Papel de Marguerite Duras

Nuit et Brouillard foi exibido em São Paulo durante o Festival "Historia do Cinema Francês" organizado pela Cinemateca no quadro da ultima Bienal. Essa quinta fita de Alain Resnais é, como todas as outras, com exceção de Hiroshima mon amour, uma curta-metragem. O comentario falado teve, em Nuit et Brouillard, um papel tão grande que a seu proposito um critico francês, Armand Cauliez, optou definitivamente pela não inclusão do cinema entre as artes visuais. Resnais encomendou o texto dessa evocação dos campos hitleristas de extermínio ao poeta Jean Cayrol, antigo deportado em Mathausen e autor dos "Poèmes de la nuit et du brouillard". Embora de alta qualidade, as palavras de Cayrol cingem-se estritamente ao comentario das imagens. Nota-se mais exaltação e liberdade artistica nos registros documentais da fotografia do que no texto que as acompanha. Esse pudor verbal parece o resultado de um calculo sabio, pois assegura maior enfase á terrivel eloquencia das imagens. O papel da musica como cimento entre o conteudo visual e as palavras é muito importante em Nuit et Brouillard, mas não é facil configurá-la em uma audição apenas.

P.E. Sales Gomes,

25 de fevereiro de 2011 | 21h54

A pelicula seguinte de Alain Resnais que conheço é Le Chant du Styrène, onde ainda é mais evidente o papel criador do texto literario. Sua função inicial é dar sentido logico ao encanto puramente abstrato de imagens filmadas numa industria de plasticos. O comentario descritivo de Raymond Queneau, é, porém, vazado em versos alexandrinos:

Le styrène n'était qu'un liquide incolore

Quelque peu explosif, et non pas inodore.

Et regardez le bien; e'est la seule occasion

Pour vous d'apercevoir ce qui est en question.

Le styrène est produit en grande quantité

A partir de l'éthyl-benzene surchauffé.

Le styrène autrefois s'extrayait du benjoin.

Provenant du styrax, arbuste indonésien.

Os setenta e oito versos de Le chant du Styrène, admiravelmente recitados pela voz de Pierre Dux, explicam bastante bem o sentido das belas formas coloridas e em cinemascope, que se sucedem na tela, mas a sua função não se limita a isso. O filme adquire o embalo do ritmo alexandrino e fica impregnado de saboroso humor. Alain Resnais costuma recusar modestamente o qualificativo de autor cinematografico. Um de seus argumentos é que a totalidade de suas realizações foram suscitadas por encomendas. Pelo visto jamais ocorreu que Resnais tomasse a iniciativa de ir procurar um produtor com uma determinada idéia. Entretanto, as condições em que "aceita encomendas" são tais que lhe permitem exercer o seu poder criador sem embaraços. Recebe ele diversas solicitações para filmar, o que lhe faculta uma ampla margem de escolha e atenua bastante o conceito de encomenda. Além disso, os produtores que o contratam sabem de antemão que ele exige absoluta liberdade de ação. A unica coisa que Resnais prometeu aos financiadores de Hiroshima Mon Amour foi realizar um filme ligado, de um modo ou de outro, ao horror da guerra atomica.

Outro argumento de Resnais, mais ponderavel que o outro para recusar a denominação de autor, é o que se refere ao papel saliente desempenhado pelos seus colaboradores literarios na concepção e feitura das fitas. O exame de alguns aspectos de Hiroshima Mon Amour nos dará ensejo de verificar até que ponto são fundados os seus escrupulos.

Na realidade, após ter aceito a encomenda para realizar um filme a respeito das atrocidades da bomba atomica, Alain Resnais teve momentos de grande perplexidade. O projeto que ideou aproximava-se demais, como concepção, de Nuit et Brouillard, e não o entusiasmava muito voltar a um terreno de criação já percorrido. O encontro com a escritora Marguerite Duras, a quem Resnais confiara as suas duvidas, foi decisivo. Hiroshima Mon Amour nasceu e foi delineado durante a longa conversa que mantiveram sobre a possibilidade de uma obra em que os personagens participariam da tragedia apenas através da memoria, e não diretamente. A construção final de Hiroshima Mon Amour lembra curiosamente a sua gênese. Tudo na pelicula brota de um dialogo de amantes e a linha dramatica se desenvolve através do pontilhar de recordações. A personagem principal da fita, interpretada por Emmanuelle Riva, vive numa profunda desordem interior. A fita tem por vezes algo de uma sessão de psicanalise em que o divã foi francamente transformado em leito e o medico em amante.

Depois de imaginarem juntos a natureza do filme e o seu cerne dramatico, Alain Resnais indicou a Marguerite Duras a necessidade de evitar a descrição do horror através do proprio horror, pois nessa direção já se haviam lançado os cineastas japoneses até as ultimas consequencias. Era preciso provocar o renascimento do horror, por assim dizer, de suas proprias cinzas, das raizes do esquecimento e das tentativas irrisorias para fixar a lembrança do cataclismo que se abateu sobre Hiroshima.

Ao encarregar Marguerite Duras de escrever o roteiro e os dialogos da obra que haviam concebido. Resnais recomendou-lhe sobretudo que não pensasse em cinema, que não se preocupasse com as possibilidades ou as limitações da camara, mas que simplesmente fizesse a literatura que lhe aprouvesse. Numa fase posterior da colaboração, Resnais pediu á escritora que acrescentasse, ao que já fizera, outro roteiro, que definiu como subterraneo. Tratava-se, em suma, de um texto destinado a completar, de maneira bastante pormenorizada, as informações acerca dos protagonistas da obra. O roteiro subterraneo contava a historia do heroi e da heroina praticamente desde o nascimento, fornecida muitos elementos novos a respeito do periodo coberto pelo filme, e, terminando este, continua a narrar o que sucedeu em seguida aos personagens.

Nesses diversos exercicios, Resnais concedia sempre a mais completa autonomia artistica á sua colaboradora, mas ele proprio tudo calculara com justeza. Só no fim do trabalho Marguerite Duras compreendeu que o cineasta estivera provocando-a desde o inicio, e que ela sempre respondera na forma por ele desejada.

O enredo de Hiroshima Mon Amour pode-se resumir em três linhas ou prolongar numa historia sem fim. Uma atriz vinda de Paris para trabalhar numa fita em Hiroshima, tem uma aventura amorosa e revive, através do amante japonês, a tragica experiencia que fizera durante a ocupação em Nevers, na França, com um amante alemão.

O papel dos dialogos e monologos em Hiroshima Mon Amour fazem pensar tanto em Nuit et Brouillard como em Le Chant du Styrene. As palavras de Marguerite Duras emanam das imagens de Resnais e ao mesmo tempo contribuem para explicitá-las.

A leitura do texto de Hiroshima Mon Amour suscita em quem viu o filme um grande prazer artistico. A construção da fita, em que a musica tem uma vez mais função eminente, é tão solida que os fragmentos literarios de Marguerite Duras não adquirem autonomia. Duas linhas de dialogos são suficientes como um "abre-te Sésamo" para o mundo aspero e amoroso de Alain Resnais.

Há um misterio na estrutura das peliculas de Resnais. Talvez possamos esclarecê-lo um pouco, um dia, pela descrição intima de Hiroshima Mon Amour.

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