Para enxergar com o coração

Projeto Cinema em Palavras, em Campinas, promove narração de cenas de filmes para deficientes visuais

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2007 | 05h08

Numa das sessões semanais de cinema realizadas no Centro Cultural Louis Braille de Campinas (CCLBC), a tela exibia a história de um garotinho às voltas com a vizinha idosa e desmemoriada. À medida que o menino preenchia seus dias monótonos com as mesmas histórias contadas de maneira diferente por aquela senhora avoada, o interesse dele a fazia perceber, pouco a pouco, que valia a pena recuperar a memória perdida.O filme, o curta-metragem Dona Cristina Perdeu a Memória, de Ana Luiza Azevedo, está na programação do Ponto de Cultura - Cinema em Palavras, um dos projetos promovidos pelo CCLBC, e foi assistido naquele dia por um grupo de deficientes visuais cinéfilos e atentos. Isso mesmo, assistido por deficientes visuais.Coordenado pela filósofa Bell Machado, o Cinema em Palavras traz a narração oral de cenas de filmes, descrição de personagens e tudo mais que os ajude no melhor entendimento da história. É também a prova de que, com o mínimo estímulo, esse público pode ter atividades, para muitos, inimagináveis, como ir ao cinema. Basta encontrarem condições para que seus ouvidos, mais aguçados, dêem conta da compreensão que os olhos lhes impedem.Bell utiliza um recurso simples. Em todas sessões, ela se mune de equipamentos como aparelho multimídia, microfone e telão. Tudo a postos, o filme, nacional ou dublado, começa a rodar. Aos videntes, como são nomeados aqueles que enxergam, vale o exercício de cerrar os olhos e deixar-se conduzir pela narração de Bell, assim como ocorre com os deficientes visuais.No dia de Dona Cristina Perdeu a Memória, Bell fez uma pequena demonstração de seu cuidadoso trabalho. O curta inicia com uma música e uma tomada sem diálogos. ''''Tem um menino brincando e, enquanto isso, passam os créditos. Ele está num triciclo'''', descreve ela, para o público. ''''Tem uns 10 anos, está colocando tábuas no chão, corre com o triciclo sobre elas e leva o maior tombo.''''De repente, surge o som misterioso de um martelo em ação. Bell trata logo de esclarecer. ''''Uma senhora bate o martelo numa cerca. O menino olha para ela, ela o cumprimenta e ele não responde.'''' Vem o diálogo. Nesse momento, a narradora deixa a conversa entre menino e senhora fluir, sem sua interferência. O diálogo explica-se por si só. ''''Mesmo com a idade dela, ela se mostrou uma pessoa útil'''', conclui o estudante Lucas Tiago do Prado, de 17 anos, durante o debate pós-projeção. Bell pega gancho na observação. ''''Mesmo nas diferenças, a gente tem de se sentir útil.''''Lucas é mais dado a filmes de ação, confessa. Ele perdeu a visão aos 5 anos, por causa de um glaucoma. Tem vaga memória do tempo em que enxergava, por isso não lamenta de algo de que não se recorda muito bem. Pelo contrário. Gaba-se da excelente audição que desenvolveu. ''''Se vocês assistem pela segunda vez a um filme e reparam numa imagem que não tinham visto antes, eu vou reparar num áudio que eu não tinha prestado atenção da outra vez'''', compara. ''''Os filmes sempre fizeram parte da minha vida.''''Algo não muito comum entre os deficientes visuais. A falta de acesso não faz o hábito. O presidente do CCLBC, Luiz Antonio Rodrigues, diz que às vezes lhe falta, como deficiente visual, estímulo para ir ao cinema. ''''Vou pela boa companhia'''', admite. ''''Se a gente está sozinho e acontece algo sem diálogo no filme, pensa: e agora?''''Por sentir na pele as restrições da falta de estrutura das salas de cinema em recebê-los, Rodrigues é um dos entusiastas de iniciativas como o Cinema em Palavras, cujo objetivo está justamente em criar uma possibilidade para deficiente exercer seu direito de ter uma vida social. O dito cinema narrado, comum em salas da Europa e EUA, já era aplicado no CCLBC, mas ganhou organização maior com a entrada de Bell.Também professora de História do Cinema, ela constrói a ponte entre filosofia e sétima arte, e instiga as discussões após a exibição dos filmes. ''''É uma possibilidade de eles refletirem sobre a própria deficiência e perceber como nós, videntes, temos limitações'''', diz ela. Em 2004, inscreveu o projeto em um edital do MinC e foi contemplado. Montou-se uma infra-estrutura básica para levar o Cinema em Palavras adiante.Bell queria que o projeto se expandisse. Fosse acessível a outros deficientes, de outras partes. Já fez tentativas isoladas em mostras como Cinema e Direitos Humanos na América Latina, mas sonha em ver salas equipadas com audiodescrição e gente capacitada na função. Ela pode ser contatada pelo e-mail pccinemaempalavras@gmail.com. Os deficientes visuais apóiam o sistema de narração e aguardam que os videntes se coloquem no lugar deles. A eles, então, lança-se o convite: videntes, fechais seus olhos. O filme vai começar.

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