Papa João Paulo II lança novo livro

O papa João Paulo II diz, em seu novo livro, que a Europa que foi comunista deve se proteger do que ele chamou "padrões culturais negativos" vindos do ocidente. Além disso, ele compara o aborto ao Holocausto, dizendo que ambos surgiram de governos em conflito com as leis de Deus. O papa também expressou sua boa vontade em relação a Mehmet Ali Agca, o turco que atirou contra ele em 1981.Em Memory and Identity: Conversations Between Millenniums (Memória e Identidade: Conversas Entre Milênios), o pontífice nascido na Polônia reflete sobre vários tópicos, inclusive os atentados contra ele, e as lutas do século 20 contra o Nazismo e o Comunismo e o valor da vida humana. O livro - o quinto do papa - será lançado na próxima semana na Itália, mas uma versão prévia em polonês foi disponibilizada hoje para a agência de notícias Associated Press pela editora Znak. O livro chega às livrarias polonesas apenas em 11 de março. O papa diz que os países libertados da dominação da União Soviética e do Comunismo no final da Guerra Fria, entre 1989 e 1990, inclusive sua Polônia natal, cuja maioria da população é católica, agora precisam resistir a influências culturais da Europa ocidental. "A ameaça básica que a Europa Central enfrenta agora é a identidade dominada... Qual o risco?", ele escreveu. "Ela está caindo, sem críticas, na influência do padrão cultural negativo espalhado pelo Ocidente". O papa escreveu que, durante a luta contra o comunismo, "esta parte da Europa completou uma tarefa de maturação espiritual graças a certos valores importantes para a vida humana que foram mais desvalorizados que no Ocidente. Lá, a convicção de que Deus é o maior responsável pela dignidade humana e pelos direitos dos homens ainda está viva". O papa também compara largamente a legislação que permite o aborto ao Holocausto, o assassinato pelo governo de nazista de 6 milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, dizendo que os dois surgiram quando as pessoas decidiram usurpar a "lei de Deus". "Foi um parlamento legalmente eleito que permitiu a eleição de Hitler na Alemanha nos anos 1930 e o mesmo Reichstag deu a Hitler poderes que formaram o caminho para a invasão política da Europa, a criação dos campos de concentração e a introdução da chamada "solução final" para a questão dos judeus, que significava o extermínio de milhões de filhos e filhas de Israel. O papa continua, dizendo "nós temos de questionar as regulamentações legais que foram decididas nos parlamentos das democracias atuais. A associação mais direta que vem à mente são as leis de aborto. (...) Parlamentos que criaram e promulgaram leis devem estar conscientes de que transgrediram seus poderes e continuam em conflito aberto com a lei de Deus e a lei da natureza". Na parte mais pessoal do livro, João Paulo lembra de como a fé o sustentou durante o sofrimento que passou após levar um tiro no abdome, disparado por Agca. "Eu me lembro da ida para o hospital", escreveu o papa. "Eu fiquei consciente por um período. Mas eu tinha a sensação de que eu iria sobreviver. Eu estava com dor, eu tinha motivos para sentir medo, mas eu tinha um estranho sentimento de confiança". O papa também descreve um encontro que teve, em 1983, com Agca, na prisão de Roma, uma conversa que lhe deu a sensação de que ele de alguma forma havia tocado o homem que o tentou matar. "Acredito que Ali Agca entendeu que acima de seu poder - o poder de atirar e matar - existe um poder maior", escreveu o papa. "Ele começou a olhar para isso. Eu espero que ele o encontre". Agca foi extraditado para a Turquia depois de ficar quase 20 anos preso pelo crime e continua atrás das grades por outros crimes. O livro é essencialmente uma transcrição de conversas que o papa teve em polonês com dois amigos próximos o filósofo político KrzysztofMichalski e o falecido reverendo Jozef Tischner, em 1993, em sua residência de verão perto de Roma. O lançamento do livro acontece no momento em que o pontífice de 84 anos se recupera de uma gripe e de problemas respiratórios que o levaram para o hospital em 1.º de fevereiro, onde ele ficou por dez dias. O primeiro livro do papa, Crossing the Threshold of Hope, foi lançado há dez anos e vendeu 20 milhões de cópias, sendo um best seller internacional.

Agencia Estado,

17 de fevereiro de 2005 | 18h48

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