Para ator, público gosta de ser desafiado

Quando começou a apresentar o monólogo Einstein, o ator Carlos Palma não podia imaginar os frutos que esse trabalho renderia. Não só o espetáculo alcançou um inesperado sucesso de público, como atraiu ao teatro cientistas, físicos, matemáticos e pesquisadores. A troca de idéias com membros dessa platéia especial estimulou Palma a criar o projeto Arte e Ciência no Palco, inspirado no desejo de traduzir - sem reduzir - conhecimento científico em linguagem artística.Como parte das atividades do Arte e Ciência, Palma dirigiu o espetáculo infanto-juvenil Da Vinci Pintando o Sete. Porém o fruto mais ambicioso desse projeto - desta vez envolvendo uma intrincada e "adulta" discussão sobre a ética e a responsabilidade social na atividade científica - estréia em março no Festival de Curitiba. Trata-se de Copenhagen, peça do inglês Michael Frayn, premiada com o Evening Standard em Londres; com o Molière, na França e ainda com o Tony 2000 na Broadway.O ponto de partida para a montagem brasileira foi uma sugestão do físico carioca Ildeu de Castro, que deixou nas mão de Palma uma crítica sobre Copenhagen publicada em Londres. O ator conseguiu a peça e ficou fascinado com aquele texto desconcertante. Comprou os direitos de montagem. Como já ocorrera na Inglaterra, não foi fácil reunir elenco. Alguns atores e diretores recusaram a empreitada. A peça é dramaticamente construída levando-se em conta princípios da física quântica e seu tema gira em torno da construção da bomba atômica. Um tema assustador, aparentemente capaz de afastar o público para milhas de distância do teatro.Parcerias - "Quem entra em contato com a física quântica pela primeira vez e não se surpreende, não fica perplexo, é porque não entendeu". A frase, de autoria de ninguém menos do que Albert Einstein, é lembrada por Marco Antônio Rodrigues, conhecido no métier como Marcão, o diretor responsável pela concepção do espetáculo que tem no elenco Palma Oswaldo Mendes e Selma Luchesi.Como explicar o sucesso de público e crítica de um texto considerado "complicado" até para os atores? "Eu preciso lhe contar uma coisa sobre teatro; as pessoas gostam de ser desafiadas." Foi o que disse Frayn ao ser questionado sobre o inesperado sucesso de Copenhagen.Apostar na inteligência parece ser também a atitude da Amana Key, empresa voltada para a educação e desenvolvimento coorporativo, patrocinadora do espetáculo. "Foi a Amana Key que nos ofereceu parceria", conta a produtora Adriana Carui. A produção conseguiu ainda o apoio da Estação Ciência, instituição mantida pela USP e dirigida pelo físico Wolfgang Hamburger, que cedeu o teatro da Estação para os ensaios.Palma e Carui compraram os direitos da peça certos de que estavam diante de um imenso desafio. Depois de tudo acertado foram surpreendidos com as premiações internacionais em torno da peça. "Não somos exatamente produtores de sucessos da Broadway, isso sim foi um susto", brinca Palma.Coragem - Copenhagen tem como personagens centrais o alemão Werner Heisenberg (Palma) e o dinamarquês de origem judaica Niels Bohr (Mendes). Eles foram os responsáveis, respectivamente, pelas descobertas do Princípio da Incerteza e do Princípio da Complementaridade, dois importantes fundamentos da física quântica. Princípios cuja descoberta possibilitou a fissão do átomo e a construção da bomba atômica.Bohr e Heisenberg conheceram-se na Alemanha, em 1922, num seminário em homenagem ao primeiro e no qual o jovem alemão foi único a ter coragem de desafiar o mestre e questionar sua matemática. Em 1924, após terminar seu doutorado, Heisenberg vai até a Dinamarca trabalhar como assistente de Bohr, na época um dos mais renomados físicos do mundo. Além de ampliarem, juntos, os conhecimentos da física quântica, tornaram-se amigos.Vigilância - O autor tomou como ponto de partida para construir sua história um misterioso encontro, realmente ocorrido, entre Bohr e Heisenberg, em 1941, na Dinamarca, em plena Segunda Guerra. Na ocasião, o País estava ocupado pela Alemanha. Ambos os cientistas estavam sob vigilância da Gestapo, a temida polícia secreta nazista. Nunca se soube exatamente o que conversaram e é sobre essa "incerteza" que Frayn constrói sua peça, ficcioando o encontro.Quando o espetáculo começa, Bohr, sua mulher Margrethe (Selma) e Heisenberg estão mortos. "Agora ninguém mais pode ser machucado, ninguém mais pode ser traído", lembra ela. Um bom motivo para os três relembrarem aquela noite e tentarem, juntos, reconstituir aqueles tristes tempos e as conseqüências daquele encontro para o futuro de toda a humanidade."A peça mostra dois papas da física conversando", diz Palma. Aparentemente, esse é o problema do texto. "O que a conversa entre dois caras como esses pode interessar ao espectador?", pergunta-se mais uma vez Palma. "Como conversam diante de Margrethe, um truque do autor, eles se preocupam o tempo todo em traduzir seus conceitos ´em língua de gente´, para que ela entenda."Outro fator a despertar o interesse do público é a paixão com que os cientistas falam de suas descobertas. "Há momentos em que parecem dois moleques comemorando-as; afinal, eles estavam trabalhando em cima de uma nova fonte de energia, capaz, por exemplo, de iluminar uma cidade inteira." Destaque-se ainda que o pano de fundo para a peça são fatos históricos conhecidos por qualquer espectador, como a ascensão de Hitler, a perseguição aos judeus e a explosão da bomba atômica. Sobre esses fatos o diretor vai apoiar as projeções que serão utilizadas no espetáculo.Se o programa nuclear pode servir para construir - os alemães exportaram essa tecnologia para o Brasil após o fim da guerra -, também serve para destruir, como ocorreu mais tarde me Hiroxima e Nagasaki. Daí a importância de difundir o conhecimento científico, algo que se tornaria uma obsessão para Bohr no fim de sua vida, a ponto de ter sido acusado de passar segredos militares aos soviéticos. "Bohr passou a acreditar que se todo mundo soubesse como fabricar a bomba, ninguém teria coragem de usá-la de verdade", argumenta Oswaldo.O cientista passou a defender a "democratização" do conhecimento científico, acreditando que se esse tipo de conhecimento chegasse ao domínio público, a sociedade poderia decidir sobre seu uso. Utopia? É da matéria dos sonhos que se faz arte e também ciência. Brecht já discutia a responsabilidade social do cientistas em Galileu."Quanto mais o pensamento fica afastado do dia-a-dia, mais a prática política também tende a se afastar da prática social; na realidade, a distância entre teoria e prática não existe", comenta Marcão. "Computadores, CDs, DVDs, nada disso existiria sem as descobertas da física quântica", lembra Palma. "Considero essa peça muito importante, porque ela aposta no conhecimento, leva a refletir sobre a conexão entre ciência e política e sobre a interferência individual nas grandes decisões."

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