Para 'Volver' a violeta parra

Filme sobre a cantora chilena abre o Cine Ceará, em sua 22ª edição

O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2012 | 03h26

Violeta Foi para o Céu, de Andrés Wood, abre hoje o 22.º Cine Ceará e já se candidata aos troféus Mucuripe do festival de cinema cearense. O diretor chileno tem mão boa (basta lembrar do interessante e terno Machuca, que andou pelos nossos cinemas faz alguns anos) e à sua personagem não falta carisma. Pelo contrário.

Morta em 1967, a cantora, compositora, folclorista e artista plástica chilena Violeta Parra foi uma das figuras mais conhecidas internacionalmente nos chamados anos rebeldes.

Quando uma época mais conservadora chegou, a imprensa tentou ridicularizá-la como parte da geração poncho e conga. Mas também isso passou. E Violeta ficou. Sua fama aumentou com a morte trágica (suicidou-se aos 50 anos). Quem não se lembra de brasileiros como Elis Regina cantando Gracias a la Vida e Milton Nascimento, Volver a los 17? Sem talvez o sabermos, Violeta está em nosso imaginário musical.

Wood encontra em Francisca Gavilán a intérprete ideal para a atormentada Violeta. Rosto duro, voz boa e forte, Francisca compõe uma Violeta Parra disposta a tudo para divulgar a música do seu povo e cantar sua mensagem libertária. Mas era também mulher sofrida, que sabe da morte da filha pequena durante uma viagem à Polônia e padece de males de amor incuráveis. Nunca baixa a cabeça e não aceita o papel subalterno do artista na classista sociedade chilena. Era rebelde nata.

O filme trabalha com uma estrutura narrativa não cronológica. Assim, vemos alternadas cenas da infância pobre de Violeta, suas viagens ao exterior e a longa estada em Paris, onde expôs suas obras de artista plástica intuitiva no Louvre. Vida tempestuosa, que ganha tradução na interpretação intensa de Francisca Gavilán e no tom sóbrio de Wood. Belo filme.

Na mostra competitiva de longas-metragens, Violeta Foi para o Céu terá oito concorrentes pela frente, sendo três do Brasil, além do México, da Espanha, da Guatemala, da Argentina e do Equador com um filme cada um.

Entre os brasileiros, um documentário - Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now, de Ninho Moraes e Francisco César Filho - e duas ficções, Rânia, de Roberta Marques, e Febre do Rato, de Cláudio Assis. Este foi o vencedor do Festival de Paulínia de 2011. Lá mesmo ganhou o prêmio da crítica, o que o impede de ser novamente avaliado pelos jornalistas. Sem entrar no mérito do filme, ótimo por sinal, sua presença é redundância que enfraquece a seleção do Cine Ceará.

Por sorte, os outros competidores são desconhecidos no Brasil. Além de Violeta Parra, disputam os troféus o espanhol Bersolari, de Asier Altuna, o mexicano Prazo de Validade, de Kenya Márquez, o guatemalteco Distância, de Sergio Ramirez, o equatoriano Em Nome da Filha, de Tania Hermida, e o argentino Um Amor, de Paula Hernández. Note-se a presença de quatro cineastas mulheres entre os competidores, proporção rara.

Os homenageados são a produtora Lucy Barreto e o cineasta Fernando Meirelles. O diretor de Cidade de Deus participa em Fortaleza de debate de reavaliação do seu polêmico filme, dez anos depois. / L.Z.O.

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