Paparazzi, o inimigo número um dos famosos

Cena típica daqueles fins de festa de casamento. Toda descabelada, maquiagem escorrida, o efeito das (várias) taças de champanhe estampado no rosto e, para coroar a cena, quilinhos a mais saltando para fora do decote. Assim, meio torpe, a noiva recebe do noivo um daqueles beijos melados, misturados com o bolo de casamento. Um clique furtivo e pronto: o mundo inteiro vê tal cena estampada nos jornais."Eu não queria ser fotografada assim! Isso é ofensivo!", esbravejou a atriz Catherine Zeta-Jones. Segunda-feira passada, a estrela de Hollywood e seu marido, o astro Michael Douglas, deram um pulo a Londres para depor no processo que o casal abriu contra a Hello!, uma revista inglesa especializada em celebridades.Os vilões são os de sempre: os "paparazzi", fotógrafos assim chamados graças a um neologismo criado a partir do filme A Doce Vida, de Federico Fellini. O personagem é uma alusão ao famoso fotógrafo romano Paparazzo e é descrito como um abutre, com sua lente na mão, sempre correndo atrás de pessoas famosas.Esses paparazzi... Como celebridades, volta e meia roubam a cena. Já levaram processos de Madonna e Arnold Schwarzenegger, foram alvos de chicletes atirados por Britney Spears e até foram responsabilizados por terem provocado a morte de Lady Di, em 97."Ai, essa Lady Di...", suspira Ana Célia Aschenbach, diretora de redação da revista Contigo!. "Apesar de nada ter sido provado contra os paparazzi nesse caso, ficou esse estigma... Os paparazzi brasileiros têm critérios mais humanos", diz a jornalista. "Já deixamos de dar grandes furos. Certa vez, por exemplo, uma celebridade tentou o suicídio, tínhamos a informação, mas a ética não nos deixou publicar esse caso."Fofoca com foto vira verdade Fora as grandes desgraças pessoais, às celebridades brasileiras só resta relaxar e aproveitar. Nada escapa às lentes dos paparazzi: da "pulada de cerca" de Giovanna Antonelli no ano passado, na época casada, que se envolveu com seu par romântico de O Clone, Murilo Benício ("Enviamos um fotógrafo aos Estados Unidos para ficar na cola deles", diz Ana Célia), ao flagra de Flávia Alessandra de biquíni na praia."Não é fofoca. Fofoca é quando se especula e não se prova. Com o paparazzi, não. A imagem prova o fato. Aí, é realidade", diz Ana Célia. "Tanto é um trabalho jornalístico que, nos quase três anos que estou aqui, não houve nenhum processo. O máximo que acontece é algum assessor de imprensa ligar reclamando porque o artista saiu feio na foto", ela completa.Mesmo fotografadas a distância, com o rosto desfocado e despidas de glamour, as celebridades clicadas no estilo "a vida como ela é" fazem as publicações venderem como água, na marca dos milhões. "O público é curioso, gosta de ver que a pessoa que está na televisão, fazendo sucesso, também se separa, fica gordo, se dá mal ou se apaixona", especula Luiz Paulino, 47 anos, o Luizinho Coruja, um dos mais antigos paparazzi do Brasil, atuando desde 1978."A foto não é esteticamente bonita, mas vale pela informação, pelo furo. Meu barato é fazer um trabalho exclusivo, que ninguém deu", diz o fotógrafo. A colega Maria ("Não vou revelar meu nome completo nem mostrar minha cara, senão perco meu elemento surpresa"), paparazzi há 13 anos, completa: "Adoro as perseguições, o trabalho de detetive. Me sinto como uma Sherlock Holmes."Já João Raposo, 38, pondera: "Parti para trabalhos em estúdio. Um paparazzi vale pouco aqui". Especula-se que, enquanto no exterior um tablóide pode desembolsar US$ 100 mil por um belo flagrante de uma personalidade do naipe de Madonna, aqui no Brasil o valor não chega a R$ 500."E como a gente paga mico...", diz Celina Guermer, 40, fotógrafa há 10 anos. "Tem de combinar a discrição mineira, o pique do paulistano e a paciência chinesa", diz João Santos, 40 anos, paparazzi há 10.Para roubar uma cena que valha a pena, muitas vezes os fotógrafos amargam horas, às vezes dias, esperando (na moita, é claro) e até lançam mão de disfarces. "Quando ficam meia hora dentro de um carro, aparece a polícia e eles se transformam em suspeitos de roubo ou seqüestro", diz Edgardo Martolio, diretor superintendente da Caras.Diante de tantos percalços, fica complicado sentir algum tipo de piedade em relação à celebridade-vítima. "Não tem essa. Intimidade para mim é dentro de casa, no quarto. Na rua, é público", diz Celina."Quem quer fazer sucesso sabe que a privacidade vai para a cucuia", acredita Santos. E ele ironiza: "Malu Mader nos chamou de ratos e eu digo que ela é bonitinha, por isso, precisa ser fotografada."

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