Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Para José Celso, obra de Euclides da Cunha forma o leitor

Ator e diretor participou do ciclo de debates sobre o escritor, promovido pelo 'Grupo Estado'

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2009 | 09h11

Sociólogo, jornalista, poeta, cientista - os diversos talentos de Euclides da Cunha foram detalhados pelos participantes do ciclo Euclides da Cunha 360º, conjunto de três debates promovido pelo Grupo Estado e realizado nesta sexta, 14, no auditório da sede do jornal, diante de cerca de cem pessoas - o encontro foi transmitido ao vivo pela TV Estadão. "Euclides ainda é visto como o artista e o intérprete do Brasil", comentou José Leonardo do Nascimento, professor do Instituto de Artes da Unesp, que participou do terceiro debate ao lado de Leopoldo Bernucci, professor de literatura latino-americana da Universidade da Califórnia, e do ator e diretor José Celso Martinez Corrêa.

 

"Os Sertões é como um poema ilimitado, além de ser uma espécie de universidade, que forma o leitor", disse Zé Celso, revelando que, junto de seu grupo teatral, baseou-se no livro para armar sua defesa na luta por espaço contra o Grupo Silvio Santos, que planeja construir um shopping center nas cercanias do Teatro Oficina. "Aprendi muito com o personagem Antonio Conselheiro."

 

Veja também:

especialEspecial sobre o Ano de Euclides

linkColóquio foi polêmico e evitou as mitificações

 

A influência da obra euclidiana foi confirmada por Bernucci. "Ele é o escritor que tem a mais longa bibliografia literária do Brasil, superando Machado de Assis", observou.

 

Já o deslumbramento de Euclides com a Amazônia, durante a comissão do Alto Purus, no Acre, que ele comandou, entre 1904 e 1906, foi o tema do segundo debate, que reuniu a socióloga Nísia Lima, o professor Francisco Foot Hardman, e o escritor e colunista do Caderno 2 Milton Hatoum. Segundo Nísia, havia aproximações entre a cobertura do levante em Canudos e a viagem à Amazônia. "Ambos eram espaços incivilizados, daí o termo 'sertões' servir para os dois, pois denominava uma região desabitada", contou.

 

Já Foot Hardman mostrou como o engenheiro Euclides escrevia prosa poética em meio a textos técnicos. "Ele sonhava com uma linguagem que unisse arte e ciência", observou, reforçando que a experiência amazônica foi decisiva do ponto de vista literário para se desatar dos impasses da modernidade."

 

E Hatoum, apesar de admirar Os Sertões, preferiu apontar os trechos que o irritam. Como o desprezo de Euclides pelo nativo amazônico, tratado como um ser lascivo e beberrão. "Ele utiliza uma tipologia negativa dos povos locais, que teriam um grau zero na humanidade, enquanto o seringueiro inspiraria mais respeito", comentou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.