Paraíso da palavra - Em Microcosmos, Claudio Magris transpõe gêneros para alcançar a reparação das fissuras do mundo

LUIS S. KRAUSZ

LUIS S. KRAUSZ É ESCRITOR, PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA, JUDAICA DA USP, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h10

Microcosmos, de Claudio Magris, é um romance de 1997 em que o impulso narrativo se livra do enredo dramático e conduz o leitor por paisagens espirituais e naturais das regiões italianas do Friuli, do Vêneto, do Piemonte e de antigas terras da coroa habsburga.

Ao transpor os limites entre ensaio filosófico, crítica literária e descrição poética, a memória de Magris torna-se um espaço de reparação das fissuras e rupturas do mundo, um paraíso reconquistado. Ele escreve sobre a geografia opressiva das ruas de Turim, as villas piemontesas, um depósito de barcas na Laguna de Veneza. Cita autores excluídos pelos maquinismos da fama literária, cavouca os cantos das fachadas e os compêndios para aproximar o leitor de segredos de uma história e de uma felicidade particulares.

Trata-se de um romance-galeria. Não uma galeria comercial , mas uma ciclópica galeria oitocentista, onde salas repletas de tesouros parecem suceder-se até o infinito, ameaçam com a vertigem e também permitem ao visitante deter-se ante os objetos de exposição. Do impulso organizador da língua, que estabelece hierarquias e distinções, organizando conceitos e sentimentos, surge a verdade de uma narrativa em que não há lugar para disparidades ou descontinuidades.

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