Para ler cantando ou assobiando

Diz o historiador Evaldo Cabral de Mello que a História é como a casa do Senhor; tem muitas portas e janelas. Se algumas dessas portas se transformam em "principais" - verdadeiras entradas sociais -, já outras continuam insistentemente secundárias, fechadas, ou semiabertas.

LILIA MORITZ SCHWARCZ, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

E esse parece ser o caso, em nosso País, da história da música. Muitas vezes tomado como símbolo da nacionalidade, marca de identidade de um "povo sensual e sonoro", o tema foi, porém, pouco explorado ou relegado a um lugar nada honroso. Claro que exemplos de refrões musicais aparecem sempre como anedota, ou até para conferir mais ironia ou sabor a textos sisudos e pesados. Exceções existiram e basta lembrar da obra de Gilberto Freyre, que se utilizou com frequência e originalidade desse tipo de documento, assim como explorou suas potencialidades. No entanto, poucas vezes, na historiografia brasileira, a música apareceu como sujeito de análise, como documento fundamental para interpretações mais abrangentes. É fato que só mais recentemente uma história cultural tem se afirmado entre nós; entretanto, se a pintura e a iconografia vêm sendo recuperadas de maneira vigorosa, e assumindo lugar de destaque, o mesmo não se passa com a produção musical. Tema fundamental dos modernistas da turma de Mário de Andrade, que viram nela uma marca de identidade - patrimônio nacional -, o veio parece que foi minguando, soterrado ou encoberto por recortes considerados mais precisos, ou de maior alcance.

Se fosse só para satisfazer e preencher tal lacuna, História e Música no Brasil, obra organizada por José Geraldo Vinci de Moraes e Elias Saliba, já teria feito muito, nesse território em tudo desértico. Mas a coletânea faz mais; sem pretender apresentar uma história contínua e evolutiva acerca do papel que o gênero desempenhou no País, o livro introduz episódios, contextos e eventos da maior relevância. Claro que qualquer obra coletiva traz momentos mais inspirados e outros nem tanto, mas o conjunto sem dúvida impressiona.

Congregando mestres, doutores e professores de universidades paulistas, sobretudo da USP, o livro é conduzido em "harmonia", mesmo que com alguns "acordes dissonantes". Após bela introdução escrita pelos organizadores - a qual situa o recorte do livro no contexto internacional e também local -, o primeiro capítulo, dedicado à música na América portuguesa, é talvez o de maior fôlego, tanto em termos temporais, como por conta do desafio de se opor ao consagrado e cansado conceito de "música colonial". O ensaio seguinte volta-se para os tempos de d. João, quando a colônia e depois Reino Unido seriam inundados por uma música de corte, a dialogar com nossos artistas locais.

E por aí vamos, nesse desfile de tempos, autores, compositores e escutas. Ganham lugar e precedência o advento do batuque e do maxixe no século 19, quando música erudita e popular definitivamente se misturam; o "reinado" de Pixinguinha e de seus "Batutas"; o papel dos folcloristas musicais; os patrióticos "sambas de exaltação e de legitimidade", que, no período das duas Guerras Mundiais, trataram de elevar o Brasil ao patamar de paraíso terreal, por conta de sua natureza, de sua população por suposto avessa ao conflito e dada à miscigenação; o cenário paulista na entrada da indústria fonográfica; e as grandes orquestras do ABC (que, no caso, correspondem aos designativos avião, bailes e cinema).

Mais inusitado, e coerente, é que, enquanto a bibliografia utilizada segue no pé de página, já "as referências de escuta" surgem ao fim de cada artigo - em local nobre e destacado. De quebra, o leitor (ouvinte) ganha ainda um CD, encartado ao livro, espécie de "best moments" ou brinde que serve como aperitivo, uma vez que se transforma em isca para criar novos parceiros nessa carreira, até agora, solo.

Está fadada ao fracasso a tarefa daquele que pretende citar a tudo e a todos, com o perigo de fazer da resenha uma espécie de lista telefônica. Na minha opinião, vale mais dizer que se lê o livro assobiando ou cantando. Aí está uma obra que não se quer ou pretende inacabada, uma vez que mais convida para o baile do que apaga as luzes.

Dizem que "quem espera sempre alcança". Demorou a aparecer uma coletânea como essa, que tira a música dos bastidores e lhe confere o centro, a luz e o som necessários. Antes tarde do que nunca.

Conforme cantava Chiquinha Gonzaga em marcha de carnaval das mais inspiradas: "Oh abre alas que eu quero passar!"

LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O SOL DO BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA CORTE DE D. JOÃO (COMPANHIA DAS LETRAS)

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