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Papai Noel virtual

Em site interativo, o bom velhinho responde a perguntas como se estivesse in loco

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2020 | 03h00

Deu trabalho explicar para meus filhos o anúncio de um shopping veiculado em toda parte. Papai Noel estava diante de um notebook, rodeado de pacotes, sorridente, solícito, solidário, como sempre, porém solitário, sem renas nem duendes. 

É, ele não aparecerá pela chaminé. Se bem que não iria mesmo, já que ninguém na redondeza tem uma. Vai contratar uma empresa de logística.

Papai Noel usa luvas, mas não virá nem de máscara. Nem estará nos shoppings oferecendo colo e carinho, anotando pedidos. É do grupo de risco. Podemos enviar cartas, e ele mandará presentes em pacotes de papelão, como os que chegam aos montes diariamente no condomínio. 

O bichinho do vírus ainda está por aí. Como no Halloween, cancelado, temos que nos adaptar. 

Talvez ele apareça numa videoconferência única em todos os aplicativos, a live global via Zoom, Skype, YouTube, Face, Insta, WhatsApp, Google Meet, Houseparty, Cisco Webex, Apple Face Time, antecedida por um show de Elvis e Beatles holográficos, Rolling Stones, Beyonce, Billie Eilish cantando juntos All We Need Is Love.

O velhinho barbudo conseguirá falar com todas as crianças usuárias? Claro que empresas de alta tecnologia não iam deixar passar batido. Já bolaram um site interativo em que Papai Noel responde a perguntas como se estivesse in loco. 

Apoiado por um algoritmo, ele, virtual, com inteligência artificial debaixo dos caracóis dos seus cabelos brancos, o site AskSanta trará muitas respostas na ponta da língua, como um robô, a perguntas usuais. 

Como falar com o Papai Noel pelo AskSanta? Primeiro, precisa de uma conexão, uma tela e um adulto ao lado. Para se cadastrar e criar uma conta, tem de ter mais de 18 anos. Tem que clicar e segurar o frame do vídeo para fazer perguntas. Tem que falar pausadamente. Santa está no Polo Norte. É Santa. Mas o delay existe até para ele. 

Pode-se digitar uma pergunta e escutá-lo. Pelo ícone do envelope, Papai Noel lerá sua carta. Se clicar sobre as renas, ouvirá histórias delas. No ícone Polo Norte, tudo sobre onde ele e Mamãe Noel vivem.

A molecada que está há meses em conexões e aulas online pode até achar natural papear com o velhinho pelas quatro telas.

StoryFile, empresa que cede a tecnologia do AskSanta, nasceu de um aplicativo Black Mirror: conta histórias para pessoas solitárias através do celular. É a versão tech do Mito da Caverna, de Platão. Se o usuário quer saber como foi a rotina de um prisioneiro de guerra do Vietnã, aparecerá um previamente filmado para contar e papear através de inteligência artificial.

Podemos perguntar a um astronauta como é estar no espaço, ao jogador de basquete do Golden State Warriors, Stephen Curry, considerado o melhor arremessador de todos os tempos, como fazer uma cesta de três pontos. 

E mais: vovós deixarão receitas gravadas, e uma netinha anos depois poderá consultá-las, “conversando” com ela virtualmente. Minha família adoraria, já que ninguém acerta a torta de cebola que minha avó Olga fazia, receita da Emília Romana que morreu com ela. Todos os anos, no encontro familiar, as tias trazem uma, e eu julgo. Tia Tory foi a que chegou mais perto.

Crianças poderão tirar dúvidas com ganhadores do Prêmio Nobel, empreendedores, papear com um titã da indústria. Um filho poderá falar com um pai que morreu, com perguntas previamente respondidas. 

Maluquice? Tem mais. Logo, logo, em hologramas dentro da sala, Bill Gates poderá configurar seu PC, e Steve Jobs, seu Mac, um parente falecido, dizer o que não podia ou não tinha coragem em vida. Viramos eternos, imortais.

Coisa de ficção científica. A invenção da máquina do tempo. A interação eterna entre bilhões de seres (vivos e mortos), mortais e semideuses, fãs e ídolos, admiradores e heróis, como um álbum de família falado e projetado, e que responde a perguntas, conta “causos”: todo conhecimento absorvido pela mídia digital, hospedado em nuvens.

A equipe do StoryFile unifica o secular hábito do papo na caverna, oralidade, pinturas rupestres, ou ao redor de fogueiras, à tecnologia. Há oito anos, desenvolve uma forma de narrativa interativa com sobreviventes do Holocausto para museus americanos. Aprimora a plataforma móvel e o estúdio em que grava depoimentos. 

Internet e redes sociais nasceram como uma maravilha da humanidade em que a tecnologia ficou à nossa disposição. Mas o lado sóbrio, nossos podres e a dark web apareceram juntas: golpes virtuais, fake news, discurso do ódio, manipulação de dados, invasão de privacidade.

Imagino que Nasa e Vaticano, dos primeiros a digitalizar e oferecer ao público seus conteúdos, no berçário da internet, entrarão de cabeça na conversa virtual. Imagine jantar no Natal com o papa holográfico, ou pousar na Lua...

A indústria erótica também vai se esbaldar, assim como já começaram os vibradores operados a distância. Mas tem os hackers. Já pensou Hitler entrar na sua sala e vociferar ódio, flagrar seu filho pedindo dicas a Jason, It a Coisa e Freddy Kruger do melhor jeito de matar alguém? Ou uma dupla sertaneja tocar sem parar, no meio do quarto, num anúncio não autorizado?

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

 

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