Para franceses, Sarkozy provoca 'choque cultural'

O presidente francês raramente menciona arte ou cultura, o que significa uma 'grande ruptura' para o país

The New York Times

16 de abril de 2008 | 17h05

Depois de quase um ano de mandato, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, raramente mencionou a arte ou a cultura. Uma das poucas vezes em que tocou no assunto, foi quando declarou no último mês de fevereiro que a cozinha francesa deveria ser tombada como patrimônio da humanidade pela Unesco. O general De Gaulle tinha André Malraux ao seu lado. François Mitterrand reformou o Louvre. Pouco antes de deixar o cargo, Jacques Chirac abriu um grande museu para culturas não-Ocidentais projetado por Jean Nouvel, o arquiteto que ganhou neste ano o prêmio Pritzker, o mais prestigioso da arquitetura. Todo presidente francês desde o fim da 2.ª Guerra construiu algum museu faraônico, uma casa de ópera, biblioteca ou iniciou algum programa cultural. Isto é, até agora. Dizem que o gosto do atual presidente está mais para Lionel Ritchie e Céline Dion (Mitterrand lia Dostoievski, já De Gaulle preferia Chateubriand). A afeição do atual presidente pelo showbizz, seu casamento com uma modelo-cantora italiana, e a indicação de Christine Albanel - considerado inteligente, mas fraco perto de outros ministros - se combinaram para produzir algo como um choque cultural. "Uma ruptura", como define o cientista político Pascal Perrineau ou "uma mudança incrível", como diz Jean Lacouture, biógrafo de De Gaulle. Meditando sobre os eventos recentes, Lacouture lembra que logo após a libertação da França das mãos dos nazistas, em 1944, "De Gaulle visitou escritores como Paul Valéry e François Mauriac. "Era seu jeito de declarar um senso de glória francesa renovado." Nos últimos dias, as bancas de jornal francesas mostravam uma edição especial da publicação satírica Le Canard Enchaîné que trazia uma outra foto de Sarkozy em seus usuais Ray-ban em um iate. Tanta pose rende insultos como "Sarkô, o americano".  Sarkozy é o primeiro líder moderno francês que não se formou nas escolas da elite e tem alguns hábitos que irritam os franceses, como durante sua visita ao papa no Vaticano ficar mandando mensagens de texto para o celular de alguém enquanto estava com o líder católico.  "O modo como ele lida com a televisão e os astros da mídia, o modo como se comporta, irrita muito a direita", diz Hervé Mariton, um neo-gaulista e membro do partido de Sarkozy, a União por um Movimento Popular, no parlamento. Mariton admite não ser o mais fervoroso admirador do presidente, mas declara: "Nosso presidente pode não ser o mais culto, mas também não é estúpido. Ele quer provar para uma parte da elite que as coisas mudaram. Como outros aspectos do governo, nossa política cultural havia se tornado incestuosa, então é bom que o presidente mantenha uma certa distância." Já o escritor esquerdista Patrick Rambaud não é tão diplomático. Seu romance satírico "As Crônicas do Reinado de Nicolas, o primeiro', se tornou um best-seller na França. "Nós estamos todos envergonhados", diz ele sobre a falta de interesse do presidente com a cultura. "Precisamos de um presidente culto" O fluxo contínuo de paparazzi ao redor de Sarkozy e Carla Bruni, e as férias na Euro Disney e no Egito enquanto a economia naufragava, fez com que a popularidade do presidente caísse e com que os marqueteiros tentassem reconstruir a imagem do presidente, tornando-o mais circunspecto. Mas os franceses não compraram a nova imagem. A última pesquisa, da revista francesa L’Express, mostra de 45% dos franceses acham que o estilo de Sarkozy não mudou; para 22%, ele piorou. Esta questão é claramente cultural, já que o seu primeiro-ministro, que conduz seus planos econômicos, é muito popular. "A idéia que Sarkozy faz pessoalmente sobre a cultura não importa. O ponto é que ele tem que saber que a cultura francesa é importante. Ninguém está fazendo isso nem na esquerda nem na direita. É chocante. Na França esse é um papel do presidente. Ele não pode continuar em silêncio", diz Olivier Py, diretor do Teatro Odéon, um dos cinco teatros nacionais da França. Didier Bezace concorda. O ator dirige desde 1997 o Théâtre de la Commune em Aubervilliers, produzindo peças em um dos subúrbios de imigrantes mais pobres de Paris. "Especialmente nesses lugares difíceis nós precisamos de instituições culturais para mostrar que nós não desistiremos", ele disse. "Sarkozy tem sido o maior inimigo dos subúrbios não por que ele disse que as pessoas são 'lixo'" - ele disse isso durante uma manifestação que estourou antes de ele se tornar presidente - "mas por que tudo a respeito dele reforça a idéia entre franceses pobres do meio urbano de que o objetivo é uma carteira gorda, roupas de marca, grandes hotéis e carros."  Perrineau, o cientista político, coloca de maneira diferente: "com seus jeans, sua rudeza, sua linguagem crua, sem gravata, ele estabelece uma nova iconografia para a França. Casualidade se traduz em um tipo mais secular de liderança, que é porque as pessoas que não gostam dele falam da americanização da França. Tanto para a direita como para a esquerda isso significa anti-intelectual." Campanhas por cultura podem ajudar a remediar isso. Como Chateaubriand coloca, "o gosto é o bom senso do gênio."

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