Para os 70 anos do rei do futebol

Editoras dão início aos lançamentos para celebrar o aniversário de Pelé

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

Dia 23 de outubro Pelé completa 70 anos. Com a aproximação da data, o mercado editorial faz festa antecipada e já começa a lançar livros sobre o Rei do Futebol. Pelé 70 (Editora Realejo e Brasileira, 160 págs., R$ 149,90) contém um magnífico álbum de fotos, além de textos de escritores boleiros como Xico Sá e José Roberto Torero, entre outros. Amanhã, os dois participam de mesa-redonda para o lançamento do livro na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915), às 19h30. A Cosac Naify não fica atrás e coloca no mercado a autobiografia Pelé - Minha Vida em Imagens (100 págs., 109 ilustrações, R$ 140). Para as crianças (afinal, foi para elas que o Rei dedicou o milésimo gol), o selo infantil Companhia das Letrinhas traz Por Amor ao Futebol! (48 págs, R$ 29), livreto simpático, com ilustrações de Frank Morrison.

Os lançamentos, de certa forma, expressam a dificuldade de abordar uma personalidade como a de Edson Arantes do Nascimento. Pelé, primeira figura midiática da era do futebol, o mais completo praticante desse jogo e detentor de recordes imbatíveis nesse esporte, é figura abrangente demais para se deixar aprisionar em textos, por melhores que sejam. Há sempre algo que sobra - ou falta - a cada vez que se escreve sobre Pelé. Se muito sóbrios, ficamos irremediavelmente aquém do personagem; se tentamos acompanhá-lo em sua grandeza, corremos o risco do derramamento ou da pieguice. O meio-termo ainda não foi encontrado.

Daí que o recurso natural seja a autobiografia - e este é o caminho trilhado por Pelé - Minha Vida por Imagens, que se aproveita do texto publicado no original em inglês pela Simon & Schuster em 2006 e aqui lançado anteriormente pela Editora Sextante. As novidades da Cosac Naify são as imagens, algumas raras, e o formato scrapbook - itens de colecionador que podem ser destacados, como fac-símiles do ingresso da despedida definitiva do Rei num amistoso entre o Cosmos e o Santos, quando jogou um tempo para cada equipe; ou da carteirinha do então garoto na Liga Bauruense de Futebol, de 1956. Relíquias materiais de uma carreira transformada em mito.

E quem não conhece os passos principais dessa trajetória? Em breve resumo, pode-se lembrar que Edson Arantes do Nascimento nasceu em Três Corações, Minas Gerais, em 23 de outubro de 1940. Família pobre, pai jogador, um centroavante de apelido Dondinho, cabeceador emérito que passou a vida enfrentando problemas no joelho. Dondinho foi modelo e primeiro professor de bola do futuro Rei. Cedo, a família se muda para Bauru, no interior de São Paulo, onde Pelé desperta para o futebol. É levado para o Santos Futebol Clube com 15 anos de idade e começa sua ascensão meteórica. Campeão do mundo aos 17 na Suécia, bicampeão em 1962, tri no México. Números espantosos: em 22 anos de carreira, conquista 53 títulos - sendo cinco de campeão do mundo, três pela seleção, dois pelo Santos. Onze vezes campeão paulista, sendo o primeiro título em 1958, o último em 1973. Ao longo desses anos, marcou 1.281 gols em 1.363 jogos.

Há alguma disparidade (não muita) entre os números, e uma das boas novidades de Minha Vida em Imagens é a relação completa dos gols de Pelé, jogo a jogo, discriminando data e adversário de cada um. Pelas últimas pesquisas, os números atualizados ficam assim: 1.283 gols em 1.367 jogos. A última partida de Pelé foi entre Cosmos e Santos. E o gol derradeiro, por ironia, ele marcou contra o Santos, seu time de toda a vida, no qual permaneceu 18 anos antes de embarcar para Nova York e assinar com o Cosmos, isso depois de haver se despedido oficialmente do futebol.

As cifras impressionam. São insuperáveis. Mas, se uma existência comum não cabe em estatísticas, o que dizer de uma vida como a de Pelé? Números não descrevem o essencial - a aura mágica que o cercava ao jogar. Mesmo antes de ser "coroado" pelos jornalistas franceses, Pelé, menino, exalava realeza.

Magnetismo. Nelson Rodrigues, que compreendia o futebol como ninguém, ao vê-lo no Maracanã, sentiu no ar esse magnetismo ímpar. Viu que o garoto já arrastava atrás de si um manto imaginário e estava de posse de um cetro e uma coroa simbólicos. "Perguntem a ele quem é o melhor do mundo, e responderá: "é o Pelé"." Essa autoconfiança abusiva, adivinhada pelo cronista, é que permitiu ao novato riscos como aplicar um chapéu no zagueiro dentro na área e mandar a bola para as redes antes que tocasse o chão. Era o gol contra o País de Gales, primeiro dos 95 marcados pela seleção.

Daí em diante, as proezas se sucederam e eram repetidas a cada jogo que alguns privilegiados tiveram a sorte de assistir ao vivo. As imagens estão aí para que os incrédulos confiram. Em muitos sentidos, elas são melhores que as palavras para "falar" de alguém que elevou o futebol à condição de arte suprema. Palavras, mesmo, só as de Drummond, que escreveu sobre o milésimo gol: "O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols como Pelé. É fazer um gol como Pelé".

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