Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Para ser garantida e desenvolvida, a mostra pede urgente reconsideração

Desde 2010, a Bienal emite novos sinais vitais, que ainda não foram entendidos por todos

TEIXEIRA COELHO, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h10

No princípio, era a Bienal.

No princípio do contemporâneo em arte no Brasil está a Bienal. A Semana de Arte Moderna foi pouco mais que um aggiornamento em relação ao que a Europa já fizera antes. A Bienal trouxe o tempo atual para cá e a partir daí a arte feita no Brasil começa a existir para o mundo e ser atual no mundo. Certos acontecimentos pertencem à história local. Outros, como a Bienal, à história do mundo. Todos têm seu peso, mas alguns são mais pesados. Difícil dizer quanto tempo levaria a arte contemporânea - a construtiva, a abstrata e as outras - para chegar ao Brasil sem a alavanca da Bienal em 1951. E a criação da Bienal não foi positiva apenas para os artistas locais: foi decisiva para a invenção de um público, que hoje chega em números altos às portas de certas exposições - às vezes, até de arte contemporânea...

Outro aspecto positivo foi o modo como ela nasceu: por iniciativa da sociedade civil. Talvez fosse isso ou nada. Já era claro naquele momento que, sem a sociedade civil, sem a vontade de pessoas, de uma pessoa, pouco ou nada se faria em arte aqui - como não se faz. Aquela pessoa tinha nome: Ciccillo Matarazzo. Mesmo que boa parte do dinheiro investido em cultura ainda seja do Estado, via incentivos fiscais, é decisivo que a iniciativa e a gestão sejam civis. Cultura é questão do indivíduo e da sociedade, não do Estado. Ao Estado cabe pagar sua parte - mesmo porque, quem paga não é o Estado, é a sociedade.

A sociedade civil, é verdade, não se mostrou ainda à altura da tarefa. Há um ranço pré-contemporâneo nos conselhos das entidades de arte. Ainda não se coloca a arte acima das aparências, conveniências e pompas. E intransigências de parte a parte impedem o diálogo obrigatório entre poder público e sociedade civil: a fome do Estado no Brasil é devoradora e a inapetência privada, neste campo, desanimadora.

O balanço de trinta edições da Bienal não se limita ao perene conflito público X privado neste país carcomido por ideologias anciãs. Sob o ângulo técnico das ideias a respeito de uma exposição de arte contemporânea, a Bienal soube seguir seu tempo e, mesmo, adiantar-se a ele. O abandono da inscrição aberta, tipo Salão, em favor dos convites dirigidos aos artistas foi um forte ganho, mesmo que isso tenha marcado a ascensão do curador, com seus aspectos positivos e negativos.

Nessa perspectiva do conceito de uma bienal, é preciso lembrar aqui, sem espaço para outras, a iniciativa de Walter Zanini de organizar as duas edições de 1981 e 1983 segundo o princípio da linguagem, a prevalecer sobre o nome do artista, sua nacionalidade ou outro vetor. Para essa opção apontava havia tempos a história da arte, especialidade de Zanini. Mas, nem sempre o que é prenunciado e necessário é efetivado, menos ainda no devido tempo: foi outra decisão individual, à época audaciosa, que pôs a história em ação. Zanini queria, assim, eliminar as participações nacionais, como desejávamos os que concordamos com o escritor Claudio Magris quando diz que "as fronteiras sempre cobram seus tributos em sangue". Uma bienal de arte não deveria ser variante das Feiras Mundiais com países mostrando seus produtos, semente de onde nasceu a primeira bienal em Veneza. Mas Veneza podia e pode ser como é, Veneza é outra coisa, Veneza é história, Veneza é uma festa. Uma bienal tampouco tem de ser versão disfarçada das Olimpíadas opondo, mais do que nações, Estados. Vaidades nacionais e políticas não cabem em arte. Arte é indivíduo, não nação. Há séculos a arte não conhecia fronteiras, que a política e a economia impõem. A consequência da Bienal das Linguagens de Zanini era a abolição definitiva das representações dos países. Mesmo em suas duas bienais, porém, as missões nacionais continuaram existindo, embora inspiradas por sua orientação direta como curador-geral. Para seu desapontamento, elas depois retornaram - sobretudo porque pagavam suas próprias despesas de viagem, aliviando as da Bienal...

Se não há equívoco, apenas a partir da 27.ª edição, em 2006, sob a curadoria de Lisette Lagnado, as representações nacionais desaparecem de vez - por enquanto. Tempo demais, já era século 21. Essa edição marcou outro ponto importante: o fim do setor museográfico com suas exposições historicistas - outra proposta recorrente da crítica. Os museus da cidade e do país já podiam, pelo menos desde os anos 80, trazer de fora exposições relevantes. A Bienal tem um grande poder de convocação, maior que o dos museus, e podia e pode trazer boas mostras de arte nova e menos nova. Mas, não é sua função. Esse é ainda um aspecto negativo na história da Bienal: até hoje não soube e não aceitou definir com os museus uma iniciativa de fato integrada, formando um real sistema da arte. Não existe um sistema aqui, seus prometidos componentes não estabelecem relações entre si, a norma é a constelação de figuras isoladas agindo cada uma de seu lado. A fragmentação e o enfraquecimento de todos são a tônica. A Bienal de 2006 quebrou uma prática, mas nem ela nem as seguintes puseram algo no lugar.

A Bienal (não imperiosamente como mostra bianual, mas como grande mostra internacional) foi e é decisivo aporte para o País; se ele quiser ser de fato sustentável, deve entendê-lo. Mesmo se a Bienal for criticável, mesmo que tenha de ser sempre revista: é assim na arte. Fato é que, como outras instituições de arte e as práticas que as amparam e desamparam, também a Bienal pede urgente reconsideração - para ser garantida e desenvolvida. No seio de um sistema. Há hoje pelo menos duas bienais por mês no mundo, mas isso não é sinal para deixar morrer a de São Paulo. Ela corre esse risco, se os interessados não se sentarem ao redor de uma ampla mesa. E os interessados, todos sabemos quem são. A alternativa à bienal, hoje, é a feira de arte, que põe a bienal em questão: bom que o faça, mas não é a solução.

Desde 2010 a Bienal emite novos sinais vitais. Incomuns, neste século que se parece demais ao anterior quanto ao "sistema" da arte no País. Esses sinais não foram ainda entendidos por todos - nem mesmo no âmbito da Bienal.

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