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Parabéns, Majestade

Querido imperador Pedro II: feliz aniversário! Quem diria, o Senhor chegou a 195 anos!

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

02 de dezembro de 2020 | 03h00

Quero aproveitar a data para cumprimentar Vossa Majestade pelo aniversário de 2 de dezembro. Quem diria, o Senhor chegou a 195 anos! Há tanto a comemorar. Pedro II é um nome de referência. Afinal, foi o brasileiro que mais tempo governou o Brasil. O segundo lugar, Getúlio Vargas, tem menos da metade do seu tempo. Tecnicamente, o senhor era rei desde 1831. Na prática, o poder começou em 1840. Não tinha 15 anos e já havia um jogo complexo correndo na Corte.

Sei que seu começo não foi fácil. Impossível se lembrar da sua mãe austríaca: ela faleceu quando o senhor tinha 1 ano. Teria sido uma boa mãe, porque suas parentes, Maria Teresa e Antonieta, criaram os filhos com dedicação. Seu pai? O senhor se despediu dele com pouco mais de 5 anos. As lembranças devem ser nebulosas. O consolo da sua infância foram suas irmãs, Januária e Francisca. Sei que os livros viraram o refúgio para sua timidez. Até sua madrasta, Dona Amélia, foi uma referência na vida adulta e o senhor a visitou com carinho. Ironia: ela pertencia ao ramo indireto de Napoleão, motivo pelo qual seu avô, o príncipe d. João, fugiu de Portugal.

Uma vez o senhor disse que, se não fosse imperador, teria sido professor. Eu sou professor e já pensei o contrário: tentaria a sorte com a Coroa se não fosse um educador. Um biógrafo seu, José Murilo de Carvalho, falou do choque entre Pedro de Alcântara e Pedro II, entre o homem e o cargo: afinal, não seria esse o drama universal?

Sabemos que a simpática Teresa Cristina não foi o amor da sua vida, todavia foi uma esposa dedicada e mãe zelosa. O senhor amou suas duas filhas e seus netos. Entendo sua paixão por Luísa Margarida de Barros Portugal, a condessa de Barral. Era uma mulher fascinante mesmo. Comparado com seu pai, o senhor foi quase pudico. Acho muito azar perder esposa e amante em período difícil como o exílio. Acho que aquele passeio final em Paris foi quase uma sabotagem derivada da tristeza.

O senhor fez bem em repousar na sua amada Petrópolis. Sei que o calor do Rio o incomodava. O Rio deixou de ser capital e vive um momento complicado. Nem os túmulos estão em paz na antiga Corte.

O senhor desejou paz e prosperidade ao país que o exilou. Morreu com um travesseiro de terra brasileira. São gestos tocantes. O País cresceu muito. No primeiro censo que fizemos, por sua ordem, em 1872, tínhamos 10 milhões de pessoas. Somos mais de 210 milhões hoje. O Brasil era rural e com um índice de analfabetismo enorme. Mulheres? Apenas 13,4% delas sabiam ler e escrever, os homens um pouco mais. Mudou nossa fé: 99,72% da população era católica no ano do primeiro censo. Tanta coisa mudou e continua mudando.

Querido imperador Pedro II: feliz aniversário! O senhor sonhou com um país grande e ele cresceu muito durante a República. Continuamos com problemas enormes, alguns tradicionais, como a questão da participação de negros nesse crescimento. Muitos dos governantes republicanos fizeram seu nome crescer por perspectiva e comparação. Tivemos cada tipo desde Deodoro... Já falei de tempo de governo. Seria bom acrescentar que, provavelmente, com 1m90 (ou 91) o senhor talvez tenha sido nosso maior governante. Getúlio Vargas, que governou mais tempo depois do senhor, tinha 1m63cm. Em vários sentidos, o senhor seria um gigante entre os chefes do Brasil.

Sempre imaginei que, se tivessem a chance profética de analisar a história posterior, alguns republicanos teriam tido mais dúvidas com aquele novembro de 1889. Os positivistas, que tanto o incomodaram, são uma quase fantasmagoria. Nossa bandeira registra um Ordem e Progresso, porém, claro, pouca gente pensa muito nisso. Os vizinhos com os quais guerreamos, notavelmente Paraguai e Argentina, enfrentam seus próprios desafios. O Brasil cresceu pacifista no plano externo.

O senhor foi o único brasileiro educado para governar. Seu interesse pelo Brasil era genuíno. Havia os limites do tempo, aquilo que, hoje, chamamos de “consciência possível”. Sim, a luta contra a escravidão poderia ter sido mais rápida e a condenação das eleições fraudadas, mais incisiva. Houve problemas variados que pareciam enormes naquele momento. Quem resiste ao tribunal da história? No século 21, por interesses políticos, passaram a construir um Segundo Reinado róseo e perfeitamente feliz. É um erro histórico.

Espero que o senhor não tenha ficado ofendido com o plebiscito de 1993. A monarquia ganhou pouco mais de 10% dos votos. Seu nome foi bastante invocado na campanha, mas o momento era outro.

Comparando com o Império, somos mais numerosos, mais alfabetizados, menos católicos e a demografia deslocou-se para o Sudeste. Feliz Aniversário, Majestade! A notícia boa é que ainda nos lembramos do senhor com carinho. A ruim é que esse carinho aumenta ano a ano como uma melancolia saudosa e utópica. É preciso ter alguma esperança no nosso futuro republicano...

LEANDRO KARNAL É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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