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Para que serve a história?

História revela o processo de construção de cada cultura e deve ser desafio ao autoritarismo

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

22 de janeiro de 2020 | 03h00

Sua história pessoal, a história da sua família e a do nosso país são partes essenciais da identidade de cada um. Quero pensar três perguntas para saber de história: utilidade, escrita e propriedade. Não escrevo para colegas de profissão, porém para o público leitor com sensibilidade e interesse. Começo pela primeira, a que lança a incômoda questão sobre o valor da História. 

Vivemos em uma época de profunda polarização. Basta olharmos para os índices de aprovação e rejeição de Donald Trump, que se mantiveram praticamente inalterados desde sua eleição, para entendermos como há dois EUA no mesmo país. Os dois lados vociferam grande indisposição um com o outro. Situações similares podem ser observadas mundo afora. Em épocas eleitorais, tal tensão fica mais evidente, todavia se engana quem acredita que enterramos as machadinhas nos interstícios. Estarmos permanentemente polarizados já seria ruim, um sintoma de doença na democracia, segundo o livro Como as Democracias Morrem (de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, 2018). O pior é nossa falta de vontade ou incapacidade de superarmos os polos. Vou chamar esse fenômeno de “bolharização”. Escolho viver em bolhas, em ilhas, isolado, apenas com meu mundinho, minhas coisas e pessoas. Outra ilha/bolha só pode ser povoada por gente ruim e perigosa, pois, na minha, apenas os anjos vivem.

História é sempre essencial. Em momentos assim, a História é ainda mais fundamental. E para que serve a História? Quem é historiador já ouviu essa pergunta de forma direta ou amenizada. Quando os EUA estavam em seu início, pobres e endividados, o futuro presidente John Adams (1735-1826), negociando acordos comerciais em Paris, escreveu para sua esposa, Abigail. Na carta, dizia que estava encantado com a corte francesa, seus luxuosos palácios, seus corredores e salões lotados de arte e história. Por outro lado, tomado pelo pragmatismo que marcaria parte da história nacional daquele nosso vizinho do Norte, mas também por certa inveja, refutava que aquilo não era o presente de sua nação. Afirmava que a geração dele deveria ser de engenheiros, de trabalhadores braçais estratégicos, pois tudo ainda estava por ser feito. Se essa geração triunfasse, a seguinte, dos filhos do casal, seria de arquitetos, mais despojados do peso de erguer a base, poderiam dar acabamento fino ao novo que ali se desenhava. Por fim, os netos poderiam ser artistas. Karl Marx, curiosamente, também dividiu o mundo assim: primeiro as necessidades materiais, depois o resto. A economia, depois a política. Ao fim, uma pátina de arte, um verniz de cultura. De forma mais comum, ainda existe o pensamento de que o essencial e prático estaria nas áreas de exatas e biológicas. As ciências humanas seriam adereço, “perfumaria”. Nada mais enganoso. Algoritmos e novas tecnologias têm tornado obsoleto muito do que fazíamos. Porém, entender a natureza humana, suas variações em grupos ao longo do tempo e do espaço, é algo que está cada vez mais necessário. De perfumaria, passamos a artigo de primeira necessidade. Somos, nos dias de hoje, um valor fundamental em grandes centros de pensamento. 

Vou desenvolver a ideia. É fundamental dar às coisas alguma perspectiva histórica. Isso quer dizer que um mesmo fato sempre pode ser lido de vários ângulos; que os agentes históricos se movem em um misto daquilo que podem fazer no contexto que lhes permite que algo seja feito. Em outras palavras, que muito pouco é natural quando se trata de humanidade. A vasta maioria de nossas ações e pensamentos é moldada por cultura, logo muda com o tempo. Além dessa desnaturalização, a perspectiva histórica nos ensina alguma humildade. Podemos estudar grandes homens e mulheres do passado, ou os mais humildes, e, inequivocamente, todos morreram. Assurbanipal foi grande em seu tempo, se sentia o homem mais poderoso da Terra. Quem é ele hoje em dia? Em que suas ideias prosperaram? As lentes da história ajudam-nos a ajustar o foco e dar aos fatos ocorridos dimensão e perspectiva para além do impacto imediato. Algumas questões somem, como as polêmicas diárias de mídias sociais, ao passo que a extrema relevância de outras pode nos ser despercebida. 

Pôr as coisas em perspectiva, admitir que tudo tem mais de um lado e que todos precisam ser ouvidos, não significa, contudo, que vale qualquer coisa em História ou que rever o passado para que ele me diga o que me interessa seja possível. História “desnaturaliza” o que parece inscrito no livro das leis físicas e biológicas. História revela o processo de construção de cada cultura. História sempre deve ser um desafio ao autoritarismo, ainda que muitos historiadores tenham se tornado defensores de ditaduras, infelizmente. Como há maus médicos, há maus profissionais da área da memória. História insere os conceitos no seu significado de época, evita anacronismos, revisita valores e desmancha dogmas pela sua própria natureza de perguntar e colocar em perspectiva. Historiadores críticos incomodam sistemas totalitários e foram perseguidos em regimes muito variados. Há muito mais para pensar e dizer, mas, por enquanto, precisamos dar espaço para a esperança e encerrar por aqui. 

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