Para Meirelles, mundo ficou 'ainda mais burro' sem Saramago

Cineasta que adaptou 'Ensaio Sobre a Cegueira' afirma que escritor era homem 'lógico'.

Fabrícia Peixoto, BBC

18 de junho de 2010 | 16h57

O diretor de cinema Fernando Meirelles disse por meio de um comunicado que o mundo ficou "ainda mais burro e ainda mais cego hoje", com a morte do escritor português José Saramago.

Em 2008, Meirelles levou para os cinemas uma das obras mais importantes de Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira.

"Saramago era um homem lógico, dizia que a morte é simplesmente a diferença entre o estar aqui e já não estar mais. Combatia as religiões com fúria, dizia que elas nos embaçam nossa visão", disse.

"Mesmo assim, não consigo deixar de pensar que adoraria que neste momento ele estivesse tendo que dar o braço a torcer ao ser surpreendido por algum outro tipo de vida depois desta que teve por aqui", acrescentou.

O diretor brasileiro disse ainda que está coproduzindo um documentário chamado José e Pilar, dirigido pelo português Miguel Mendes, sobre os últimos anos de Saramago e sua mulher.

Leia abaixo as reações de outras personalidades no Brasil à notícia da morte de José Saramago:

Marcos Villaça, advogado e presidente da Academia Brasileira de Letras

A Academia estava aguardando a informação de quando José Saramago viria ao Rio para providenciar a organização da sua posse na Cadeira 16 de sócio correspondente. A notícia nos deixou em estado de enorme tristeza.

A próxima sessão acadêmica, quinta-feira que vem, na ABL, será dedicada à memória do grande escritor português, por quem sempre tivemos o maior respeito e admiração."

Nélida Piñon, escritora e integrante da Academia Brasileira de Letras

"Estou em Lisboa, onde recebo a notícia de que Saramago nos deixou. Sofro um sobressalto, uma profunda tristeza.

Perdemos um mestre da língua e da narrativa. Quem rastreou a história humana com fervor literário, talento, poderosa imaginação. Quem honrou a língua e nos inspirou admiração e orgulho. Amanhã irei ao seu velório para prestar-lhe todas as homenagens do mundo, que ele merece."

Juca Ferreira, sociólogo e Ministro da Cultura

"A morte de Saramago significa a perda de um grande escritor, de uma pessoa que ultrapassa a fronteira de Portugal e ultrapassa inclusive a fronteira dos países de língua portuguesa.

Saramago é importante para a literatura mundial, uma pessoa extremamente crítica às características da vida nesse início de século 21, cáustico, e que deixou uma literatura reconhecida no mundo inteiro. É uma pessoa enorme.

Sempre quando uma pessoa morre há uma atenção maior sobre o valor da sua obra. Eu acho que o Brasil vai perceber que estava dando uma atenção menor do que o significado da obra dele."

Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores

"O Ministro Amorim lamenta a perda de um homem que, com sua obra, deixou uma extraordinária contribuição para a literatura mundial e para a valorização da língua portuguesa, além de representar, por sua conduta pessoal, um exemplo de atuação engajada em favor de um mundo mais justo."

Cícero Sandroni, jornalista e escritor, membro da Academia Brasileira de Letras

"Não há como escapar do clichê. Foi uma grande perda para a literatura escrita portuguesa.

Embora tenha começado tarde, na comparação com outros escritores, desde seus primeiros livros ele fez um trabalho de destaque, na linguagem e no estilo.

Depois de Saramago, a literatura portuguesa ganhou uma projeção internacional. Ele foi fundador de um novo estilo, de uma nova visão de mundo, e certamente suas obras vão perdurar por séculos e séculos. O que podemos fazer agora é lastimar sua morte."

Leyla Perrone-Moisés, crítica literária e professora da Universidade de São Paulo

"Qualquer que seja a posição dos leitores com respeito às opiniões políticas do homem Saramago, ninguém pode acusá-lo de ter feito literatura partidária ou militante.

O romancista defendeu suas ideias não com pregação política ou lições de moral, mas por meio da melhor literatura de ficção, aquela que, nos prendendo com histórias envolventes e nos embalando numa linguagem musical, nos faz refletir sobre a história passada e a sociedade atual.

Apesar da firmeza de suas ideias, em seus romances Saramago sempre tratou a história e a realidade com mão leve, num registro imaginário ou mesmo fantástico que, ao levantar o leitor do chão, a este o devolvia mais lúcido e mais fraterno."BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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