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O Museu d’Orsay oferece aula de História e de ambientação entre cristais e tafetás

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2017 | 02h00

Passei algumas semanas fora. Viajar traz uma excelente possibilidade: exposições. Como já fui curador de mostras e também dou aulas de arte, meu olhar foi treinado para ver algo a mais do que as obras expostas. A origem da palavra “curadoria” é a mesma de cuidado, no sentido de zelar, dar atenção especial. O processo constitutivo do evento é, para mim, tão interessante quanto as peças expostas.

Curadores têm ideias, mas o mundo limita tudo com o espartilho de aço dos custos. A criatividade esbarra na planilha de cálculo. Ninguém recebe verba total, tempo ilimitado ou equipe suficiente. Todo projeto é um ajuste de sonhos, de orçamento, possibilidades materiais e infinitos acidentes de percurso. Grandes museus ou fundações ricas conseguem maiores facilidades, mas nem eles concretizam uma exposição tal como ela foi originalmente concebida.

Ser curador é cruzar a ordenada do real com a abscissa do possível. O resultado é sempre uma curva tensa, por vezes tão linda e bem desenhada que o público recebe o resultado como os juros naturais e justos do investimento genial de alguns. A beleza do capitel terminado oculta o suor do operário e do engenheiro.

Uma coisa ótima em exposições: recriar ou inventar diálogos. Lembro-me dos óbvios e bons: uma antiga exposição sobre o pai do cubismo no Museu do Prado (Madri, 2006, Picasso. Tradición y vanguardia), colocando próximos Velázquez e o artista malaguenho. Vi agora, no Museu Picasso de Paris, uma aproximação fácil, mas igualmente bem elaborada: Picasso e Giacometti. Os dois tiveram uma relação de amizade e as obras escolhidas foram muito boas. As palavras para classificar ambos (o pintor-escultor e o escultor-pintor) provocam reviravoltas mentais para pensar composição, forma e opções sobre a representação. Tais subjetividades ficam escandalosamente reveladas nas duas obras: A Sombra, quadro de Picasso (1953) e a escultura Homem Que Anda 2 (Giacometti, 1960). Parece que o diálogo sempre esteve ali, e só agora, na exposição, conseguimos integrá-lo mentalmente. Uma boa exposição educa a inteligência e a acuidade do olhar.

 

Há eventos que não miram a comparação, mas a análise de uma única obra-prima. É o caso da mostra sobre a Porta do Inferno, no Museu Rodin (L’Enfer Selon Rodin). Concebida para um museu que nunca foi construído, a porta é conhecida também pelos elementos separados, como O Pensador, que encima sua massa monumental. A exposição traz esboços, moldes e aproximações com os Portões do Paraíso (de Lorenzo Ghiberti, século 15) e com a obra do poeta Charles Baudelaire. O método é decompor o todo em partes, trazer à luz influências e diálogos, dissecar o projeto e tentar recompor tudo na obra pronta e fundida que encontramos nos jardins do museu.

 

Outro esforço interessante: recriar um mundo, como ocorre no Museu d’Orsay (Spectaculaire Second Empire, 1852-1870) com o tempo de Napoleão III. Quadros, estátuas, objetos decorativos e cotidianos são apresentados levando o público para o coração do século 19. Assume-se, pois, um olhar histórico e nacional, para explicar as duas décadas que marcaram a França até o trágico desfecho. Se o Museu Picasso oferece uma educação do olhar, o Rodin propõe uma arqueologia da composição. O d’Orsay, por sua vez, oferece uma aula de História e de ambientação entre cristais e tafetás chamalotados.

Uma exposição também pode focar luz sobre uma personagem menos conhecida. O conde Carl Gustaf Tessin era embaixador escandinavo em Paris no século 18. Aproveitou para formar um coleção que traduz um olhar sobre o mercado de arte de seu tempo. Lá, somos apresentados ao gosto de um sueco de elite e à sua avaliação do mundo pictórico e escultórico francês. A tal gosto e avaliação, justapomos as escolhas dos organizadores e, sobre elas, as nossas próprias conjecturas. Curiosa aproximação: sou um estrangeiro lançando o olhar sobre outro estrangeiro que avaliou o mundo da arte da capital francesa. Em comum, a mesma pergunta: o que vale a pena ver/adquirir em Paris? Infelizmente para quem planeja ir agora ao Louvre, a exposição (Un Suédois à Paris au 18e Siècle: La Collection Tessin) acaba de ser encerrada.

 

Há muito mais. Só para citar algumas: uma grande mostra sobre Magritte no Georges Pompidou e uma visita aos objetos da Fundação Louis Vuitton. Esta última vale pelo prédio e pelo acervo. No fim de fevereiro, o Louvre iniciará uma exposição sobre o genial Johannes Vermeer. Para quem almeja deleitar-se com o novo filme sobre a musa Dalida, pode-se explorar uma mostra sobre o guarda-roupa da icônica cantora no Galliera, a partir da primavera parisiense de 2017.

Uma viagem deve combinar diversas possibilidades. Comer, conhecer pessoas, passear, ver e aprender formam o leque completo. Acima de tudo, acabamos por voltar ao papel de flâneur que o autor das Flores do Mal identificava há quase 200 anos. O olhar agudo que perdemos no cotidiano nas nossas cidades de origem pode ser restaurado na cidade alheia. Criamos um ritmo estetizante e transformador através do cotidiano e da arte em território estrangeiro. Um boulevardier, um homem do boulevard, via as coisas, aprendia, descrevia, com a pena de Zola ou de Proust, a experiência mais vagarosa e analítica dos mundos redesenhados pelo olhar. A vantagem dessas personagens do passado? Não faziam selfies. Mas, através do self, punham-se a pensar o outro. Bom domingo a todos vocês. 

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