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Laura Greenhalgh
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Para torcedores e eleitores

Tenho fitado o horizonte. Assobiado. Cantarolado. Bancado a distraída. Agora mesmo fui buscar um copo com água gelada e acabei me perdendo em distrações no caminho até a cozinha. Juro, tenho feito de tudo para não entrar com esta coluna na pauta dos rolezinhos. Porque, valha-me Deus, todo mundo acha alguma coisa. E ninguém parece entender nada. Patavinas. O que é normal, mas por que eu deveria adicionar a minha parvoíce ao debate?

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2014 | 02h09

Estava lidando com essa dúvida quando vi Caetano Veloso dizer que rolezinho é a sociedade se mexendo - síntese simpática. Funciona. Gilberto Carvalho, secretário da Presidência, relacionou os protestos de rua a certa ingratidão com o PT. Como assim? É o povo cuspindo no prato em que não comeu? Já o ministro Joaquim Barbosa sentenciou, num rolê por Paris: aos condenados do mensalão, o ostracismo. Mas, não bastam as penas? Como se faz dosimetria de ostracismo, ministro? Daí surgiu Dilma Rousseff, com comitiva, num restaurante em Lisboa. Quem pagou a conta, cobraram os jornalistas? "Eu posso pagar", reagiu a presidente de um país onde os níveis de inadimplência caem, como provou a empresária Luiza Trajano ao jornalista Diogo Mainardi. Mas por que mesmo dou importância ao braço de ferro entre os dois? Meu amigo Danubio Torres, uruguaio de boas sacadas e escritor de fino trato, costuma dizer que o México é um país barroco. E o Brasil? O que é o Brasil?

Um país estranho. Complexo. Idealizado. Venho pensando nesses termos desde quando acompanhei de Londres o bafafá nas ruas brasileiras, em junho passado. Fui para a frente do Parlamento e para a Trafalgar Square perguntar aos donos do protesto local o que se passava. Era o Brasil reclamando do Brasil. Ostensivamente. Para gringo ver. Com uma diferença: enquanto os indignados daqui detonavam vitrines e caixas eletrônicos, os indignados de lá, brasileiros, faziam protesto com hora marcada e varriam a sujeira ao final de tudo, sob o olhar de aprovação dos policiais britânicos. Havia um toque de "a gente protesta, mas é limpinho".

Pois bem, o ano virou em relativa calmaria e eis que a turba começa a se mexer de novo, em rolezinhos pontuais que poderão virar um rolezão às vésperas do campeonato mundial. Às voltas com o cronograma de obras e as pressões da Fifa, nossa presidenta tem dito que o País quer oferecer ao mundo a "Copa das Copas". Ok, cumpre seu papel de anfitriã. Mas, por que a "Copa das Copas"? Por que este país tem que dar conta de mais um superlativo que lhe jogam nas costas? É o país do melhor futebol, das mulheres mais belas, das praias mais incríveis, da natureza mais luxuriante, por que tanto "mais" a falsear o que de fato somos? E por que não a Copa possível, aquela que podemos oferecer com o nosso bolso, o nosso jeito, a nossa cara, a nossa alegria e a nossa tristeza, afinal, somos um povo de raças e sentimentos misturados, ainda bem?

Por óbvio, os estratosféricos negócios do mundial precisam nos ver bombando de ansiedade e frenesi. E assim o Brasil vem se transformando no grande seriado da malhação da mediocridade. Reparem como já pintou entre nós a síndrome do estraga-festa. Pensem naqueles casamentos de arromba, quando famílias esvaziam os cofres em extravagâncias, mas algo na cerimônia sempre poderá dar errado, afinal, tem o tio beberrão, o filho incendiário, o padrasto tarado.... seja quem for e como for, o estraga-festa estará entre os convidados e quer se manifestar. Contagiando o outro. Mais outro. E outro. Daí, no meio da confusão, haveremos de nos perguntar: por que mesmo estamos brigando?

Não sabemos qual é a capacidade de estragar a festa desse movimento anti-Copa que pipoca aqui e acolá. Mas, cabe a pergunta: viveremos o campeonato em êxtase cívico ou partiremos para dar vexame? O duro é que as duas opções não valem um escanteio mal cobrado, que dirá a grande jogada. De um lado, temos o Brasil que se acha. De outro, o Brasil que se deprime. Já ouviram dizer que 2014 será o ano perdido? Cruzaremos dois grandes "eventos": primeiro, o futebolístico. Depois, o eleitoral. Ambos obedecerão à lógica excludente de uma competição, embora de natureza tão diversa. Ao fim da refrega, o choque de realidade e a ilusão de que 2015 será outro dia. Para torcedores e eleitores.

Agora, notem bem estas palavras: "A multidão, de repente, tornou-se visível e instalou-se nos lugares preferentes da sociedade. Antes, se existia, passava inadvertida. Ou ocupava o fundo do cenário social. Agora se adiantou até as gambiarras. Ela é o personagem principal. Já não há protagonistas, só há coro". Estas palavras poderiam perfeitamente se referir aos rolês convocados, sem voz de comando, pela internet, para "causar" nos shopping centers da vida. No entanto, são de A Rebelião das Massas, obra-prima do escritor espanhol Ortega y Gasset, publicada em 1926! São de uma atualidade acachapante as reflexões do autor em torno do que chamou "homem-massa".

Ortega y Gasset (1883-1955) não pretendeu fazer sociologia, nem ciência política nem história. Era um filósofo de formação, com acuidade interpretativa, vivência jornalística e boa pena. Sim, escrevia bem à beça. Prenunciou a chegada de um tempo em que as multidões comandariam o espetáculo, como um fenômeno quantitativo e visual. Percebeu o jogo (in)tenso entre minorias e massas. Sendo que essas tenderiam a penetrar os espaços daquelas, criando a noção do "cheio", numa volúpia possuidora dos locais - o nosso "occupy". Daí alertou para os riscos que cercam o homem-massa, esse indivíduo que se dilui na multidão e se configura pela média, como um genérico de si mesmo: "... não se valoriza, sente-se à vontade ao sentir-se idêntico aos demais".

Levando em conta a expansão da vontade das multidões, chegou a esboçar o conceito de hiperdemocracia - "agora todo mundo é só massa" - em contraponto à democracia liberal. E manifestou toda a sua preocupação, pois acreditava não só na necessidade de singularização dos indivíduos, vacinado-os contra a inércia mental do progressismo e o veneno dos demagogos, mas na sede tão humana de solidão e intimidade. Porque não podemos estar o tempo todo na arena. Nem sobreviveremos como animais em permanente exposição. Retomar Ortega y Gasset pode ser um bom convite à reflexão: o que fazer para que 2014 não seja um ano perdido em êxtases fabricados, pancadarias inúteis e mistificações grosseiras? Afinal, nunca é demais lembrar, massa não é povo.

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