Para que escrever literatura?

No dia em que morre, 7 de outubro de 1849, Edgar Allan Poe renasce como único responsável pelo bom funcionamento do farol de Viña del Mar, na costa chilena. Sob a forma de diário íntimo, o defunto autor (é inevitável a referência a Machado de Assis) começa a anotar o seu dia a dia de faroleiro. Lembranças da inesquecível Virgínia, a esposa que foi cedo desta vida, se misturam com o doce companheirismo proporcionado pelo cão Mercúrio. Ao percorrer o diário, o leitor descobre que o contista americano revive personagens de sua própria obra. Está tomado pelo meticuloso desespero de viver e de registrar pensamentos, leituras e reflexões na total solidão dos dias e das noites no farol. Edgar Allan Poe é escritor notável porque ainda em vida quis ser um defunto lido pelos pósteros.

Silvano Santiago, de O Estado de S.Paulo,

26 de novembro de 2011 | 03h09

Assim começa a primeira das cinco estórias que a romancista, contista e crítica Joyce Carol Oates, forte candidata ao Prêmio Nobel, inventa e reúne em Wild Nights (Noites Selvagens, 2008). Edgar Allan Poe, Emily Dickinson, Mark Twain, Henry James e Hemingway - cada um dos cinco foi retratado de forma alegórica: como aparece, ou reaparece, ao desaparecer deste mundo pela morte. Carol Oates reaviva a agonia e a sobrevida de cada escritor com a letra morta dos seus respectivos livros, numa linguagem fantasmagórica, crítica e atual que beira a genialidade. A escrita biográfica é pastiche da legítima escrita do biografado e, com engenho e arte, a escritora esbanja cinco estilos e cinco tramas diferentes em cinco estórias. Leiamos duas delas.

O velório em Baltimore não deu por finda a vida de Edgar Allan Poe. Sob a forma de holograma, os dias póstumos no farol estavam programados pelos seus escritos. O raio laser de Carol Oates incidiu sobre os personagens e a linguagem dos contos e poemas dele, a fim de propor ao leitor a imagem virtual do artista como a real, ou a verdadeira. Banal, a morte em carne e osso perde o brilho diante da complexa e fulgurante imagem captada por Carol Oates. Paradoxalmente, a agonia vivencial do escritor está holograficamente descrita na obra. Sendo holograma de personagens seus, o Poe defunto encontra no farol de Viña Del Mar o pouso final para as noites e os dias alucinados, avivados pela escrita e entorpecidos pelo álcool.

O pronome inglês I (eu) tem a pronúncia do substantivo eye (olho) e poderia ter a pronúncia - acrescentaria o leitor brasileiro - da interjeição ai! Subjetividade, olhar e dor se fundem no conto. A subir e a descer os degraus da torre, Poe "fica encantado" no farol. À noite, orienta naves e marinheiros extraviados com a lucidez transparente e incisiva da luz. Durante o dia, seduz os leitores com a escrita fria e calculada, joão-cabralina, que dá continuidade ao pensamento de Descartes, Pascal e Rousseau. Com o correr dos meses, as sentenças do diário perdem a sintaxe e a lógica implacável. Em lascas de frases, anotadas à beira do delírio e povoadas de grotescos e poderosos animais marinhos, adentram-se pelo nonsense sob a forma de arabescos. Ao final da estória de Carol Oates, amores frustrados, solidão, álcool excessivo e criação desarrazoada em Baltimore têm cenário adequado nos confins do Chile e à beira-mar. Holográfica, a escrita estilhaçada e poética do Poe póstumo está mais próxima de Stéphane Mallarmé que do retrato conhecido dos leitores.

É tragicômica a vida póstuma da poeta lírica Emily Dickinson. Ela renasce numa casa pequeno-burguesa do Estado de Nova York, onde marido e mulher, depois de nove (ou dezenove?) anos de casados, se distanciaram e buscam um brinquedo poético para acalentar-lhes a vida sentimental desencontrada e insípida. A imagem holográfica de Poe é substituída por uma réplica de Emily Dickinson. Sua réplica, ou as de outros famosos, todos esculpidos em tamanho menor a fim de evitar que algum órgão real do corpo humano seja transplantado, pode ser comprada pela internet ou na loja. No mostruário, a réplica de luxo de Emily Dickinson convive com as de Babe Ruth, Teddy Roosevelt e Van Gogh. Por causa de direitos autorais, não está à venda a réplica de Sylvia Plath. Devido à pouca procura, Walt Whitman está em oferta; não é réplica para se ter em lar burguês. Há para todos os gostos. A escolha é do cliente. Estamos lendo o delicioso e bem-humorado conto EDickinsonRepliLuxe.

Quando lhe deu "a coceira dos sete anos de casado", Tom Ewell teve melhor sorte que o casal Grim na compra duma réplica de Emily. Em noite solitária e cálida do verão nova-iorquino, Marilyn Monroe despenca-lhe no colo. Lembram, não? Já os Grim têm de se acostumar a uma espécie de manequim, alimentado, explica o narrador, por programa de computador que extraiu o sumo do indivíduo esculpido. Ao apertar o botão "ativar", Emily Dickinson reganha a vida como geringonça. É ela! Mal sabiam os Grim que, com o correr dos dias, a réplica lhes iria explicitando, através de silêncios sedutores e de enigmas poéticos luxuriosos, a identidade enganosa e mistificadora que encobria a vida em comum.

Na réplica a senhora Grim encontra a companheira que tinha perdido na adolescência, quando escrevia poesia. Os múltiplos afazeres diários de Emily não tolhem o fazer poético e levam a esposa a retomar a inspiração literária. Distancia-se do marido. Este, por sua vez, depois de experimentar ódio pela agregada e de fazer valer o título de propriedade que tem da figura que empesta seu lar, passa a manifestar o desejo de possuí-la, literal e alucinadamente. A tentativa é fracassada, pois ele encontra algo de postiço no local do desejo. Em desespero, despedaça a réplica. Diante do quadro macabro, a esposa atende ao pedido final de Emily: "Liberte-me". A esposa a liberta do jugo doméstico e, em companhia dela, encontra a liberdade que busca.

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