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Para que serve o Nobel?

Como termômetro ou retrato da cena literária mundial nunca disse ao que veio

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2018 | 02h00

O cancelamento do Nobel de Literatura 2018 não foi o Kilauea esperado. Pudera! Cada vez menos gente dá importância à liturgia literária anualmente patrocinada pela Academia Sueca, a coroar e canonizar autores escolhidos por um comitê de ilustres desconhecidos fora da Escandinávia, de resto, pouco ou nada confiável.

Quem sentirá sua ausência em outubro?

A imprensa, que sempre ganha, de mão beijada, no mínimo uma pauta e uma manchete, quando não material para remoer uma polêmica. Os editores, que capitalizam a premiação majorando a tabela de preços dos direitos de tradução, entre outros benefícios. As casas de aposta, que faturam horrores à custa do sigilo imposto pela Academia às escolhas de seus jurados. E aquele grupo de seletos aspirantes ao galardão, já de algum tempo liderado por Philip Roth e o poeta sírio Adonis. Tim Parks foi à essência do equívoco: “Literatura não é um esporte, não supõe competição”.

O motivo do cancelamento não chega a ser fútil, mas a Academia sempre primou mais pela indulgência do que pela intransigência, procurando salvaguardar a obra dos pecadilhos do autor. Teoricamente, uma postura saudável, embora questionável se o premiado não possui uma obra acima de qualquer restrição extraliterária.

Fizeram vista grossa para a adesão de Pirandello ao Partido Fascista Italiano, 11 anos antes de sua premiação, em 1934. O espanhol Camilo José Cela lutou ao lado dos franquistas na Guerra Civil Espanhola e afinal empalmou o seu meio século depois. O norueguês Knut Hamsun (Nobel de 1920) não teve de devolver sua medalha à Academia quando se aliou ao nazismo, até porque já a dera de presente ao amigo Goebbels. Ter participado de uma tentativa de assassinato de Trotsky, no México, em 1940, não impediu que Neruda ficasse com o Nobel de 1971. Como não reconhecer as evidentes virtudes literárias dos citados?

Para que serve o Nobel? Como termômetro ou retrato da cena literária mundial nunca disse ao que veio. A austríaca Elfriede Jelinek, triunfante em 2004, foi a primeira a reconhecer ter sido injustamente premiada. Nem a honraria lhe deu o prestígio que há tempos sobra em Roberto Bolaño, W.G. Sebald, Elena Ferrante, Haruki Murakami, Karl Ove Knausgaard, nenhum deles lembrado para o Nobel, sendo que os dois primeiros já não têm mais chance, e a terceira oferece um desafio que talvez não valha a pena enfrentar.

Escolhas equivocadas são uma tradição na história do Nobel. Os nomes de Proust, Joyce, Virginia Woolf, Anna Akhmatova, Auden, Borges e Nabokov costumam ser os mais citados na hora das cobranças, mas houve outras mancadas tão ou ainda mais espantosas no início do século passado. Ibsen não merecia ter morrido sem a honraria. A Academia teve cinco anos para premiá-lo (o dramaturgo norueguês morreu em 1906), mas optou pelo poeta francês Sully Proudhomme, que ninguém mais lê há um século, o historiador alemão Theodor Mommsen, o poeta Bjornstjerne Bjornson (conterrâneo de Ibsen) e mais dois medalhões europeus que o futuro esqueceu.

O primeiro injustiçado, aliás, nem foi Ibsen, mas Tolstoi. Era o franco favorito na cerimônia inaugural da Academia, em 1901, com todos os méritos, menos os que fizeram prevalecer a preferência por Proudhomme. Há quem considere Victor Hugo o verdadeiro primeiro injustiçado do Nobel. Não nas premiações, claro, pois já estava morto havia 16 anos quando saiu a primeira. Um dos literatos mais respeitados da época, esperava-se que o prêmio fosse batizado com seu nome, não com o do inventor da dinamite, Alfred Nobel, de quem, por sinal, fora grande amigo. 

Fiz um esforço de memória para me lembrar de quantos autores preciosos me foram apresentados pelo Oscar da literatura. Não fui além da grande poeta polonesa Wislawa Szymborska. Autores preciosos, além de desconhecidos, repito.

Dos 114 premiados até hoje, se li a metade foi muito. Vários foram lidos aos trancos e barrancos, na indócil adolescência, outros tantos abandonados no meio e jamais retomados. Nem com o estímulo da Coleção Nobel de Literatura interessei-me pelos sete primeiros premiados. O oitavo, Rudyard Kipling, este sim me pegou.

Devo ter cometido muitas heresias e exagerado nas concessões à preguiça, das quais, dado o adiantado da hora, não tentarei me redimir, como quase fiz com o islandês Haldór Laxness, Nobel de 1955, que me foi entusiasticamente recomendado por Susan Sontag, uns 15 anos antes da tradução de Gente Independente sair no Brasil.

Não precisamos do Nobel para conhecer e admirar, entre outros, J.M. Coetzee e Doris Lessing. O Nobel de 2008, J.M.G. Le Clézio já circulava entre os brasileiros au courant das novidades da moderna literatura francesa desde o início dos anos 1960, quando sua estreia no romance, Le Procès-Verbal, foi lançado pela Gallimard.

Detalhe irrelevante: Le Procès-Verbal era o livro que carregava comigo quando fui apresentado a Fernando Gabeira por Mauricio Gomes Leite, em plena Cinelândia, numa noite de 1963. “Onde você conseguiu?”, perguntou Gabeira. “Encomendei na Leonardo Da Vinci. Acabou de chegar”, respondi, e logo o ofereci por empréstimo ao futuro colega de redação do JB. Meu interesse por Le Clézio durou poucos anos. Seu tardio reconhecimento pela Academia Sueca me provocou mais espanto do que qualquer outro sentimento.

Detalhe relevante: Gabeira me devolveu o livro. 

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