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Para o corpo e para a alma

Um santo na família é das poucas coisas que, a esta altura da vida, poderiam me surpreender. Pena que, por ser de casa, ele não faça milagres

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

14 de maio de 2019 | 02h00

Hipocondríaco sem remédio

Foi eu abrir a minha caixinha de pílulas, no café da manhã, e ele esticar o pescoço para xeretar, tomado de súbita excitação: 

– O que temos aí?

Tínhamos ali uns poucos e modestos fármacos, como ele gosta de dizer, não mais que três bolotinhas brancas – e, diante do espetáculo pífio, meu amigo pôs no rosto uma expressão de superioridade próxima do desprezo. Sacou sua própria caixinha – palavra reles demais para descrever o estojo de metal esmaltado que, por simples ação de presença, reduziu a nada o recipiente de plástico plebeu onde os meus ridículos comprimidos se comprimiram ainda mais, cobertos de vergonha farmacológica. 

Um botãozinho, plec, descortinou teatralmente a profusão de pílulas, de diferentes cores, formatos e tamanhos, para os mais variados males, presentes, futuros e passados, sem excluir os imaginários. Como um lapidário com seus brilhantes e rubis, ele espalhou as gemas sobre a mesa e foi fazendo as apresentações: esta é para isto, esta para aquilo...

Cada qual tem nesta vida um assunto em que se sente mais à vontade, e o desse meu amigo é remédio. Mas não qualquer um. Não ousem falar com ele de chás, florais, homeopatia. Muito menos de medicamentos baratos, a seu ver incapazes, já por motivos econômicos, de surtir efeito: é preciso que haja sofrimento monetário. Remédio sem bula? Meu amigo não passa sem essa literatura de terror em que o nome mais simples de personagem tem sete sílabas. 

Faz mais fé nas pílulas coloridas do que nas brancas, nas cápsulas do que nos comprimidos e, sobretudo, nas pastilhas efervescentes, que nem entraram ainda no organismo e já estão, com suas borbulhas, mostrando serviço. É ver uma injeção e dar o braço a picar.

Gosta de remédio que arde – sinal de que está fazendo efeito. “Zé Febrinha”, como costumamos chamá-lo, carrega seu termômetro aonde quer que vá. Adora consulta médica, ocasião em que o assunto é ele, só ele e suas entranhas, e se anima todo durante o interrogatório a respeito da caxumba na infância. É com entusiasmo futebolístico que fala de suas passagens por salas de cirurgia, nas quais vem deixando seus miúdos, das amígdalas ao prepúcio, do apêndice à vesícula biliar. 

– Estou indo aos poucos – anuncia ele orgulhosamente. 

Dia desses, ao telefone, enveredou pelo relato de seu despertar após a cirurgia de vesícula. Ao abrir os olhos, a primeira coisa que percebeu, sobre o criado-mudo, foi um potinho de plástico em cujo interior transparecia uma pedra escura e informe. 

– Maior pedregulho, meu! – disse ele, feliz como garimpeiro que acaba de recolher na bateia um graúdo diamante. Poucos homens já vi gabarem-se com tão segura vaidade no quesito tamanho. Ou – que ele não me leve a mal – galinha cacarejar com tanto júbilo ao botar um ovo. 

O seu entusiasmo não diminuiu nem mesmo quando, incorporando o meu ocasional espírito de porco, observei que uma ostra é capaz de feito bem maior, já que produz pérolas, não calhaus fuliginosos. 

– Você não sabe de nada – desdenhou ele, em seu pétreo orgulho mineral, e entrou a falar da fita de vídeo que encontrou ao lado do potinho, ao voltar da anestesia: o filme, sem cortes, da sua cirurgia. A primeira peça, espera meu amigo, de uma videoteca ambientada exclusivamente em suas entranhas. 

Não resisti:

– Finalmente, uma prova de que você tem vida interior! 

Santo de casa

Se você me leu nas últimas semanas, pode ser que se lembre do surto hagiológico que me fez enumerar, com a ligeireza dos incultos & incréus, uma profusão de santos de variada especialidade. Entre eles, santo Arnulfo, padroeiro dos cervejeiros. E eis que lá de Minas me escreve o primo-irmão Ruy Pereira Furquim Werneck, genealogista de truz, para informar que Arnulfo, bispo da cidade francesa de Metz, vem a ser antepassado nosso. 

Sim, babe de inveja: descendente de santo. E não ouse pôr em dúvida a integridade moral do vovô Arnulfo: o celibato clerical não era obrigatório antes do ano de 1123, e ele viveu entre 582 e 641. 

Encarapitada num dos ramos mais remotos da árvore genealógica a que pertencemos, a pia criatura, nas rigorosas contas do Ruy, é o 34.º avô do nosso vovô Hugo – e mais: o é por parte de mãe e de pai, pois os bisavós Francisco e Hortense eram primos. 

Um santo na família é das poucas coisas que, a esta altura da vida, poderiam me surpreender. Pena que, por ser de casa, ele não faça milagres.

Pitéus literários

A infelicidade que levou o ministro da Educação a atribuir a Franz Kafka o sobrenome “Kafta”, catapultando-o da literatura para a culinária, desencadeou um vagalhão de travessuras verbais em que outros escritores ganharam conotação de comes & bebes. E também algumas obras cujos títulos foram recozidos – entre outros, O menu, de Fernando Sabino, Totem e tabule, de Freud, Em busca do tempurá perdido, de Proust, e, claro, a Omelete, de Shakespeare.

Com votos de bom apetite, aqui vai uma seleta da mesa literária, recolhida no Facebook:

James Juice

Milk Shakespeare

Miguel de Conservantes

Charles Chickens

Basílico da Gama

Machado de Anis

Manuel Antônio de Amêndoa

Antônio da Alcatra Machado

Cuscuz e Souza

Luís de Camarões

Antero de Quentão (ou de Quentinha)

António Lombo Antunes

José Sal Amargo

João Camarões Rosa

Hannah Arenque

Hellmann’s Hesse

Erva Pound

Cesare Pavê

Homus Oz

Salmão Rushdie

Mia Couve

Milton Atum

Nélida Champignon (ou Nélida Pinhão)

Joaquim N’Ossobuco

José do Laticínio

José J. Aveia

José Lins do Rango (ou Rins do Rego)

Malba Tahine

Stephen Burger King

Jorge Assado

Zélia Petit Gattai

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