e de outros manuscritos pesquisados na Câmara da cidade e no Arquivo do Exército, além de um golpe de sorte, Ribas descobriu o "caminho do ouro" em Paraty."Eu estava comprando um sítio e ouvi que os fundos davam para o ´caminho velho´. Descobri uma trilha com vestígios da antiga pavimentação." Ajudado por um "mateiro", percorreu a trilha até chegar a uma ruína. "Era a ruína da Casa dos Quintos, onde eram cobrados os impostos sobre o ouro." Com alguns apoios, a companhia recuperou o "caminho" e a cidade ganhou mais uma atração turística. Quem quiser conhecê-lo melhor sem ir a Paraty, pode acessar o site www.caminhodoouro.com.br ou ler o livro Descaminhos, escrito por Ribas e editado pela Estação Liberdade.O caminho do ouro havia sido construído sobre uma trilha dos índios da nação guaianá e, com o esgotamento das minas, serviu para escoar café até o porto de Paraty e levar escravos até as lavouras. Mas o livro de Ribas, como o nome indica, não é documental. "Aventurei-me numa ficção. Falo de namoro. Aliás, todos os meus espetáculos são sobre namoro." Descaminhos faz um passeio pela História por meio da história de três casais: um de jovens índios guaianás, outro de portugueses - já no caminho das minas - e outro de negros.Graças ao patrocínio da Petrobras, esses três "namoros" podem agora encantar o público também no espetáculo Descaminhos, apresentado num casarão, novo espaço do grupo. A Casa dos Quintos é o local onde ocorrem os "encontros" que mudam a vida dos personagens, daí o título. "São histórias simples, que certamente ocorriam na época, mas nunca eram registradas. As que ficam são sempre as violentas."

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