Para além da felicidade e das aparências da fantasia

O chileno Antonio Skármeta, 71 anos, mantém uma forte ligação com o Brasil - além dos livros aqui editados pela Record, o autor de O Baile da Vitória (que inspirou o filme A Dançarina e o Ladrão, em cartaz em São Paulo) já formou uma parceria musical com Toquinho. Ele será uma das atrações da Bienal Brasil do Livro e da Leitura, cuja primeira edição começa hoje, em Brasília. Homenageando o nigeriano Wole Soyinka (Nobel de Literatura de 1986) e o mineiro Ziraldo, o evento reunirá, até o dia 23, meia centena de autores de diferentes continentes para debater literatura e contemporaneidade.

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2012 | 03h08

Skármeta vai participar de um dos mais importantes ciclos do evento, a Jornada Literária da América Hispânica, que terá a coordenação do escritor e tradutor Eric Nepomuceno. Ao lado de nomes indispensáveis, como o argentino Juan Gelman, ele vai discutir a importância atual das letras latinas. Seu debate ocorre na terça-feira, quando também pretende ler, em português, o poema inédito Samba de los Muertos, que espera ver musicado. Sobre esses assuntos, leia os principais trechos da entrevista que Skármeta concedeu, por e-mail.

Como você analisa a literatura latino-americana neste início de século 21?

Nada faz pensar que haja uma tendência hegemônica nas letras ibero-americanas desde o boom como houve no Romantismo, no Naturalismo ou no Realismo Mágico. Os novos narradores escrevem desligados de um horizonte épico ou de uma adscrição unânime de algum tipo de fantasia. Pode-se dizer, no entanto, que eles sentem o impacto do Minimalismo, do Realismo Sujo, do romance policial, e não esqueçamos que as triunfantes lutas de reivindicação das mulheres não nos deram apenas presidentas, mas escritoras com grandes massas de leitores. É notável também a aberta manifestação de autores e autoras que escrevem sem inibição inspirados na sua homossexualidade. Escritores como Roberto Bolaño são forjados tanto na "literatura" como na realidade, e também em um fluido cosmopolitismo.

Jovens escritores latinos já nasceram em época democrática. Você acredita que a ditadura é um assunto que não lhes interessa?

Não conheço a maioria dos escritores das gerações seguintes à minha, mas não creio que eles esqueçam os traumas da ditadura. No cinema chileno e nos escritores de prosa ela está bastante presente. E o espaço que a ditadura ocupava agora é preenchido pelas histórias de narcotráfico, de desigualdade social, de reivindicação de gêneros, da corrupção dos indivíduos ou instituições. Romances como La Doble Vida, do chileno Arturo Fontaine, ou El Desierto, de Carlos Franz, são exemplos nítidos do trabalho minucioso sobre a ditadura e seus efeitos.

Por falar em jovens autores latinos, quem tem despertado mais sua atenção? Por quê?

São muitos e excelentes, mas aqueles dos quais li mais de uma obra e com entusiasmo são os mexicanos Juan Villoro e os argentinos Rodrigo Fresán e Andrés Neumann. Os três têm uma maneira soberba de se instalar em seus temas, fundem temas do passado com o presente fluidamente, são mestres da ironia, têm conhecimentos espantosos de cultura musical, rock ou clássica, que sabem integrar em sua prosa, estão a par do que se escreve em outras línguas, são tão dramaturgos como poetas ou ensaístas. Eles desbordam comodamente o gênero narrativo.

Autores como Gabriel García Márquez deixaram de ser referência para os novos? Qual a importância hoje do Realismo Mágico?

Não estou tão seguro de que o Realismo Mágico tenha sido deslocado por completo e que García Márquez seja o único guru dessa avassaladora e feliz escola. Embora pareça estranho dizê-lo, há traços dela em Alejo Carpentier, Jorge Amado, Julio Cortázar, Borges, e em qualquer escritor crescido nestas terras que proclame a felicidade da fantasia. Os mais jovens, embora não o pratiquem, ficaram para sempre, graças a ele, desembaraçados das apreensões miméticas. A obra se consolida como um corpus autônomo. E sem falar do que significou para a América Latina a expansão pelo mundo de suas obras. Elas instalaram no planeta o imaginário de um continente e abriram um caminho empolgante para os autores mais jovens. Alguns parricidas não se dão conta de quanto do pai há neles.

Como um autor (e também um leitor) em língua espanhola, você ainda acredita que a literatura brasileira está distante de seus pares latinos? A língua continua uma barreira para a maior integração?

