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Lúcia Guimarães
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Parabéns pra mim

Ando zonza com tanta congratulação. Não consigo dar conta da exaltação do eu em tudo o que se passa à minha volta, da tragédia das mulheres em Cleveland à estreia do pequeno filme que Baz Luhrmann insiste em vender como a versão do romance O Grande Gatsby.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2013 | 02h06

A amiga de um falecido colega de banda de salsa de Ariel Castro foi à TV se congratular por ter se mudado para Nova York e colocado sua própria filha fora do alcance do predador de Cleveland. O próprio estuprador tentou polir sua imagem, culpando as mulheres por terem aceitado a carona que levou ao cativeiro, transferindo para as vítimas parte de sua monstruosidade.

O policial aposentado que não prendeu Castro em 2004, quando o surpreendeu dirigindo uma motocicleta sem carteira, disse que, graças a ele, o sequestrador pôde voltar para casa e continuar alimentando suas vítimas. A polícia de Cleveland continua a se congratular por tudo o que não fez durante dez anos, apesar dos testemunhos de moradores que relataram aparições assustadoras, de uma mulher nua acorrentada no quintal e uma mulher batendo na janela com uma criança no colo na casa de horrores da Rua Seymour.

A mais velha das mulheres sequestradas, Michelle Knight, disse que sofreu cinco abortos provocados por Castro que a fazia passar fome por duas semanas e completava o procedimento a socos. Ela vai precisar de cirurgia reconstrutora da face, tal a extensão dos maus-tratos que sofreu. Pois o hospital onde Michelle Knight foi internada, publicou em sua página no Facebook - pausa para indignação com a promiscuidade da medicina com a mídia social - que a paciente estava com ótima disposição. Parabéns para o hospital?

Um âncora da CNN ouviu satisfeito enquanto a irmã de outra vítima, Gina De Jesus, lhe fez uma longa homenagem por não ter sobrevoado de helicóptero a casa da família, tornando a mulher cativa, pela segunda vez, agora da atenção da mídia. Não violar a privacidade de uma vítima de crime é motivo para felicitação.

O que me leva ao festival de confete que concluiu a triste semana, em torno da estreia da sexta versão em filme de O Grande Gatsby. O diretor australiano Baz Luhrmann, um glorificado videomaker, sabe que está pisando em calos porque o romance de F. Scott Fitzgerald é talvez a mais lida obra de ficção no país, onipresente em currículos da high school, o segundo grau americano. Na véspera da estreia de sua versão maníaca em 3D, despida de sutileza e de jazz, fomos submetidos à piedade do diretor. Uma descendente de Fitzgerald, presente a uma sessão de pré-estreia, o cobriu de parabéns. Ponto para mim, sugere Luhrmann. E, nas últimas duas semanas, mais cópias do romance foram vendidas do que durante a curta vida do autor, que recebeu um cheque de direitos autorais de US$ 13 antes de morrer, em 1940. "Só isto me faz sentir que valeu a pena", disse o diretor, que torrou US$ 100 milhões na produção. Abdicando de seu papel de intérprete de uma obra de literatura tão cara a sucessivas gerações, Luhrmann se parabeniza por vender livros.

Certa vez, almoçava em companhia de dois amigos, um americano, escolado no jargão da autoajuda, e um europeu, escolado no humor da autodepreciação. O americano se queixou que não tinha sido encorajado pelos pais, ausentes e vaidosos. Perguntou ao europeu: "Você não sabe como é importante receber um elogio?". "Não me lembro de ter sido elogiado por meus pais e não me importo", retrucou o europeu. Os dois me olharam curiosos e me lembrei que, quando tinha 20 anos de profissão, meu pai abriu uma revista, leu um artigo meu e comentou, sem saber que eu estava no quarto ao lado: "Até que ela escreve direitinho". A frase virou piada entre amigos quando querem endossar algo que disse ou escrevi. Reagirei a vassouradas se algum pseudoterapeuta quiser detectar um profundo déficit de afagos na minha psique.

Neste mar de adulação, está difícil distinguir afeto da aprovação passageira.

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