Para ser mais que um rostinho bonito...

Em busca de reconhecimento, atores trocam as telas pelo ''teatro de autor''

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2011 | 00h00

A estreia do espetáculo Cruel deve entregar a Reynaldo Gianecchini a chance de viver o segundo vilão de sua carreira. Ele sabe, contudo, que agora precisa dar conta de uma vilania de natureza diversa: menos óbvia e direta do que a dos folhetins televisivos. Na versão da obra de Strindberg, ele encarnará novamente um homem pérfido. Vai deparar-se, porém, com uma maldade cheia de matizes.

Quem deve guiá-lo na arriscada empreitada é Elias Andreatto. Experiente ator e diretor de teatro, Andreatto promete a estreia para junho e já tem seu casting completo: para o papel feminino escolheu Maria Manoella, um dos destaques da cena teatral paulistana. Já para a ala masculina, resolveu apostar em dois "globais": além de Gianecchini, convidou Erik Marmo para viver o seu antagonista.

Em outros tempos, tal escalação de elenco poderia sugerir a intenção de atrair o público cativo da mídia televisiva. O expediente é corriqueiro e costuma assegurar inclusive patrocínios e facilidades. Andreatto assegura, contudo, que é outra a sua ambição no caso de Cruel. "A peça surgiu da necessidade de eles se dedicarem a um grande texto, mas sem o peso de uma superprodução. É bom fazer sucesso, ter público, reconhecimento da crítica. Mas não é esse o objetivo", diz o diretor, ressaltando que escolheu para a montagem uma opção alternativa na grade do Teatro Faap: trocou as prestigiadas sessões do fim de semana por um horário de menos visibilidade às quartas e quintas-feiras.

Portas fechadas. Se a fama conquistada na televisão abre muitas portas, é unânime entre esses artistas a percepção de que ela também fecha outras tantas. "Existe uma cobrança sobre eles que, às vezes, é muito maior do que aquela que recai sobre "gente do teatro"", constata Andreatto, "É imenso o preconceito que existe contra o sucesso, contra a beleza. Parece que o sujeito tem que provar mil vezes que é ator."

Do outro lado do front, a atriz Maria Fernanda Cândido, protagonista da atual montagem de Ligações Perigosas, confirma a existência do preconceito, mas minimiza seus efeitos. "Já escutei muitas ve zes: "Você me surpreendeu." Talvez digam isso porque não acreditavam em mim. Mas não me incomoda."

Nos primórdios da televisão, era comum a importação de talentos da cena dramática para as telas. O trânsito, de fato, nunca cessou: ainda hoje é comum que muitos olheiros da tevê garimpem novos rostos em produções fora do mainstream. Mas é o caminho oposto que parece ganhar fôlego nos últimos anos.

Formados quase integralmente nos estúdios de televisão, muitos agora vão buscar tardiamente a tarimba dos palcos. "O teatro te prepara para a pressa da televisão", confirma Gianecchini, que foi "descoberto" pela Globo enquanto participava de uma encenação do Teatro Oficina. "É um momento de formar repertório, de exercitar certas coisas que você poderá acessar depois. Toda vez que vou para o teatro, volto com mais recursos."

A incursão por tablados e coxias não serve apenas como escola. Cada vez mais tem-se a impressão de que está distante das câmeras o lugar de realização profissional desses intérpretes. Malvino Salvador, em cartaz com a peça Mente Mentira, no Rio de Janeiro, revela que passou quase seis anos em busca de um texto até encontrar algo que lhe instigasse. "Sou contratado de uma emissora e isso é confortável. Mas queria fazer algo que falasse à minha essência. Gosto de sentir que tenho algum grau de domínio sobre o rumo da minha carreira", comenta o ator, que montou uma das mais complicadas e festejadas criações do norte-americano Sam Shepard.

Além de ter à disposição um texto de sua predileção, o ator fez questão de estar à frente da produção e escolher o diretor que o conduziria no palco - Paulo de Moraes, da Armazém Companhia de Teatro.

Paula Burlamaqui já tinha mais experiência em trabalhos teatrais, mas seguiu por caminho semelhante. Comédias ligeiras à parte, chegou a participar de uma montagem de Gerald Thomas e deu conta da espinhosa missão de encarnar Mariana Alcoforado, a freira do clássico Cartas Portuguesas. Foi só recentemente, porém, com a estreia de O Amante, de Harold Pinter, que a atriz diz ter se "encontrado". Resolveu se produzir e convocou Francisco Medeiros para assinar a encenação. "Nunca tinha feito algo que eu realmente tivesse escolhido", admite.

O AMANTE

Teatro do Leblon, Rua Conde Bernardotte, 26. 5ª a dom. - horários e ingressos a definir. Estreia no Rio prevista para 16/3.

CRUEL

Teatro Faap. Rua Alagoas, 903. 4ª e 5ª - horários e ingressos a definir. Estreia prevista para 23/6.

LIGAÇÕES PERIGOSAS

Teatro Faap. Rua Alagoas, 903, Pacaembu, tel. 3662- 7233. 6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 18 h.

R$ 35/ R$ 70. Até abril.

MENTE MENTIRA

Casa de Cultura Laura Alvim. Av. Vieira Souto, 176. Ipanema, (21) 2332-2015. 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 19h. R$ 40. Até 16/1.

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