Paradoxo SP

Há 20 anos morei na Califórnia. São simpáticos os californianos. Educados. São ingênuos. Quase inocentes. Quase sempre sorriem e, antes de nos atenderem, soltam um "may I help you?" (posso ajudar?) aflito, prestativo e artificial como um jardim de Las Vegas.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2014 | 02h06

A muitos irrita esse "may I help you?" que busca uma inexistente intimidade. Mas é bem mais agradável ser tratado com uma ambígua amabilidade do que com o real desprezo de nova-iorquinos e a sensação de estar interrompendo algo mais urgente.

Californianos são espertos, além de prestativos. São prestativos por que são espertos? A contracultura e o politicamente correto nasceram em Berkeley, CA. A bomba atômica e a internet também.

Sabem que roubaram aquela porção de terra do México, quando se descobriu ouro em 1849. E não apagaram a História: morei num bairro chamado Escondido Village, entre Sierra Street e Raimundo Avenue, cortado pela El Camino Real, estrada secular que ia de São Francisco até Cidade do México e cruza Palo Alto, Los Gatos, San Jose, Santa Clara, onde se come a melhor comida mexicana.

Californianos se sentem divididos por viverem numa terra que não era deles. Diferentemente dos texanos, que guerrearam pelo Texas, se sentem culpados por instalarem barreiras e cercas que isolam os antigos donos. Têm uma ligação curiosa com o resto do continente. Talvez para buscar as origens, ou como penitência pela ocupação, se sentem no dever de visitar os ancestrais.

Quando voltei ao Brasil, meu apê em São Paulo, que para californianos é culturalmente mais próxima do México que os EUA, hospedou durante um tempo muitos californianos curiosos com a missão de recuperar a latinidade perdida. Apesar de eu indicar no mapa a Bahia, Rio, Santa Catarina, Foz do Iguaçu e a Amazônia, queriam conhecer a maior e mais ambivalente cidade do País, famosa por seus contrastes.

Susan era dessas amigas de amigos que veio fazer turismo no Brasil e se hospedou em casa. Era branca como a clara, ruiva como a gema, magra como uma frigideira e esguia como uma fatia de bacon. Tomou o café da manhã rápido e, com sua espécie de Guia Michelin, o tratado oficial dos turistas do século passado, avisou que iria conhecer a cidade. Era pré-Google, pré-smartphone, pré-linha Verde e Amarela do Metrô. Calma lá. Como assim, você vai pra onde? Take it easy...

Pegaria um ônibus para a Praça da Sé, que eu nem sabia que passava pelo meu bairro. Visitaria a catedral, Pátio do Colégio, depois Estação da Luz, Masp e Ibirapuera. Num calor de mais de 30 graus. Voltaria na hora do rush. Aconselhei a levar um protetor solar e me ligar em qualquer emergência.

Passei o dia tenso ao lado do telefone. Imaginei aquele pé de mamão rosa cruzando o centro velho e seus "contrastes". Cruzando o caos. Ficar horas em pé num busão sem ar-condicionado num engarrafamento?

Mas é assim que um turista faz: vai a uma catedral, a um centro velho, a museus, tudo de transporte público, para conhecer a verdadeira e exótica rotina. Quem visita a Índia, sabe que não encontrará um metrô incrível e limpo. Quer cruzar elefantes e vacas dividindo espaço com táxis no trânsito caótico.

Susan voltou sorridente e aliviada de sua experiência antropológica e antropofágica, bufando de calor. Não reclamou. Era californiana. Turista tem mesmo uma tremenda boa vontade...

Quando começou o planejamento para a Copa, se pensou em estádios, aeroportos, mobilidade urbana e hotéis. Abriu-se a torneirinha do dinheiro público disfarçado em privado (BNDES), escoaram empréstimos que, na verdade, são subsídios.

Mas a Copa surpreendeu. O que era para nos dar vergonha, a infraestrutura improvisada e com tapumes, não deu, e o que era para não dar, o time, deu. E deixou um legado: nós, paulistanos, não entendemos de turismo contemporâneo e, consequentemente, revelamos nosso desconforto e preconceito contra o turista popular.

Nos esquecemos da galera composta de mochileiros, que viaja de ônibus, carona, que acampa, dorme na praia ou no próprio carro, motorhomes ou trailers, hábito que não colou no Brasil. Não preparamos áreas de camping, não investimos em hostels. Preparamos uma Copa para as elites fantasiadas e coloridas, não para o torcedor comum.

Torcedores holandeses alugaram por conta um clube em Guarapiranga, onde estenderam suas barracas. Argentinos, chilenos e uruguaios foram expulsos de praças e praias. Só com a Copa em andamento, a Prefeitura de São Paulo cedeu o sambódromo e o autódromo.

Imaginavam empurrar a turistada para festas patrocinadas no Anhangabaú. Se esqueceram de que todos eles deram um Google e descobriram que a Vila Madalena é o bairro dos bares e da boemia. Se quem vai a Paris quer visitar o Les Marais e o Quartier Latin, se quem vai a Nova York quer dar um role pelo Soho, Village e Chelsea, como a vice-prefeita de São Paulo, Nádia Campeão, ficou surpresa com a ocupação à Vila Madalena?

Demoraram oito dias para instalar os primeiros banheiros químicos, duas semanas para interditar as ruas Aspicuelta, Wisard, Mourato Coelho e Harmonia. Prefeitura que, em 2007, recebeu a oferta de reforma bancada por uma marca de cerveja, para transformar essas ruas num boulevard. Calçadas passariam de 3 metros de largura para 4,75 metros, com 27 bancos, lixeiras e 48 árvores plantadas, transformando a área que concentra o maior número de bares numa grande praça. Sem contar que a PM demorou 20 dias para instalar uma Polícia Comunitária na saída do metrô Vila Madalena e, sem preparo, passou a dispersar torcedores com bombas e cacetadas.

O projeto Boulevard Vila Madalena continua engavetado. Só agora no Metrô a palavra exit foi afixada na sinalização. Paradoxalmente, a cidade que cresceu recebendo imigrantes de todos os continentes não sabe receber turistas estrangeiros. Não sabe e não quer. Prefere a paz de uma cidade provinciana, para dormir cedo sem argentinos gozadores bêbados cornetando a noite toda na pacata Vila Madalena, onde todos se conhecem e dão bom-dia, aos grandes eventos. Para isso tem o Rio.

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