Para ler e reler 'Gabriela'

Obra de Jorge Amado volta à TV a partir de hoje, repaginada pelo autor

CRISTINA PADIGLIONE, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2012 | 03h06

"De Walcyr Carrasco, inspirada na obra de Jorge Amado": é assim que a Globo vem anunciando a nova versão de Gabriela, título tratado aqui como "novela das 11", em cerca de 70 capítulos, que estreia hoje, após Avenida Brasil, excepcionalmente às 22h15 de uma segunda-feira. Nas semanas a seguir, a exibição valerá de terça a sexta, após as 23 h.

A chamada tenta descolar a imagem da nova Gabriela, com Juliana Paes, daquela que se tornou um clássico, em 1975, consagrando Sônia Braga, com adaptação de Walter George Durst e direção-geral de Walter Avancini. O elenco conta com Antonio Fagundes, Mateus Solano, Humberto Martins, Marcelo Serrado, José Wilker (que foi o idealista Mundinho em 75 e agora passa para o outro lado, como coronel), Ivete Sangalo e Ary Fontoura. Membro da Academia Paulista de Letras, Carrasco argumenta ao Estado por que descarta o termo "remake".

Por que não se deve comparar as duas versões de Gabriela?

Não é questão de se dever ou não comparar. A questão é que esta novela vem sendo inspirada diretamente no livro de Jorge Amado e em outros personagens que povoam sua literatura. Assim, não se trata de um remake, mas de uma nova novela a partir do mesmo livro.

Você leu o livro aos 12 anos e o releu algumas vezes. Qual foi o impacto da primeira leitura?

A primeira leitura teve um impacto muito grande na minha vida. Eu era um menino do interior paulista (Marília), com educação muito tradicional, religiosa ao extremo. Ao ler Gabriela, questionei alguns conceitos morais que imperavam na minha formação. Mais tarde eu me aprofundei nessas questões, e a discussão moral se tornou marcante em tudo que escrevo.

Você integra a Academia Paulista de Letras. Os outros membros fazem perguntas ou sugestões sobre seu trabalho na TV?

Quem assiste muito às minhas novelas são as escritoras Lygia Fagundes Telles e Ana Maria Martins, o poeta Paulo Bonfim e o jurista José Roberto Nalini, todos da APL. Eles sempre dão suas opiniões e, sim, às vezes contribuem com ideias. Adoro dialogar com eles sobre as minhas novelas!

Acha que novela ainda é vista como arte intelectual inferior?

Eu não vejo escrever novela como arte intelectual inferior e francamente não me preocupo se alguém pensa assim. Já ganhei o prêmio Shell de Teatro, o maior do gênero no Brasil. E não há diferença na minha entrega entre escrever teatro ou TV. Sou apaixonado.

O que esta Gabriela terá de diferente do livro?

Oxe! São tantas coisas, tantos caminhos. Vou mergulhar mais em algumas histórias, como a de sinhazinha, que tem um relacionamento extraconjugal com o dentista e é assassinada pelo marido. Também trago personagens presentes no universo de Jorge Amado, mas não necessariamente neste livro, como a história da menina que se torna prostituta, ou da velha beata e moralista, que se torna um parâmetro moral da cidade.

Em termos de estética, o que distingue esta Gabriela da outra?

O ritmo da narrativa é muito mais rápido, a história não se detém, sempre há algo acontecendo. Não assisti à versão anterior na época em que passou e agora só vi alguns capítulos, então não posso fazer uma comparação mais detalhada. A produção também é mais rica.

Você tinha parceria afinada com Walter Avancini, diretor da Gabriela de 75. Alguma vez conversou com ele sobre a obra?

Lamento agora, mas nunca conversei com Avancini sobre Gabriela. Acho que Walter Avancini amaria esta versão, que tem tanto a ver com sua preocupação com a qualidade artística, com o cuidado que o Roberto Talma e o Maurinho (Mendonça Filho, diretor-geral) estão tendo.

Quando a Globo fez Memorial de Maria Moura, Rachel de Queiroz me disse que seguia um conselho de Jorge Amado: que vendesse a obra por um bom preço e não visse, para evitar decepção. Acredita que Jorge aprovaria sua Gabriela?

Eu não conheci Jorge Amado para dizer. Mas uma pessoa que eu conheço bem, e que foi amigo pessoal de Jorge e Zélia (Gattai) diz que meu humor está muito parecido com o de Jorge. Esta pessoa é o Ary Fontoura.

A faixa das 23 h é mais permissiva. Haverá cenas de nu?

Sinto que é um novo desafio, porque fiz muitas novelas das 6 e das 7. Mas também comecei escrevendo Xica da Silva (Rede Manchete), que ia ao ar em horário tardio. Quanto a termos cenas de nu, acredito que sim, mas isso depende da direção. Escrevo com liberdade absoluta.

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