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Laura Greenhalgh
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Papai quebra-tudo

"Aí, não!" Certamente muitos de nós teríamos gritado algo parecido, ao ver o manifestante passando cola no retrato do filho, para em seguida grudá-lo na tela The Hay Wain, uma das obras-primas da National Gallery, finalizada em 1821 pelo pintor inglês John Constable. Aconteceu dias atrás. Paul Manning, um cinquentão divorciado, colou a foto do filho de 11 anos na bucólica paisagem, adicionando a palavra "help". Fez com toda calma, como se estivesse grudando o ímã da Sharon Stone na geladeira de casa. Os visitantes do museu londrino chamaram os seguranças, que acionaram a polícia e Manning foi para a delegacia. É um dos ativistas da Fathers4Justice, organização que se gaba de fazer tanto barulho na Grã-Bretanha quanto o Greenpeace e a Anistia Internacional pelo mundo. Horas antes do protesto de Manning, seu companheiro de lutas Tim Haries estava num tribunal respondendo à acusação de pichar o novo retrato de Elizabeth II, feito para os 60 anos da coroação. Haries sapecou "help" em grossos jatos de tinta, bem no centro do quadro.

LAURA GREENHALGH, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2013 | 02h08

A Father4Justice, ou F4J, é uma organização que tinha tudo para atrair a simpatia do público. No entanto, provoca aquele tipo de reação "afinal, por que esses caras não vão pentear macacos?". Surgiu em 2002 ao fim de uma separação litigiosa, quando o consultor de marketing Matt O'Connor não só teve negada a guarda dos filhos, como a Justiça determinou visitas em horários previamente firmados, numa instituição pública, na presença de assistentes sociais. O'Connor então resolveu montar uma entidade só de pais, male-oriented, para não dizer machista, a fim de cobrar direitos iguais em processos de separação. São de sua lavra pepitas como "pais têm menos direitos do que terroristas". Ou: "Você só não pode odiar mais sua ex-mulher do que amar seu filho".

A FJ4 se define como uma guerrilha. Seus ativistas se fantasiam de super-heróis - Batman, Homem-Aranha, entre outros - para se exibir nos telhados de Buckingham ou nos paredões do Parlamento. Já lançaram bombas de farinha contra ministros, como tentaram invadir sessões de lordes e comuns. Um intrépido David Chick se pendurou numa grua altíssima ao lado da Tower Bridge, provocando pânico e caos no trânsito. Não contente, escalou e parou a London Eye, outro símbolo turístico da cidade. Em 2006, o bando se dispersou após o vazamento de um plano ousado: o sequestro de Leo, filho do primeiro-ministro trabalhista Tony Blair. Hoje infernizam o conservador David Cameron, que se referiu a eles como "pais ineptos", em defesa das "heroicas mães solteiras e descasadas". O'Connor entrou em greve de fome. Ok, já voltou a comer, mas porque Cameron adotou um tom conciliador.

Trata-se de um caso curioso no mundo do ativismo. A F4J não se conecta a organizações similares. Ao contrário. Declarou guerra às criadoras do portal MumsNet - que aborda problemas da família como um todo -, dizendo que elas instilam o ódio de gênero na sociedade e não passam de um bando de mulheres sexualmente pervertidas. Uau! DadsOnly, outro grupo de homens, quando ousou criticar as táticas dos "bullying boys" do F4J, levou como troco um tuíte de O'Connor: "Eunucos como vocês fazem a Inglaterra sem-pais". A retórica costuma ser da cintura para baixo.

O Reino Unido hoje discute a reforma da sua lei de família em meio ao corte de orçamento para a área social, o que afeta educação, saúde e a própria agência de suporte à criança. Em pesquisa recente, mais de 60% dos ingleses pediram que o governo estabeleça um mínimo obrigatório para a manutenção dos menores. O quadro geral da economia preocupa, existem mais famílias mononucleares, cresce a pressão sobre pais e mães que não cumprem suas obrigações e o debate sobre o casamento gay tem sido intenso. Nesse contexto, o Cafcass, órgão independente, realiza missão importante ao assessorar os tribunais em processos de família. Acompanha cerca de 145 mil casos por ano, entre pedidos de tutela, adoção ou pensões, levando a ajuda de especialistas aos casais. Pois não é que o F4J já foi protestar na sede do Cafcass?

O direito de manifestação, como se sabe, é levado a sério no reino. Então, Papai Batman, Homem-Aranha ou um bizarro Capitão Concepção fazem barulho, levam pitos na chefatura, mas voltam à cena. A organização veicula propagandas de homens lacrimosos, que reclamam maior contato com os filhos, sem explicar por que o perderam, afinal. Espalham slogans do tipo "queremos ter os mesmos direitos dos maridos das nossas ex-mulheres". E já são imitados - existe F4J no Canadá, na Austrália, na África do Sul... Não se sabe se têm apoio de alguma seita ou grupo religioso. Se tiverem, é segredo bem guardado.

Agora a Fathers4Justice avisa que vai atacar "semanalmente" obras de arte, em prol do "equal parenting", seja lá o que entendem por direitos iguais na família. Algo me diz que buscam o show e vão levar cadeia. De qualquer modo, oremos pelos Constables, Turners, Moores e Rothkos dos museus públicos ingleses. E que se reforce a segurança da National Gallery. Hoje ela abriga uma magnífica exposição de Vermeer. Não, não vamos nem pensar...

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