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Papai Noel

Quando você deixou de acreditar em Papai Noel?

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2016 | 02h00

Ho ho ho!

Quando você deixou de acreditar em Papai Noel?

Fiz esta pergunta a uma porção de amigos. A média ficou entre os 4 e 6 anos de idade, sendo que alguns mentiram para denotar precocidade. Fiquei na média, com viés de baixa. Foi meu pai quem me revelou toda a verdade ao me entregar o presente que eu havia pedido ao outro pai, Noel. Nenhum trauma ficou. Afinal, trazidos ou não pelo bom velhinho, os presentes nunca deixaram de chegar - e era isso o que mais me importava na noite de Natal, além das rabanadas, é claro. 

Meu pai fez a coisa certa. Melhor cair na real em casa do que na rua, desiludido por algum moleque mais safo do que você, como amiúde acontece. Se bem me lembro, havia levantado algumas dúvidas sobre a impossibilidade lógica de Papai Noel entregar tantos presentes em todos os cantos do planeta, numa única noite e a bordo de um trenó puxado por nove renas (eram oito antes da inclusão de Rudolph, no século passado). Quando pinta esse tipo de questionamento é sinal de que chegou a hora de abrir o jogo com seu filho. Até para ficar com alguma credibilidade para quando ele começar a lhe fazer embaraçosas perguntas sobre a vida e os milagres de Jesus Cristo.

Noel não é uma divindade. Os adultos não acreditam nele, como acreditam em Deus e Jesus, mas estimulam seus filhos a cultuá-lo e perpetuar suas inacreditáveis façanhas entre os netos e demais descendentes. Diferençar as crianças dos adultos de maneira tão capciosa - as crianças não devem mentir, mas podem ser enganadas, ao passo que os adultos não devem ser enganados, mas podem mentir - é uma maldade com elas, condenou o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, num famoso ensaio sobre Noel, muito mais complexo do que esta minha redução deixa transparecer. Seu ponto de partida foi um fait divers natalino, de grande repercussão na França.

Na véspera do Natal de 1951, um boneco reproduzindo a figura de Père Noel foi enforcado e incinerado defronte a catedral de Dijon, diante de 250 crianças, por ordem de alguns religiosos locais, em pé de guerra com o que chamavam de “paganização da Natividade”, ou seja, a preponderância de Noel sobre menino Jesus e a manjedoura nas festividades natalinas. Pegou mal. “Recende à Inquisição”, acusou um jornal. O clero baixou a crista.

Lévi-Strauss intrometeu-se na polêmica com seus dotes estruturalistas (o ensaio, Papai Noel Torturado, foi publicado na revista Temps Modernes, em março de 1952), e traçou curiosos paralelos entre o Natal cristão e sua relação com a vida (o nascimento de Jesus) e o Natal pagão e sua relação com a morte e a ressurreição (do sol, no solstício de inverno) - com o herético Noel ocupando o centro da ribalta.

Quem mais profusamente me informou sobre o primeiro mito da garotada foi um sujeito chamado Roger Highfield. Nem sei se ainda vive, mas era, quando o conheci, um jornalista londrino especializado em ciências. Mesmo sem acreditar em Noel desde a mais tenra idade, interessou-se por sua lenda e estudou-a como quem segue a trajetória e as proezas de um santo com um passado real. Do que apurava, vasculhando trivialidades e enigmas natalinos, dava conta em sua divertida coluna no Daily Telegraph. Uma curiosidade puxava outra, num vórtice de deliciosas absurdidades.

Por que o bom velhinho, apesar da idade avançada, do excesso de peso e do diabetes (uma das “descobertas” de Highfield), prefere entrar pela chaminé e não pela janela, dos fundos, onde tampouco seria visto? Porque em sua primeira encarnação, ao financiar, sorrateiramente, o dote das filhas de um nobre falido com três sacolas de ouro, deixou a terceira despencar pela chaminé. E a superstição prevaleceu.

Naquela época, Noel ainda era Nicolau: um bispo cristão, sem barba branca nem pança, sempre retratado com uma Bíblia na mão. Teria morrido em 6 dezembro de 352, em Mira (atual Demre), no sudoeste da Turquia, onde, aliás, existe uma igreja de São Nicolau, em estilo bizantino. Seu nariz rubicundo foi de tanto apanhar sol no Mediterrâneo, não de pegar frio no Ártico. Seu deslocamento para as terras árticas do Norte da Europa - migração bem ao gosto da sensibilidade europeia do século 19 - foi manobra de marqueteiros da indústria e do comércio natalinos, com um empurrão decisivo dos americanos. O turismo dos países escandinavos fatura horrores até hoje.

Voltemos a Highfield. Todas as minhas dúvidas infantis e mil outras mais foram, se assim posso dizer, saciadas por ele; na coluna e, depois, nos livros Can Reindeer Fly? (Rena voa?) e The Physics of Christmas (A física do Natal). Para entender como Noel dá conta de todas as suas entregas no espaço de algumas horas e operando em fusos horários diferentes, Highfield recorreu à mecânica quântica, à nanotecnologia, à engenharia genética e à informática. Nem assim me convenceu, certamente porque não entendo patavina das três primeiras e da terceira tenho um conhecimento pouco mais que basal.

Um matemático de respeito, Ian Stewart, da Universidade de Warwick, contribuiu para essa diletante discussão com uma tese estrambótica: as renas de Noel seriam dotadas de uma misteriosa engenhoca no topo da cabeça que lhes permitiria voar com rapidez supersônica. Os esgalhos das renas, segundo Stewart, são “dispositivos aerodinâmicos transônicos”, que em alta velocidade se dobram como as asas do extinto Concorde e fazem o trenó, de tão rápido, tornar-se invisível a olho nu e indetectável por qualquer radar. 

Bem melhor me dei consultando, sobre a mesma questão, Unweaving the Rainbow (Desafiando o arco-íris), do cientista britânico Richard Dawkins. Que foi direto ao ponto. Também calculou que Noel precisaria voar mais veloz que o som para visitar numa única noite os 850 milhões de lares estimados por Simon Singh (autor de O Enigma de Fermat e noelólogo amador), mas seu home delivery produziria nos céus uma barulheira infernal, um sucessão de estrondos apocalípticos. Como a noite de Natal é, por tradição e natureza silenciosa (“Silent night, holy night...”), Dawkins liquidou a polêmica com esta peremptória conclusão: do ponto de vista científico, não há a menor possibilidade de Papai Noel existir.

Recolham os seus sapatinhos. E tenham um feliz Natal.

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