Para além de Minas

Bem-sucedido projeto musical celebra 10 anos, expandindo as fronteiras

Lauro Lisboa Garcia / BELO HORIZONTE, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2010 | 00h00

 Um grande show no Palácio das Artes, anteontem, comemorou os 10 anos do bem-sucedido projeto Conexão Vivo, abrindo a intensa (e extensa) programação de duas semanas de shows na capital mineira. Foram justamente os nomes que deram início ao programa, em 2001- Titane, Vander Lee, Berimbrown, Marina Machado, Tianastácia, Maurício Tizumba e Patricia Ahmaral -, mais Alda Resende, que não estava presente na ocasião.

Idealizado inicialmente com o intuito de projetar artistas mineiros para fora do Estado, promovendo também a formação de público e a integração cultural, o projeto foi se expandindo e hoje congrega artistas independentes de todo o País, que só neste primeiro semestre vão percorrer 11 cidades, incluindo Salvador e Belém.

Em Belo Horizonte, os shows vão ocupar grandes áreas a céu aberto - como o Parque Municipal, a Praça da Liberdade e a Praça do Papa, com entrada franca - e ambientes fechados - o Teatro do Palácio das Artes, o Lapa Multishow e o Music Hall - com cobrança de ingressos simbólicos.

A programação tem nomes consagrados como convidados (incluindo João Donato, Elza Soares e Nivaldo Ornellas), mas a prioridade é a cena contemporânea, não só de Minas, mas de outras regiões: entre eles os baianos Tinganá, Lucas Santtana e a Orkestra Rumpilezz de Letieres Leite, a sergipana Patricia Polayne, o catarinense Wado, a banda cuiabana Macaco Bong, os cearenses do Cidadão Instigado e a carioca Nina Becker. São muitos mais. A programação completa está no site www.conexaovivo.com.br.

Com projetos como este e o Forum da Música, Belo Horizonte virou referência de como dar visibilidade à cena local. Não se tem notícia de outro semelhante em qualquer outra capital do País. O produtor cultural Kuru Lima é um dos nomes por trás desses dois projetos, sendo o Conexão o maior deles, com 906 shows realizados nesses 10 anos para um público estimado em 302 mil pessoas (o esperado para a programação de 2010 nas praças de BH é de 3 mil para cima a cada noite).

"Lá atrás a gente sentiu a necessidade de criar alguma coisa aqui no Estado, que conseguisse com que os artistas saíssem daquela mendicância de poder tocar música autoral", lembra Kuru. "No final dos anos 90 só tinha música cover em tudo que é lugar. Casa nenhuma aceitava. Os artistas tinham de fazer sets com 90% de sucessos dos outros, como Djavan, e tinham até medo de tocar música própria e alguém vaiar."

Além de resolver essa questão, os artistas queriam também ocupar palcos mais privilegiados, "não só os barzinhos ou casas noturnas com som precários". "A gente estava ali aprendendo a lidar com leis de incentivo e conseguimos aprovar um projeto coletivo, com gente de todos os estilos - desde o início já trabalhando com a diversidade."

Titane é apontada por ele como a cantora que tomou a atitude heroica de ser a cantora da nova geração mineira desde a década de 1980. E prossegue com o mesmo ideal, já que no novo trabalho reúne os expoentes dos anos 2000, como Makely Ka, Érika Machado e Kristoff Silva. É o que Titane vai apresentar nesta edição do Conexão com Arnaldo Antunes como convidado no dia 20 no Palácio das Artes, que, afinal, simboliza a grande conquista pelos novos.

A ideia central do projeto foi justamente essa: juntar um combo desses artistas mineiros se apresentando conjuntamente, com alguns convidados de fama nacional participando, "para dar um endosso". Além de conquistar o próprio público mineiro o objetivo levar esses artistas para fora do Estado, para que se soubesse que a música de Minas ia além do Skank, do Jota Quest e do Clube da Esquina.

No início, não havia patrocínio, só colaborações. Com a aprovação de determinados projetos individuais em leis de incentivo, passaram a compartilhar recursos para viajar com os shows. "Ao longo dos anos a gente foi avançando e constituindo uma rede de colaboradores de coletivos de festivais. Hoje o combo Fora do Eixo é um dos que fazem parte da rede Conexão Vivo, assim como o Coquetel Molotov, do Recife, e o Omelete Marginal, do Espírito Santo", diz Kuru.

O diferencial do projeto é essa organização de rede de trabalho, que até 2004 foi focado só em Minas. Hoje o portal - representante do que o Conexão vem fazendo na prática - conta com mais de 20 mil perfis de artistas brasileiros. Dos 120 selecionados para a edição de 2010 (que teve a curadoria de Alex Antunes, Chico Neves e Edson Natale), 70 são patrocinados, os outros 50 não têm cachê, mas contam com transporte, hospedagem, alimentação e boa infraestrutura de som e luz. "Ganhar dinheiro com música é uma consequência."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.