Para encerrar o setembro amarelo

O silêncio sobre o suicídio está sendo mais arriscado do que encará-lo em ambiente aberto

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2019 | 03h00

O tema exige mais atenção. Setembro é dedicado à prevenção ao suicídio. Todo ser humano está sob perigo, todavia os dois períodos de pico de risco são a adolescência e a velhice. Ambos remetem à sensação de inviabilidade de prosseguimento de jornada. O velho por perder os instrumentos que já teve. O adolescente por não ter desenvolvido recursos e não saber se vai ter condições de criá-los para dar conta da tarefa de existir. Sai da proteção da infância sem as possibilidades do mundo adulto. Melancolia do declínio e ansiedade pelo futuro podem ser desestabilizadores. Logo, atenção permanente sobre toda pessoa do seu mundo, porém cuidado mais especial com jovens e idosos. 

Para a adolescência, já dissemos, existe uma cobrança de felicidade e de plena realização. A obrigação da alegria permanente e total está se tornando insuportável para alguns. Lidar com a frustração ficou mais complexo. A violência urbana, o desafio de ser aceito, a falta de sensação de pertencimento, a ausência de modelos e heróis, as incertezas das escolhas profissionais, as notas baixas, a crueldade dos grupos sociais e a exposição a um mundo de álcool fácil e drogas disponíveis são combinações desafiadoras. 

Como pede o mês, há um sinal amarelo forte piscando no Brasil. Não pense, querido pai e querida mãe, em culpa. Somos menos poderosos do que supomos. Vamos focar em ações. Estejamos sempre atentos para alguns sinais. Existem oscilações muito fortes na adolescência. Um post negativo pode representar um mau humor ácido e agressivo ou inaugurar uma fase sombria. Distinguir tristeza passageira de crise estrutural é imperativo. Leiam sobre o assunto. 

O Centro de Valorização da Vida (CVV) faz um trabalho extraordinário. Os voluntários advertem que ouvir é mais importante do que aconselhar: inspirar confiança, estimular que a pessoa se abra, sem julgamentos, deixar que a lógica interna de cada um se esclareça. Uma conversa genuína pode mudar tudo. Muitos jovens, pela natureza da idade, sentem de forma magnificada questões que, para você, adulto, seriam menores. Nunca diminua a dor alheia porque você acha que seus problemas são superiores. De novo: o silêncio é, originalmente, um tipo específico e importante de argumento. Funciona como ter três crianças pequenas em casa: se não ouvir seus gritos, se há silêncio na casa, corra até elas, algo de grave está ocorrendo. 

O seriado 13 Reasons Why trouxe a ideia perigosamente à tona. Talvez seja o caso de vê-lo junto com seu filho ou promover uma discussão na escola. Um tema pesado é tratado ali e pode ser uma espécie de psicodrama deixar que ele dialogue com a televisão para dar fluxo ao que realmente pensa. Perigoso? Com certeza. Porém, no momento, o silêncio sobre o suicídio está sendo mais arriscado do que encará-lo em ambiente aberto. 

Volto ao assunto: álcool não é algo leve, apesar da imensa tolerância da nossa cultura sobre o tema. Educar é enfrentar tais problemas, um desafio para festas e para a sociabilidade dos jovens. Bebida potencializada por maconha tem um poder destrutivo enorme. Drogas lícitas e ilícitas devem ser trazidas para a conversa, sem sermões e sem tornar os objetos tão proibitivos e terríveis que despertem curiosidade. Quando o príncipe Charles teve problema com o filho envolvendo entorpecentes, levou-o para conhecer uma clínica de recuperação para ver uma parte do processo difícil de abandonar a liberdade diante de um vício. A droga nunca melhora a vida, jamais torna alguém mais interessante, sempre imbeciliza o usuário e destrói opções. Chega de glamourizar aquilo que contém morte em potencial. 

A tarefa não é fácil. Você tem um filho mais problemático, que tem baixo desempenho na escola e se excedeu em álcool. Você passa a focar nele. O outro filho, bom aluno e afastado disso, sente-se desamparado e vê que ser bom o torna um filho quase invisível. Ressurge o tema dos dois irmãos da parábola do filho pródigo do Evangelho: aquele que fez tudo errado teve festa ao voltar e o filho “cdf” nunca foi celebrado... Vamos tornar a hipótese mais difícil: o filho que tem bom desempenho comunica uma vitória (aprovação no vestibular, por exemplo) e todos celebram. O outro, o que não se destaca, verá que, para chamar a atenção, deve seguir caminho oposto. Como você vê, querida mãe e estimado pai, tudo é cercado de perigos e dificuldades. Ninguém acerta integralmente, porém é possível evitar erros totais. Nossos jovens e nossos idosos precisam sentir que são importantes e não um fardo. O começo e o fim da jornada apresentam armadilhas perigosas. Família é o espaço para perceber que a vida sempre é âncora em todas as suas fases. Seguir adiante, por vezes, é pesado; a ideia de suicídio aparece no horizonte como solução tentadora. Todos precisam entender que a morte é um passo sem volta para uma questão amiúde passageira. Sua família incomoda? Seus amigos são insuportáveis? O Brasil é um caos? O chefe é desagradável? A cidade está cheia de gente estranha? Tome uma decisão dramática e eficaz: sobreviva a todos eles, viva além deles, perdure quando todos tiverem passado. Viver é delicioso, por afeto ou por vingança! Mais uma vez, obrigado ao dr. Ricardo Krause pela assessoria. Uma boa semana e uma boa vida a todos!

 

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