Papagaios noturnos

Depois da Olimpíada, a ressaca. Mas durante o breve período dos jogos olímpicos, nós, que lutamos contra o sedentarismo e dores lancinantes na coluna, revivemos o tempo em que praticávamos esportes em várzeas, praças, quintais e descampados. Um insolente amigo sessentão chegou a afirmar que jogava melhor que Rafael e Juan, a quem atribuiu a derrota da seleção brasileira de futebol na disputa pela medalha de ouro. O que ele disse sobre o técnico Mano é impublicável.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2012 | 03h07

Nem de longe fui esse craque que meu amigo afirma ter sido. Tampouco não era dos piores em três esportes que me fascinavam: tênis de mesa, futebol e judô. Nos dois últimos era apenas um atleta razoável, um jogador e lutador sem muito brio nas peladas em balneários ou nas lutas no tatame no porão de minha casa. Mas no tênis de mesa eu não fazia feio e, por pouco, não fui adiante. Nesse mesmo porão havia uma mesa oficial, adquirida por um de meus tios, que se tornou tricampeão amazonense de tênis de mesa. Ele e tantos outros jovens foram inspirados por Biriba, um dos grandes mitos do esporte brasileiro e um dos maiores mesa-tenistas de todos os tempos: o garoto que em 1961 derrotou Jung Kuo Tuan no Mundial de Pequim.

Meu tio, que em 1958 morava em São Paulo, assistiu à histórica partida em que Biriba derrotou o campeão mundial Toshiaki Tanaka. Poucos anos depois, de volta a Manaus, esse tio, que só falava na façanha de Biriba, me ensinou a jogar tênis de mesa. E eis que, em 1966 ou 67, ele entrou em casa com Biriba, que passava uma breve temporada no Amazonas. Vi de perto o mito de um dos meus esportes preferidos, assisti a várias partidas em que ele derrotou facilmente meu tio, que mal conseguia aparar os venenosos saques de efeito e as cortadas sempre certeiras, como se a bola faiscasse no ar e fulminasse o adversário com o estalo de uma chicotada.

Hoje, quando penso nessas partidas de Biriba, logo me vem à mente o poder de intuição e concentração do atleta genial, o modo de se posicionar e se movimentar em volta da mesa, o momento propício para a cortada fatal, habilidades que dependem muito da técnica e do treino obstinado, mas não apenas disso. Porque o desempenho de um grande jogador depende de algo mais, que eu não saberia nomear com precisão; talvez um dom particular, uma sensibilidade inerente a um tipo de esporte, uma sabedoria que transcende a técnica e o preparo físico, algo de que são dotados alguns poetas, músicos, atores e artistas.

Depois das surras sucessivas que Biriba deu no tricampeão amazonense, desisti do tênis de mesa e me dediquei a um esporte mais solitário: empinar papagaio. Passava cerol na linha, amarrava uma lâmina na extremidade da rabiola e participava de batalhas aéreas com papagaios belíssimos, que exibiam desenhos geométricos em papel de seda colorido. Voavam nas alturas e quase podiam tocar as nuvens. Não conhecíamos nossos adversários, e isso mitigava a humilhação dos vencidos e a exaltação dos vitoriosos.

Lembro que no fim de uma tarde, sem adversários à vista, fiquei flechando o belo objeto de papel, que ondulava no ar sob meu comando. Aos poucos, fui descaindo toda a maçaroca de linha até o papagaio tornar-se um ponto quase indistinto no céu anilado. Enquanto segurava a linha, sustentando no ar o papagaio invisível, minha imaginação também voava. Já escurecia quando vi uma estrela, e pouco depois uma constelação cobriu o céu do Amazonas.

Não abandonei o futebol, o judô e o tênis de mesa, mas descobri outro esporte, sem vencedores nem vencidos, que era um convite à divagação e a viagens imaginárias na solidão noturna de minha aldeia.

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