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Para que serve um pai?

Uma pessoa a meu lado atendeu o celular. Na tela, estava a palavra 'pai'. Ela estava recebendo uma ligação familiar comum e eu comecei a chorar do nada, pois jamais receberei esta ligação de novo

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 03h00

Há quem ligue o Dia dos Pais ao nome de Sonora Smart Dodd (1882-1978). A moça do Arkansas queria uma homenagem ao veterano da Guerra Civil Norte-Americana, seu pai Jackson Smart. A morte precoce da esposa tinha demandado do ex-combatente mais responsabilidades com os muitos filhos do casal. Como sempre, encontramos disputas sobre essa origem oficial, 1909. 

A memória festiva dos pais cresceria até 1972, quando o presidente Nixon a tornou nacional. Diferentemente daqui, nos EUA a festa ocorre no terceiro domingo de junho. Em países de tradição católica, como Espanha e Portugal, o dia para comemorar é a celebração de São José: 19 de março. No Brasil, a “paternidade” da festa é do publicitário Sylvio Bhering, em 1953. A escolha recaía na memória de São Joaquim, pai de Maria, festa que, outrora, caía em agosto (hoje é 26 de julho). 

Fiz uma introdução histórica da data usual. São dados interessantes, todavia facilmente garimpáveis com a bateia do Google. Queria ir para um campo mais original. Que os pais nos marcam e que somos gratos a eles é um fato. Que órfãos, como eu, tenham saudades pungentes, sabemos todos que não mais temos pai ou mãe. Querem um exemplo banal da dor? Uma pessoa conhecida a meu lado atendeu o celular. Na tela, estava a palavra pai. Ela estava recebendo uma ligação familiar comum e eu comecei a chorar do nada, pois jamais receberei esta ligação de novo. São coisas de órfão, entendam, por favor.

Prometi originalidade. Dizer das coisas maravilhosas de quem nos gerou é lindo, porém prosaico. Quero responder a uma pergunta mais complexa: por que ser pai? Cumprir o mandamento divino de “crescei e multiplicai-vos?”. Sentimento piedoso, mas estranho em um mundo que chega logo a insustentáveis oito bilhões de filhos. Quando Deus disse tal frase a Adão e Eva, eram dois em uma

Terra sem outros humanos, tinha lá sua lógica. Mandamentos sofrem update? A ordem do Todo-Poderoso seria, hoje, “diminuí e subtraí-vos” ou ainda “reduza, recicle e reúse”? Entendo os religiosos, apenas acho o argumento matemático duvidoso. Quero reforçar: não sou neomalthusiano, apenas acho que estamos bem povoados.

Claro, a maioria dos pais ama seus filhos com paixão, uma vez existentes. Estou pensando no momento em que os filhos não surgiram ainda, logo, não podem ser amados. Por que tê-los? Despesas fixas e altas por muitos anos, preocupações desesperadoras, um mundo instável e violento à frente do seu rebento. Por quê? 

No livro de Lázaro Ramos (Na Minha Pele), encontrei uma boa resposta. Falando do grave tema do racismo, o autor/ator cruza com a paternidade: “Quais são as armas mais eficazes para combater o racismo? A reverência à nossa origem africana, a afirmação estética, medidas políticas? Esses questionamentos sempre estiveram comigo, mas um evento as tornou vitais, caso de vida ou morte mesmo: o nascimento dos meus filhos”. Linda ideia! Lázaro gerou filhos com Taís e deseja um mundo melhor, menos preconceituoso e mais humano para que Maria Antônia e João Vicente cresçam em ambiente tranquilo. Filhos dão motivos para a luta. Ouvi, igualmente, de muitos ecologistas: quero um mundo possível para meus filhos e netos. Se eu fosse o último homem e nada viesse depois de mim, teria angústia extrema pelo plástico boiando no Oceano Índico? Talvez, no entanto é mais provável que eu pense nos meus filhos e no futuro deles. Adão e Eva devem crescer e cuidar do Éden porque são únicos e possuem todo o futuro à frente. Se me tornar o anti-Adão e for só passado, teria sentido qualquer coisa? Gerar filhos parece ser uma aliança com o que está por vir. 

Um homem é assaltado em um beco e ameaçado por uma arma. É comum ele invocar como argumento diante do criminoso: “Não me mate, sou pai de família”. Isso deveria ser capaz de comover o infrator: eu sou seu assaltado, porém, atrás de mim, invisíveis, há bocas que dependem do meu trabalho. Ser “pai de família” confere um elo amplo meu com uma comunidade, por extensão metafórica, com todos, a do assaltante, quiçá. Um pai, quase sempre, aparece como parte de uma estrutura, enquanto um homem solteiro e sem filhos soa como uma peça solta para a maioria das pessoas. Claro, existe a beleza da ilha e a majestade do arquipélago e podemos ser felizes em ambos, quero apenas indicar o sentido amplo e poético da paternidade. 

Posso elencar muitos argumentos. Termino com um que me foi inspirado pelo texto de Fabio Herrmann: A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Depois que li o livro, divaguei: o que falaria, no divã do terapeuta, Adão, que não podia reclamar de pais, irmãos ou de traumas de infância? O primeiro homem foi o único pai sem família geradora. Como se forma o superego e o narciso de quem nunca foi repreendido pela autoridade paterna ou afagado pelos abraços de quem o gerou? Pior, não podendo culpar genitor autoritário ou mãe protetora, a quem Adão atribuiria a origem dos seus males? O tema é muito sério, todavia comporta esta pilhéria: sem um pai (e uma mãe e irmãos talvez), estariam desempregados psiquiatras, terapeutas, psicanalistas e, quem sabe, cronistas de jornal... Estaríamos todos condenados a indicar a nós mesmos como fonte de todos os males, sem bodes expiatórios de mesmo sobrenome. Pais: amamos vocês porque foram dotados de um amor abundante e amamos suas costas largas, fortes, amplas o suficiente para colocar nossa carga de culpas e de fracassos. Feliz Dia dos Pais e boa terapia a todos os filhos, aliviados pela divisão da culpa de existir. 

* Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de A Coragem da Esperança, entre outros

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