Luiz Roberto Lima
Luiz Roberto Lima

Paraty, da reflexão à ação

Grupos prometem para hoje protestos na Flip; tema deve dominar as mesas do dia

Maria Fernanda Rodrigues, enviada especial / Paraty, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2013 | 02h09

Quando a Flip anunciou, há cerca de um mês, a sua programação, o nome do palestino Tamin Al-Barghouti não chamou atenção. Apresentado como o poeta da Primavera Árabe - já que seus versos foram cantados na Praça Tahrir, no Cairo, em 2011 -, ele foi convidado para dividir a mesa com Mamede Mustafá Jarouche na tarde de domingo, horário não muito nobre do evento. Mas vieram as manifestações Brasil afora - e a notícia, na quarta, de que o presidente do Egito Mohamed Mursi havia sido deposto por um golpe militar. Até ontem, o poeta, que vive no Cairo e chegou a perder um voo porque manifestantes bloquearam a estrada que leva ao aeroporto, não havia conseguido deixar o país. A indefinição de sua vinda somada ao momento pelo qual o Egito passa provocaram frisson em torno de seu nome.

De acordo com a organização da Flip, Barghouti finalmente conseguiu embarcar e é esperado em Paraty hoje na hora do almoço. O horário deve coincidir com o protesto que está sendo organizado pelos moradores da região. Na tarde de ontem, manifestantes se reuniram numa casa perto da rodoviária para preparar cartazes e faixas que trarão, entre outros dizeres, frases como “Juventude que ousa lutar constrói poder popular”, “Queremos ser ouvidos”, “Transparência no setor público”, o já clássico “Desculpe o transtorno, mas estamos mudando a cidade”.

A Flip não é alvo, mas cartazes farão referência ao evento. Um deles é: “Educação Padrão Flip”. As reivindicações são diversas e incluem áreas como saúde, educação, segurança e transporte. As comunidades ribeirinhas e quilombolas também aderiram ao protesto, que deve acontecer por terra e por água. As tendas da Flip ficam na margem do rio Perequê Açu e a ideia é bloquear o acesso à ponte que liga elas ao Centro Histórico. A concentração será às 9 horas da manhã, no cais, e a saída está programada para as 13 horas.

Bernardete Passos, responsável pelas relações institucionais da Casa Azul, que promove a Flip, se reuniu com os manifestantes e está confiante de que os protestos não são contra o evento e de que a manifestação será tranquila. “A Flip entende que a manifestação é um direito e respeita esse direito. Sempre houve algum protesto durante o evento e neste ano, com tudo o que vimos acontecer, não poderia ser diferente”, disse. O policiamento foi reforçado, mas segundo Passos, isso acontece todos os anos e só porque a cidade recebe, durante o evento, muito mais gente do que o normal. São esperadas cerca de 20 mil pessoas na cidade.

"Quando abrimos o espaço para discussão, abrimos o espaço para a ação. Quando ampliamos o espaço de discussão, aí o povo vai para a praça. Isso é muito bom”, comentou Marcos Nobre, professor de Filosofia no IFCH-Unicamp, que acaba de lançar Choque de Democracia, breve análise sobre os recentes protestos. Ele estará com André Lara Resende na mesa O Povo e o Poder no Brasil Hoje, às 21h30. Este encontro é um dos três que a Flip incluiu na programação para debater os recentes protestos.

O clima das ruas, como se convencionou chamar, tem sido visto o tempo todo na Flip - por parte da plateia ou dos palestrantes, em depoimentos engajados ou em comentários brincalhões. No encontro entre Gilberto Gil e Marina de Mello e Souza, ontem, duas faixas foram levantadas. Elas diziam: “Em defesa dos sem-território” e “Fórum das comunidades tradicionais”. Sempre que alguém faz referência aos protestos ou à repressão deles, a plateia aplaude muito.

Crítica à repressão. Por uma feliz coincidência, a Flip está homenageando Graciliano Ramos. “O autor diz muito a 2013, ao país que se mantém rebelado nas ruas em protesto contra a baixa política, contra a falta de respeito de governantes em relação às demandas da sociedade, contra a corrupção, contra uma copa do mundo milionária num País com tantos problemas”, comentou, ontem, Dênis de Moraes, biógrafo de Graciliano. “Se vivo fosse, indiscutivelmente ele estaria apoiando os protestos e aplaudindo as manifestação pela cidadania, pedindo mais e com uma dura crítica à repressão que colocou, e ainda coloca, o risco em nosso País de um estado de exceção”, completou. E foi muito aplaudido.

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