Não conheço muitos leitores que sigam com regularidade a literatura do Brasil, mas também preciso dizer que tampouco conheço muitos leitores que sigam com regularidade a literatura hispano-americana. Os escritores latino-americanos que circulam por alguns de nossos países chegam publicados da Espanha, país que tem um ímpeto editorial gigantesco. Os que não têm a sorte de ser publicados lá, estão praticamente limitados ao estreito mercado de seus países de origem. Conheço a literatura brasileira porque toda vez que venho ao Brasil levo livros que compro ou que me dão. E, no tempo em que fazia meu programa de televisão O Show dos Livros, fizemos dois especiais dedicados ao Brasil: um na Bahia e outro no Rio. Algum dia gostaria de mostrá-los lá.

Um dos aspectos principais de O Baile da Vitória, livro que inspirou o filme A Dançarina e o Ladrão, é sobre recomeçar a vida quando todas as portas parecem estar fechadas?

Quando todas as portas estão fechadas, os perdedores têm ao menos a sabedoria dos que foram profundamente feridos e que lhes permite reconhecer e sentir a dor e vulnerabilidade dos outros. Isso explica que saibam dar a ternura e amizade que jamais receberam. Os dois homens de meu romance O Baile da Vitória e do filme A Dançarina e o Ladrão saem do cárcere com ânimo de vingança ou de capitulação até que encontram Vitória, uma dançarina infinitamente mais ferida que eles, que desperta nos dois homens a ânsia de protegê-la, ajudá-la, arriscar-se por ela. E mudam seu projeto inicial de vingança da sociedade, por um ato de generosidade. É certo que essa força dos fracos - nada heroica nem enfática - eu aprendi na vida dos chilenos e chilenas mais feridos durante a ditadura de Pinochet e nas marcas que essa ditadura deixou na nova democracia. E a essa sabedoria é preciso agregar outra: a do humor e da autoironia, dois instrumentos da sobrevivência.

O filme não fala apenas da dificuldade de dois indivíduos em se reerguerem, mas do desafio de toda uma nação para começar a dar os primeiros voos após uma longa ditadura.

Tanto o filme como o romance lançam um olhar cálido naquelas pessoas que foram vítimas da ditadura e que a partir dessa experiência precisam readequar-se à nova democracia. As sociedades são dinâmicas, olham mais para o futuro e o progresso do que para as dores do passado. As sociedades também arrastam com elas as pessoas que não conseguem se curar das feridas. Talvez seja bom que seja assim e que os políticos e empresários conduzam energicamente os países para metas superiores. Mas nós artistas não compartilhamos 100% esse critério pragmático: ficamos perto das pessoas mais vulneráveis, não pensamos que o esquecimento seja útil. A democracia não é um bálsamo que cura de um dia para outro todas as feridas.

Há alguma semelhança entre Angel, personagem de Abel Ayala, e o de Massimo Troisi, que brilhou em O Carteiro e o Poeta?

O carteiro Mário é um jovem simples que tem a sorte de crescer em um país que tem um belo projeto - o do socialismo democrático de Salvador Allende - e a dupla sorte de ser o carteiro de um grande poeta como Neruda, de quem aprende a potência e a alegria da linguagem criativa. Justamente porque tanto o carteiro Mário como o belo projeto do país são brutalmente destruídos com o golpe militar, é que surge em O Baile da Vitória um rapaz como Angel Santiago, personagem interpretado por Abel Ayala, que cresce nas sombras e não na brilhante luminosidade da casa de Neruda de frente para o Oceano Pacífico. Seria possível simplificar dizendo que Mário, o carteiro, é um ser de luz, e Angel Santiago justamente isto: um anjo de sombra. Talvez O Baile da Vitória - que tem tanto humor como tragédia - seja a história de um anjo de sombra que cumpre seu destino na medida em que dá luz aos demais. Uma vez cumprida sua missão, é quase natural que o anjo volte ao lugar onde os anjos vivem. Look homeward, angel, não é?

A escrita latina é muito sensorial, crua, com cheiros e cores. Seria um estilo próprio dessa literatura?

As desvantagens de viver na América Latina são muitas, e talvez a maior de todas é que ela é imprevisível. São tantas as pulsações secretas embaixo das aparências! A América Latina tem a arrebatadora energia do que recusa a se consolidar, o talento de mesclar, de adaptar o de fora de forma tão original que, ao transformá-lo, acaba se apropriando dele. E essa energia é um terreno muito fértil para a criação literária.

CHILE EM ALTA

Da safra de autores chilenos de destaque, a Cosac Naify acaba de mandar para as livrarias A Contadora de Filmes, de Hernán Rivera Letelier (1950). O livro será levado às telas por Walter Salles - autor do texto de orelha do volume. Aproveitando a vinda à Flip (4 a 8/7) do também chileno Alejandro Zambra (1975), uma das revelações de sua geração, a Cosac publicará em junho o elogiado Bonsai.

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