Para Maria Adelaide Amaral, peça segue linhagem do teatro de ideias

Dramaturga e escritora traduziu o texto de Cormac McCarthy a pedido de Fábio Assunção

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo,

28 de agosto de 2012 | 21h34

O diálogo é que conduz a trama e não a ação, graças à rica linguagem de Cormac McCarthy. Isso facilitou ou dificultou o trabalho de adaptação?

A boa qualidade do texto facilitou a adaptação.

Como dramaturga, como você analisa a construção desses dois personagens que, embora em busca de uma suposta paz na solidão, conversam de uma forma tão feroz?

Essa é uma peça de embate e debate de ideias, crenças e descrenças. O texto pertence sem dúvida à melhor linhagem do teatro de ideias que foi inaugurado com Jean-Paul Sartre durante e a partir da 2.ª Guerra Mundial.

Os dois personagens, Black e White, têm nomes que sugerem orientações metafísicas contrastantes. Isso, por si só, já seria uma dica ao espectador do que virá pela frente ou, ao contrário, torna-se um truque dramatúrgico do autor?

Acho que é um recurso do autor e uma forma de dividir a arena onde os personagens se digladiarão.

É curioso o confronto entre religiosidade e humanismo, evidente na posição dos dois homens, você concorda?

Esse é o aspecto mais fascinante: Black tentando salvar White que recusa ferozmente aquele tipo salvação.

Fábio Assunção disse que pediu para que você fizesse uma adaptação menos realista e mais existencialista. Como foi?

A minha principal preocupação foi aproximar os personagens do Brasil e do público brasileiro. Black pode ser um ex-presidiário que viveu sua epifania na enfermaria de uma prisão. Afinal, sabemos do trabalho dos evangélicos e sua atuação no sistema penitenciário. White, por sua vez, é um professor niilista, como tantos que conhecemos. Em alguns momentos, seus argumentos até se assemelham aos de Luiz Felipe Pondé.

 

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