Paparazzi de nós mesmos

Já contou quantas vezes desejou voltar ao passado em sonos perdidos, bebedeiras, ou sonos perdidos por causa de bebedeiras?

Marcelo Rubens Paiva,

09 de março de 2013 | 10h10

Para rever parentes, revisitar locais hoje degradados, sentir o fedor de antigamente, saudades que se confundem com vontade de reescrever a própria história, repensar em decisões, arrependimentos, chance de vislumbrar como teria sido se aquilo ou aquele não descarrilasse, dar mais importância a coisas que, por causa da imaturidade e inexperiência, passaram batidas, e, quem sabe, refazer histórias de amor que foram interrompidas porque não mandou aquela carta, falou o que deveria ter guardado, se calou, telefonou na hora errada, não insistiu quando desconfiavam da sua incerteza, passou do limite, duvidou de quem era inocente, ouviu a razão, não o coração, ou o contrário, fingiu não ver, ignorou sinais, não entendeu códigos, mensagens, não acompanhou mudanças, alternâncias, não compactuou, não emprestou o ombro, não parou para ouvir, não enxugou lágrimas, oscilou, se omitiu, não assumiu, admitiu nem reprimiu, abraçou, nem escondeu direito, presunçoso, pretensioso, precavido, não viu o que estava desfocado.

Você voltaria mesmo ao passado?

Não tinham inventado Twitter, Face, Instagram. Redes sociais eram redes compartilhadas em barcos que subiam o São Francisco e o Amazonas. Esquece celular, GPS, código de barras, Google, ímã de geladeira, post-it. Postar era enviar um cartão-postal com garranchos, resumido em dois parágrafos à caneta a viagem para um amigo.

Seria bom rever cachos nas garotas, rugas nas coroas, acampar em praias desertas e despoluídas, receber delivery na cozinha, não precisar descer para pegar uma pizza. Mas como fotografar e postar a sobremesa, marcar um evento com a rapaziada das antigas, conferir como a ex engordou, e seu novo namorado não tem nada a ver com você, protestar contra o presidente do Senado, a hidroelétrica, o massacre de índios, checar a grafia correta da capital da Coreia do Norte e do seu líder supremo?

Se hoje somos paparazzi de nós mesmos, como lidaríamos com a vida sem exibição do nosso melhor perfil, panorama das nossas férias, e narraríamos nossas preferências e indignações não para um, mas para milhares?

Imagino que um sujeito de hoje se sentiria preso no anonimato de ontem. E aflição pelo silêncio da sua voz, invisibilidade das suas imagens e do registro da rotina. Sofreria por voltar à banalidade, ao comum.

Até aos poucos voltar à paz da vida privada, depois de colocar a Barsa herdada na ordem alfabética, ao lado do Guia de Ruas e Almanaque Abril comprados na banca. Poderia então relaxar, escrever cartas, mandar um romântico telegrama fonado pelo 135, marcar a hora de acordar pelo serviço de despertador automático 134. Sem nenhuma pressa, tiraria a poeira grudada no diamante da agulha do toca-discos e abriria um bom livro, que cheiraria mofo e memória.

***

Voltar ao passado foi o plot de dois filmes, De Volta para o Futuro (1985) e Peggy Sue – Seu Passado a Espera (1986), de dois cineastas da mesma turma, Spielberg (como produtor) e Coppola, que abriram as gavetas da reprimida nostalgia e revisitaram tempos de escola, para dar uma pausa no pessimismo da Era Reagan, cuja doutrina, “a paz através da força”, alimentou tensões na Guerra Fria, e na expansão e intolerância do fundamentalismo religioso, desordem ambiental, avanço da cocaína e, por fim, surgimento da aids como punição a uma geração acusada de “desvairada”.

Eles homenagearam, entre outras coisas, o próprio cinema, já que as salas se transformavam em pulgueiros para o exercício do onanismo, culpa do novo satã, a televisão, retratada como o primeiro degrau do inferno em Poltergeist – O Fenômeno, também produzido por Spielberg, e Videodrome, de Cronenberg.

Peggy Sue (Kathleen Turner), de 43 anos, recém-separada, desmaia durante a festinha de 1985 de confraternização da escola. Acorda em 1960, quando começava a namorar o futuro marido Charlie Bodell (Nicolas Cage). De mão beijada, a oportunidade de remover o calo que sempre atrapalhou a relação: a frustração dele por não ter virado estrela do rock.

Peggy mata as saudades dos avós, transa com o poeta beat da escola, sugere a um nerd o investimento em roupas de ginástica e convence o namorado a desistir do estilo musical – quarteto vocal de soul –, cuja invasão inglesa iminente iria golpear.

Em De Volta para o Futuro, que não sei por que não se chama De Volta ao Presente, ou Volta ao Passado, você se lembra: Marty McFly (Michael J. Fox), skatista que, em 1985, é amigo de Dr. Brown, cientista maluco, volta ao passado numa máquina do tempo, um DMC-12 fabricado na Irlanda do Norte pela DeLorean Motor Company e que ficou famoso por causa do filme. Reencontra a mãe, Lorraine, em 1955, às vésperas do baile em que ela beijou a vítima de bullying, George, o pai.

O problema é que, num dilema freudiano, o filho passa a ser objeto de desejo da mãe, que o chama de Calvin por causa da marca Calvin Klein bordada na sua cueca – num tempo em que as pessoas bordavam o nome nas roupas, ou melhor, as avós das pessoas –, considerado o merchandising mais bem bolado da época.

Algumas piadas ficaram eternizadas. Como quando Marty pede uma Pepsi Diet, e o balconista diz que não é médico, então corrige e pede uma Pepsi Free. “Você quer beber um refrigerante e não pagar?”. Ou quando diz vir do tempo em que Ronald Reagan é presidente. “Jerry Lewis é o vice?”, escuta.

McFly inventa o skate e o rock. Ele e Peggy Sue voltaram ao passado acidentalmente. Aproveitaram para mexer pauzinhos e corrigir deslizes amorosos que repercutiriam no futuro (presente). Tentaram reascender a chama do amor que apagava.

Para os dois, ele não acaba por si. Acabamos com ele, induzidos por elementos que contaminam a sua pureza. O marido de Peggy pôde viver sem o trauma de ter o sonho juvenil frustrado. O pai de McFly deixou de ser um “looser” por ter reagido ao bullying no passado. E sua mãe continuou magra. Não encontrou no copo de uísque o ouvido que faltara.

***

Rolou uma controvérsia sobre a data do futuro que Dr. Brown visitou no final do filme, que sugere o nome De Volta para o Futuro. Ele viaja para 21 de outubro de 2015 e volta. Ao invés do plutônio, o combustível do DeLorean passou a ser lixo orgânico. Aparece daqui a dois anos. Atravessará a barreira do tempo graças ao, quem diria, biocombustível. Vai bombar no Twitter.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.