Daniela Souza/ Estadão
Daniela Souza/ Estadão

Para rir do caos

Série 'A Mulher do Prefeito' faz graça com a corrupção

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2013 | 02h10

Acusado de superfaturamento nas obras do estádio municipal, uma coisa "padrão Fifa", o prefeito é afastado do cargo. Condenado à prisão, o sujeito tem um piripaque e consegue um atestado médico para cumprir prisão domiciliar, enquanto convence a mulher a assumir o comando da prefeitura. Dizem que os gastos do estádio poderiam beneficiar saúde e educação. Embora pareça ter sido inspirado pelas manifestações que tomaram as ruas do País desde junho, o enredo nasceu em março do ano passado e tomou fôlego ainda em maio deste ano. É A Mulher do Prefeito, novo seriado da Globo para as noites de sexta-feira, com Denise Fraga e Tony Ramos, que estreia em 4 de outubro.

O script que lhe parece óbvio foge da sensação de déjà vu ou de qualquer paralelo com Cristina Kirchner, por exemplo, quando se constata que Aurora, a primeira-dama de Denise Fraga, convencida pelo marido a ocupar sua cadeira, põe seu instinto social à frente dos interesses políticos. "Pra mim, o mais legal da ideia é alguém improvável achar os meios de resolver as coisas, ou seja, é uma pessoa que tem o raciocínio puro, não viciado na política, naquele métier, e vai encontrando outros meios", diz Denise ao Estado. A reportagem teve acesso às gravações na casa alugada pela Globo no Morumbi, cenário da residência do prefeito Reinaldo.

"Não acho que seja uma série sobre política, mas das relações dessa casa, que tem um viés político. No dia em que ele resolve assumir, ela pega uma traição dele e vira uma mulher inflada. Como toda mulher traída, ela ganha um brilho qualquer", fala Denise. Aurora resiste em assumir a prefeitura, mas acredita que não deve deixar o marido na mão. "Ela é disponível e comprometida. Tem uma fala em que ela diz 'eu bem que queria largar tudo, mas agora não posso, o que faço com os desabrigados?' Ela tem isso naturalmente e não tem saída."

Casal estreante. Veteranos em TV - no caso dele, completará meio século diante das câmeras em junho de 2014 -, Denise Fraga e Tony Ramos contracenam agora pela primeira vez. Já estiveram no mesmo elenco (Rainha da Sucata, 1991), mas seus personagens não se cruzavam. "Estivemos na mesma geografia, sem estarmos juntos", constata Tony. Confinado em prisão domiciliar, ele passará boa parte da série vestindo pijamas, mas honrando as botas country nos pés. Quando Tony foi convidado a encarnar o prefeito, a série já tinha Denise e Luís Villaça, o diretor-geral e marido da protagonista, que criaram o argumento, ao lado de Maurício Arruda. Também já contava com Maurício Farias na direção de núcleo.

"Maurício (Farias) não precisou me vender nada. Quando ele abriu a history line, eu falei: 'que ótima ideia, que ótimo momento'. Logo em seguida, ele marcou reunião com Luiz e Denise, e ali, na leitura, já nos divertimos", conta Tony. "É incrível isso, porque poderia não ter nascido, e ali já nasceu. Um ator da minha vivência já sabe onde vai pisar."

Cômico, mas não jocoso. Foi como professor de universidade que Reinaldo conheceu Aurora, então sua aluna. Uma vez na política, deixou-se "morder" por ela, iludiu-se. "A série é tratada não de forma jocosa, mas com alma, com verdade, só que as situações se tornam cômicas quando você espia ali o ridículo humano, principalmente quando o poder se apossa de alguém. E nada melhor que a comédia pra espiar o ridículo humano."

Fã de séries como Ray Donovan, atualmente em cartaz na HBO, e The Government, vista no Brasil pelo canal +Globosat, Tony faz aqui sua estreia no formato de seriado de TV. Quer dizer, teve Os Amores de Bob, na TV Tupi, em 1967, mas "não conta". Ou melhor, "conta pra mim, mas era outra época e foi trazido pelo Jota Silvestre dos Estados Unidos".

Em 12 episódios, a história da Mulher do Prefeito também é contada por Maria Fernanda, uma perua que faz a atriz Malu Galli se divertir com as perucas produzidas pela maquiadora Simone, a Batata, profissional presente no set de Denise Fraga e Luiz Villaça desde os tempos do Retrato Falado, série que o casal produziu por cinco anos para o Fantástico.

Ela é a presidente do Pitangá Futebol Clube, o pomo da discórdia que levou Reinaldo à condenação. "Ela tem uma relação de cumplicidade com o prefeito, é representante do poder econômico e meio que governa junto com ele", conta. É uma espécie de antagonista de Aurora. Malu vê uma feliz coincidência entre a série e os protestos da vida real em torno dos gastos com a Copa de 2014. "Não é uma relação clara, mas é impressionante isso ter sido criado antes das manifestações contra a Copa."

Temos ainda Seixas, personagem de Felipe Abib, que deixou Tapas e Beijos por indicação do diretor Maurício Farias - que também abraça as divertidas vendedoras da Djalma Noivas, a série das noites de terça na Globo. Seixas é o assessor do prefeito e passa a servir a nova ocupante do cargo, por quem nutre uma paixão platônica. E tem a filha do casal, Luíza, vivida pela quase estreante Giulia Shanti - ela está na série Beleza S/A, do canal pago GNT, obra da produtora O2 Films, parceria da Globo em A Mulher do Prefeito.

TV paga x aberta. Boa parte da equipe técnica já vem de Três Teresas, série que Denise e Villaça fizeram para o GNT. Os dois ressaltam as diferenças entre produzir para TV fechada e TV aberta. "Digamos que na TV fechada você consiga ser mais sutil", diz a atriz. Com menos didatismo? "Não, não acredito nisso. Para ser popular não precisa ser popularesco, só precisa dar comunicabilidade e comunicabilidade não é didatismo. É fazer tudo mais limpo, mais cristalino, e isso não significa que vai ter que falar 'olha, que engraçado'. Não precisa sublinhar nem gritar."

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