'Papo reto' marca EP de Kamau

"Ideias jorram, escorrem pela caneta que serve de canaleta e vem bem a calhar. Se o papel é terra fértil, adubando dá. Se fizer do jeito certo, logo vai vingar." É assim que o rapper Kamau começa a narrar seu novo EP, primeiro lançamento oficial desde Non Ducor Duco, estreia solo de 2008. Após um longo caminho pelo cenário do rap com os grupos Consequência e Simples, o MC chega aos 36 anos com o desejo de criar rimas duradouras que contem histórias verdadeiras.

Stefanie Gaspar, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2012 | 03h09

Pouco depois do lançamento de Non Ducor Duco, Kamau começou a trabalhar com afinco no EP. "Fazer música de maneira independente é exaustivo. Precisamos planejar bem, conciliar agendas", conta ele, que já prepara esquema de distribuição para abrir as atividades do trabalho.

O EP, que será lançado no primeiro semestre, foi batizado de Entre - simbolizando esta fase de passagem entre um disco e outro, entre uma fase de vida passada e outra ainda por vir. "Todo artista passa pela crise do segundo disco, que precisa ser melhor que o primeiro e ao mesmo tempo não repetir nenhuma fórmula. Daí bate a crise. Além disso, não sou mais moleque: tenho 15 anos de carreira e a obrigação de saber para onde vou."

Em sua casa na zona norte de São Paulo, Kamau recontou sua trajetória mostrando todas as canções do EP. Entre os destaques estão a melancolia de Lágrimas do Palhaço (com Tulipa Ruiz); o intimismo autobiográfico de Entre (com vocais de Di Ferreiro, do NX Zero); a poesia do convidado Emerson Alcade em (Interna)Mente, Acorde e (Eterna)Mente; e a força de 21:12, primeira parceria com o produtor e beatmaker Renan Samam.

Em 12 faixas, o EP evita fórmulas. Em Música de Trabalho, Kamau fala sobre a dificuldade de viver de música no Brasil. "Na faixa, eu falo: 'Não pago conta com respeito e consideração, não peço mais do que respeito e remuneração'. É difícil ter que lutar todo dia pra vender CD, marcar show, tudo sem gravadora, e nesse mesmo contexto ter gente me cobrando por single. A minha lógica não é mercantil - não faço música de trabalho, não faço single. Não me acrescenta."

Em Eu Quero Mais, retoma questões mais políticas ao se dirigir a um tema que o incomoda - o politicamente correto tomando conta de discussões mais amplas. "Na música falo que quero mais que feriado e cota na faculdade. Em 2009, participei de uma reunião do Dia da Consciência Negra, e vi gente brigando para ser chamado de 'afro-brasileiro'. Como se a mudança de termo fosse uma conquista", desabafa. Com batidas fortes e declarações contundentes sobre a música, o Brasil e o rap, o EP também traz abordagens mais emocionais, como a narrativa contada em Lágrimas do Palhaço.

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